A mãe República e os seus filhos

Maio de 2021 começa com maior esperança na contagem decrescente para o fim da pandemia, após mais de um ano de medidas restritivas em nome da saúde pública. Em Portugal, os primeiros dias de maio são marcados por três imagens. A primeira em redor do trabalho, como, por exemplo, a polémica em torno da situação pandémica da comunidade imigrante no concelho de Odemira e o recurso à figura da requisição civil de um espaço privado. A segunda por cenas de ajuntamento de jovens a beber no centro histórico de Lisboa, em festa sem uso de máscara, quando as autoridades alertam para que ainda não é tempo de baixar a guarda. A terceira é a reação dura de Rui Rio às críticas de António Costa, feitas numa entrevista exclusiva ao DN, JN e TSF, a propósito da imagem de "cata-vento" e da insinuação do líder do PS de colagem de Rui Rio a ideias de extrema-direita.

A entrevista do primeiro-ministro foi publicada sábado e domingo (dias 1 e 2) e o contra-ataque social-democrata aconteceu, por ironia, no pacífico Dia da Mãe, que este ano assumiu um valor simbólico acrescido para as famílias, após um ano de cuidados redobrados com os mais velhos, de ausências físicas prolongadas, de abraços e beijos que não foram dados durante longos meses. As famílias estão agora focadas nas respostas céleres que devem ser dadas, nos próximos dias e meses, quanto à vacinação a faixas etárias abaixo dos 70-60 anos ou quanto à capacidade de a economia recuperar rapidamente. As famílias dispensam polémicas político-partidárias estéreis, que nada resolvem na vida do cidadão comum.

A propósito do Dia da Mãe, há que lembrar que uma mãe luta sempre para que haja comida na mesa e os seus filhos sejam felizes, cresçam saudavelmente e, embora possam ter divergências, briguem o menos possível. A mãe República decerto dispensa que os seus pródigos filhos (seja um o primeiro-ministro, seja o outro o líder da oposição) iniciem, neste maio maduro de esperança, uma inesperada batalha de agressividade verbal, quando há tantas prioridades na saúde, na economia, no emprego, na educação ou na justiça e quando é essencial e estratégico travar o avanço de populismos e extremismos, de direita ou de esquerda.

A mãe República é uma trabalhadora incansável, tolerante, séria e tem marcas dos sacrifícios infligidos pela mais recente crise, quando ainda mal se tinha recomposto da anterior. Na verdade, está mais preocupada em esticar o orçamento doméstico, até porque antevê que ainda virão aí meses ou anos duros, mesmo que alguns dos seus filhos lhe digam que vem aí muito dinheiro e tudo vai ficar bem. De sorriso nos lábios, as mães sabem também ser intransigentes perante os comportamentos dos seus filhos e, regra geral, sabem como e quando agir para que a estabilidade impere em sua casa.

Dão liberdade aos filhos para dizerem o que pensam, mas encontram sempre formas de chamar à razão e de traçar linhas vermelhas quando os seus descendentes se ofendem ao ponto de colocarem em causa aquilo que é essencial: equilíbrio e paz. A mãe pode fingir que não viu nem ouviu a gritaria dentro de casa, mas decerto não vai querer que a cena se repita, tanto no tom como no conteúdo. Maio começa com um convite à reflexão de Costa e Rio, filhos mais velhos da República.

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