Empreendedores que salvam vidas

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Quando Filipa foi diagnosticada com um cancro na mama em estágio avançado, toda a família ficou em choque. A sentença, inesperada para quem ainda nem entrara nos 30, passava pela necessidade de remover o peito e enfrentar duríssimos tratamentos de quimioterapia agressiva para tentar controlar a evolução da doença. Um quadro assustador que um rastreio precoce podia ter evitado com cuidados mínimos. Mas uma realidade que é comum a 37% das mulheres diagnosticadas com cancro da mama - muitas vezes por não cumprirem o autoexame ou, fazendo-o, por não saberem identificar os sinais de perigo.

A simplicidade com que o caso de Filipa e de outras 7 mil mulheres que todos os anos recebem diagnóstico semelhante podia ter sido evitado ou atacado numa fase muito menos lesiva pôs o primo a pensar. Aluno de Engenharia Biomédica, Francisco Nogueira juntou-se a Frederico Stock e começou a olhar para soluções que pudessem ajudar, a ensaiar métodos capazes de tornar mais eficaz o autoexame mamário, evitando que tantas mulheres passassem pelo mesmo que a prima (saiba mais aqui).

Das cabeças e do trabalho desenvolvido pelos dois jovens empreendedores saiu a Glooma, uma luva conectada a uma app que usa tecnologia para detetar e analisar o tecido mamário na auto-apalpação, disparando mensagens de alerta sempre que detete irregularidades que justifiquem encaminhar a mulher para exame médico mais cuidado. Vencedora de prémios atrás de prémios, num ano a Glooma passou com distinção várias fases de ensaios clínicos e recebeu já financiamento para se desenvolver de forma que possa ser livremente comercializada (farmácias, parafarmácias e afins) já no arranque de 2023, para surtir o efeito pretendido de prevenção.

O cancro da mama é o mais comum nas mulheres e a segunda causa de morte por doença oncológica entre as portuguesas. A Glooma não vai acabar com a doença, mas pode ajudar a reduzir substancialmente a sua incidência no estado mais grave.

A pandemia de covid veio piorar brutalmente o cenário negro que aponta o cancro como a segunda principal causa de morte em Portugal (um quarto dos óbitos) - só superado pelas doenças cardiovasculares, responsáveis por uma em cada três mortes em Portugal.

Com 500 mil cirurgias canceladas (25% das que se fazia em pré-pandemia), perto de 4 milhões de visitas às urgências a menos (-40%) e uma estimativa de 5 mil cancros por diagnosticar, muitos dos casos que vão chegando aos hospitais já implicam soluções radicais ou estão para lá de qualquer possibilidade de tratamento.

Neste quadro, porém, há luz e esperança. Que passa pelo impulso dos nossos empreendedores em busca de soluções de deteção precoce, como a Glooma de Francisco Nogueira, mas também de tratamentos inovadores que já vão marcando pontos, da imunoterapia a bloqueadores, a medicamentos direcionados que agem especificamente nas proteínas dos tumores, substituindo a agressiva quimioterapia. O trabalho desenvolvido no Centro de Medicina de Precisão do IPO do Porto é outro exemplo, capaz de muar radicalmente o caminho no que respeita aos cancros raros em Portugal.

Lado a lado, comunidade médica, farmacêutica e tecnológica têm desenvolvido métodos extraordinários, terapêuticas transformadoras, soluções revolucionárias e até cirurgias de alta precisão que trazem mais esperança à luta contra o cancro. A nós, enquanto país e sociedade, cabe-nos limpar o caminho de empecilhos e incentivar essa veia empreendedora capaz de nos salvar, enquanto povo e enquanto país.

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