Maduro responde à UE: "Não aceitamos ultimatos de ninguém"

Presidente venezuelano, numa entrevista ao programa Salvados, da estação espanhola La Sexta, diz que o ultimato é como se dissesse à União Europeia: "Dou-lhe sete dias para reconhecer a república da Catalunha."

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, disse esta noite que não aceita ultimatos de ninguém, numa referência ao prazo dado por vários países da União Europeia (incluindo Portugal) para que convoque eleições presidenciais antecipadas. O ultimato termina neste domingo e amanhã esses países vão reconhecer Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, como presidente interino da Venezuela.

Maduro foi o convidado do programa Salvados, do jornalista Jordi Évole, da estação de televisão espanhola La Sexta. "Não aceitamos ultimatos de ninguém. É como se eu dissesse à União Europeia: 'Dou-lhe sete dias para reconhecer a república da Catalunha'", respondeu o presidente venezuelano diante do jornalista catalão. Espanha recusou o referendo independentista catalão.

O presidente venezuelano tomou posse para um segundo mandato a 10 de janeiro, mas este não é reconhecido por parte da comunidade internacional, que considera que as eleições de maio foram fraudulentas. Guaidó declarou-se presidente interino a 23 de janeiro. Vários países europeus deram na semana passada um ultimato de oito dias a Maduro para que convocasse eleições presidenciais, ameaçando reconhecer Guaidó caso não o fizesse. Portugal é um deles, preparando-se para fazer esse reconhecimento político nesta segunda-feira.

"Porque é que a União Europeia tem de dizer a um país do mundo que já fez eleições presidenciais que volte a repeti-las", questiona Maduro, que deixa claro que não irá dar o braço a torcer.

Ataques a Sánchez

Nas eleições de maio, lembrou o presidente, "tive 33% dos votos dos eleitores venezuelanos. Muito mais do que o candidato perdedor Pedro Sánchez e qualquer candidato em Espanha". Maduro referia-se ao primeiro-ministro socialista espanhol, que está no poder depois de uma moção de censura ao governo de Mariano Rajoy, que tinha ganho as eleições.

Não foi a única vez que atacou Sánchez, acusando de "repetir a história de [José Maria] Aznar" e de "ter cometido um erro nos últimos dias" ao querer tornar-se uma referência da esquerda. E apelidou Sánchez de "farsante" que "nunca foi eleito por ninguém", ao contrário dele próprio. "Sánchez devia convocar eleições porque é um presidente não eleito", acrescentou.

Atacou ainda outros políticos espanhóis: sobre Pablo Casado, líder do PP, e Albert Rivera, do Ciudadanos, falou num "espetáculo de uma direita que despreza muito" a Venezuela, "um desprezo de uma visão neocolonial". Sobre Pablo Iglesias, do Podemos, deixou o aviso: "Devia preocupar-se mais em unir o seu partido em vez de pressionar."

Em relação à Venezuela, reiterou que não recusa convocar eleições: "Há eleições presidenciais em 2024." De resto, reitera que aquilo de "que está a precisar a Venezuela é de umas eleições no Parlamento". A Assembleia Nacional venezuelana é o único órgão dominado pela oposição.

"Na Venezuela há um único presidente em exercício, que tem as faculdades e os poderes económicos, institucionais, etc.", referiu, dizendo que em 2015 a oposição ganhou uma eleição e que o regime tem "tentado conviver com esse Parlamento" mas "foi impossível".

Críticas aos EUA

A 23 de janeiro, Guaidó declarou-se presidente encarregado, citando os artigos da Constituição venezuelana que apontam para um vazio de poder pelo não reconhecimento de Maduro. Segundo a lei, cabe ao presidente da Assembleia Nacional assumir o cargo para convocar eleições antecipadas. "Autoproclamar-se não tem base legal nenhuma", referiu Maduro.

Desde então, Guaidó conquistou o apoio de vários países - incluindo os EUA e vários países latino-americanos -, mas Rússia e China, entre outros, mantêm o apoio a Maduro. "A direita ganhou governos na América Latina e, infelizmente, alinharam-se de forma raivosa aos EUA", indicou, deixando claro que a Venezuela não deve ser subestimada. E atacou o presidente norte-americano: "Donald Trump é maluco." Para Maduro, a Venezuela é vítima de uma campanha norte-americana que os converteu "no inimigo número um".

"A pior alternativa é a guerra e nós nunca a iniciaremos", disse Maduro. "Se estiver nas nossas mãos, a Venezuela não vai ser um Vietname. Nós acreditamos na diplomacia, no entendimento. Fiz mil propostas aos EUA, mas a supremacia branca despreza-nos", acrescentou na entrevista a Évole.

"Todos os dias John Bolton [conselheiro de Segurança dos EUA] diz-nos que a opção militar está sobre a mesa. Eu gosto de dizer: 'se queres a paz, prepara-te para a defender. Nós estamos a preparar-nos'", referiu, dizendo que "o povo está a armar-se do ponto de vista profissional, institucional e constitucional. Em caso de um conflito internacional, o povo sabe aonde ir". E lembra que se os EUA atacarem "temos de nos defender".

"Isto não vai acabar mal. Temos 20 anos de experiência de luta", acrescentou o presidente venezuelano.

Autocrítica

Maduro admite ser "autocrítico" em relação ao seu próprio trabalho. "Desde o primeiro governo, e agora no segundo. Acho que estamos a falhar em muitas coisas", afirmou.

"Sem sombra de dúvida somos vítimas de uma agressão externa que prejudica. Mas, sem sombra de dúvida, somos responsáveis por muitas coisas que funcionam mal", acrescentou o presidente venezuelano, admitindo que a sua administração não é eficaz.

Maduro lembra que a Venezuela vive "uma guerra económica brutal", negando a existência de uma "crise humanitária". Em relação a números, cita os do desemprego. "Temos um desemprego abaixo dos 6% na situação em que estamos", refere, dizendo que muitos venezuelanos saíram do país "enganados".

Durante a entrevista, Évole mostra tentar telefonar a Juan Guaidó, diante de Maduro, mas o telefone dá como estando desligado. O presidente venezuelano preparava-se para deixar mensagem, mas a caixa de mensagens estava cheia. "Que pense bem o que está a fazer, que é um homem jovem, que ainda lhe restam muitos anos de luta, que não faça mais danos ao país, que abandone a estratégia golpista. Que deixe de simular uma presidência que ninguém elegeu. E que se quer fazer algo, que se sente numa mesa de negociação, frente a frente."

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