Saúde, mas pouca

"Apelámos aos médicos e 6800 disponibilizaram-se para ajudar o Serviço Nacional de Saúde, uma percentagem significativa de reformados e alguns disponíveis para apoiar sem receber", relata Miguel Guimarães, em entrevista ao DN. Explica depois o bastonário que, em mais um momento revelador do que tem sido a atitude da ministra da Saúde, em plena pandemia de covid. De uma ministra que consegue, apesar de todos os solavancos, atrasos e casos, fazer "um balanço muito positivo da campanha de vacinação" em Portugal.

Não é exclusivo destes tempos, mas é mais grave quando se vivem momentos difíceis, o autismo de quem exerce o poder esquecendo que este lhe foi confiado pelas pessoas, não é seu nem lhe permite todos os devaneios, antes o comprometendo moralmente a fazer todos os possíveis por entregar, no final desse exercício, um país melhor.

Em Portugal, porém, acredita-se que o poder é de quem o exerce e que por isso tudo pode. E muito raramente se pede responsabilidades - Azeredo Lopes demitiu-se de ministro quase um ano e meio depois do roubo das armas em Tancos e apesar da total confiança, afirmada e reafirmada por António Costa; Van Dunem foi publicamente elogiada pelo primeiro-ministro depois de provado o envio do procurador José Guerra com currículo falsificado a Bruxelas; no caso da morte de Ihor, preferiu-se desmantelar a polícia das fronteiras a deixar cair o responsável político, o mesmo Eduardo Cabrita que protagonizara já momentos incríveis como no caso dos contratos para compra de golas inflamáveis para as populações se protegerem nos incêndios.

Pela omnipotência, preserva-se, em nome da ideologia, justifica-se as más decisões. E os protagonistas passam, sacodem a água do capote e nem sequer entendem por que hão de ser vistos como responsáveis.

Se a gestão de uma pandemia é inconcebivelmente difícil, não é livre de erros - e quando estes se repetem e agravam não podem ser ignorados. Mas são-no, como se vê na entrevista do bastonário dos médicos. Toldada pela ideia de que a Saúde é - ou deveria ser - o SNS, a ministra Marta Temido ignorou acintosamente todas as vozes que saíam do que entende que devia ser o setor que tutela. Ignorou o papel do setor privado e social na resposta à covid e a outras doenças até a situação pandémica estar descontrolada. Discriminou-os na vacinação como se considerasse que há pessoal de primeira (o que se sacrifica nos hospitais do Estado) e de segunda (o que se vende aos malvados grupos privados). Manteve à distância os representantes das classes que tutela e fez orelhas moucas aos seus conselhos, preferindo debitar diariamente os números da desgraça ao lado da representante da Direção-Geral da Saúde, comprometendo um organismo que devia ser independente e autónomo do poder político.

Que fará a ministra - que fará o governo - a seguir, quando os megacentros para vacinar os portugueses estiverem abertos mas vazios porque não há profissionais para garantir os serviços?

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