Premium "A grandeza de um político não é mandar tweets. É preciso fazer uma greve dos tweets"

Em Lisboa para participar na Noite das Ideias, na Gulbenkian, o sociólogo francês Dominique Wolton falou ao DN sobre fake news, sobre o seu fascínio pela União Europeia, sobre a necessidade de os media boicotarem os tweets de Trump e sobre a responsabilidade dos jornalistas na dimensão dada aos coletes amarelos.

Fake news, rumores, redes sociais. Esta democratização ao extremo da comunicação é cada vez mais perigosa?
Sim, porque nas redes sociais não há policiamento, não há regras. Todos podem exprimir-se. A expressão é democracia, mas ao fim de algum tempo transforma-se em tirania. Se não há controlo, podemos dizer qualquer coisa. Há 50 anos não podíamos imaginar uma coisa destas. O que é que dizíamos há 50 anos? Quanto mais informação houver, menos segredos e mais verdade haverá. Dizíamos que íamos controlar, não é verdade! Fake news! As pessoas adoram boatos, haverá cada vez mais boatos. Todos querem estar dentro do quarto do chefe do Estado para saber com quem ele dorme! Sim, há um verdadeiro problema de controlo. Logo, é preciso regulamentar a internet, é preciso que os jornalistas parem de achar que a verdade está nas redes sociais, que lembrem às pessoas que a grandeza da sua profissão é a construção de uma informação. Quer estejam certos ou errados, é uma profissão, com regras, com deontologia. Temos de acabar com a ingenuidade de acreditar que, só porque as pessoas se exprimem, estão corretas. Não! Expressão não é sinónimo de informação, não é sinónimo de verdade. Esta é uma luta política que os europeus têm de ser os primeiros a travar, porque foram eles que fundaram a democracia. E sim, é uma verdadeira ameaça.

Chegámos a pensar há uns anos que as redes sociais iam tornar os jornalistas desnecessários, mas, perante este cenário, podemos dizer que os jornalistas são cada vez mais essenciais?
Os próprios jornalistas acharam isso! Ficavam ali a olhar para as redes sociais e a dizer: "É formidável!" E eu dizia-lhes para pararem de ser tão simpáticos. Perguntava se não viam que ali se dizia toda a espécie de parvoíce. Felizmente, há tantos estragos agora que, se forem inteligentes, os jornalistas podem tirar disto lições positivas.

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