De que maneira a covid-19 poderá mudar o mundo?

A covid-19 está a devastar o mundo. Está num processo de infetar muitos (talvez até a maioria) de nós, matando alguns, bloqueando as nossas relações sociais normais, interrompendo a maioria das viagens internacionais e destruindo as nossas economias e o comércio. Como será o mundo daqui a alguns anos, depois de ter passado esta crise aguda?

Existe uma suposição generalizada de que em breve estarão aprovadas vacinas para nos proteger contra a covid-19. Infelizmente, essa perspetiva ainda é muito incerta. As doenças variam no seu potencial para serem prevenidas por vacinas.

Algumas vacinas - contra a varíola e a febre-amarela, por exemplo - oferecem proteção por décadas ou por toda a vida; contra a gripe, contudo, só o fazem por menos de um ano. E ainda não existem vacinas contra a malária e a sida, apesar dos enormes esforços investidos no seu desenvolvimento. A gripe sofre mutações frequentemente, ou as suas várias estirpes mudam proporcionalmente, de modo que uma nova vacina tem de ser desenvolvida todos os anos. E enquanto as vacinas contra a poliomielite e a varíola protegem a todos, as vacinas contra a gripe e a cólera protegem apenas cerca de metade dos indivíduos que as recebem. Portanto, é impossível de se prever a eficácia das anunciadas vacinas contra a covid-19.

Mas vamos supor que vacinas eficazes contra a covid-19 estejam disponíveis em breve. Como conseguirá isso mudar o mundo? Cientistas em muitos países - China, Estados Unidos, Rússia, Reino Unido e outros - estão numa corrida para as aprovar. Isso sugere o pior dos cenários, o melhor dos cenários e tudo o resto entre os dois.

Já existem muitos sinais de um pior dos cenários incipiente. Mesmo que algum país que desenvolveu uma vacina a teste e garanta a sua eficácia, 7,7 mil milhões de doses para 7,7 mil milhões de pessoas no planeta não poderão ser fabricadas e distribuídas em todo o mundo num piscar de olhos. Em primeiro lugar, os suprimentos serão escassos. Quem receberá as primeiras doses desejadas? As propostas de bom senso estipulam que as primeiras doses devem ser reservadas para o pessoal da saúde, porque todos os outros precisam das equipas médicas para administrar as doses aos restantes de nós e para cuidar dos doentes. Entre aqueles de nós que não são médicos, pode-se esperar que pessoas ricas e influentes encontrem maneiras de adquirir as doses antes das pessoas pobres e sem influência.

Porém, essas considerações egoístas aplicam-se apenas à distribuição de doses dentro do país que primeiro desenvolver uma vacina eficaz. É provável que haja egoísmo internacional também: um país que desenvolve uma vacina, certamente colocará os seus próprios cidadãos em primeiro lugar. Essa priorização já aconteceu no que diz respeito às máscaras: há alguns meses, quando eram escassas e alguns carregamentos da China chegavam à Europa, ocorreram disputas e lutas de licitações, alguns países procuravam garantir o abastecimento para si. Pior ainda, o primeiro país que desenvolveu uma vacina poderá negar-se a cedê-la a rivais políticos ou económicos.

Pensando bem, porém, políticas nacionais egoístas seriam suicidas. Mesmo no curto prazo, nenhum país pode alcançar a segurança duradoura contra a covid-19 para si mesmo eliminando a doença dentro das próprias fronteiras. No mundo globalizado de hoje, a covid-19 simplesmente voltaria para esse país vindo de outros que não tivessem eliminado o vírus.
Isso já aconteceu na Nova Zelândia e no Vietname, onde medidas rigorosas interromperam a transmissão local, mas os viajantes que regressavam continuaram a importar novos casos de covid-19. Isso ilustra uma importante conclusão: nenhum país estará seguro contra a covid-19 até que todos estejam. É um problema global que exige uma solução global.

Eu considero esse facto como uma boa notícia. Enfrentamos outros problemas globais que exigem soluções globais: especialmente as mudanças climáticas, o esgotamento de recursos em todo o mundo e as consequências desestabilizadoras da desigualdade entre os países no nosso mundo globalizado. Assim como nenhum país se consegue manter livre da covid-19 para sempre eliminando apenas o vírus dentro das suas fronteiras, nenhum país se pode proteger contra as mudanças climáticas reduzindo apenas a sua dependência em combustíveis fósseis e as suas próprias emissões de gases de efeito estufa. O dióxido de carbono atmosférico, assim como a covid-19, não respeitam fronteiras políticas.

Mas as alterações climáticas, o esgotamento de recursos e a desigualdade representam ameaças muito mais sérias à nossa sobrevivência e qualidade de vida do que a atual pandemia. Mesmo na pior das hipóteses, se todos os humanos na Terra fossem expostos à covid-19 e 2% de nós morrêssemos como consequência dessa exposição, isso significa "apenas" 154 milhões de mortes. Isso deixa 7546 milhões de pessoas ainda vivas, muito mais do que o suficiente para garantir a sobrevivência humana. A covid-19 é uma ninharia, em comparação com os perigos que as alterações climáticas, o esgotamento de recursos e a desigualdade representam para todos nós.

Então, por que razão não nos sentimos incentivados para agir contra as alterações climáticas e outras ameaças globais, quando estamos motivados pela ameaça comparativamente mais branda da covid-19? A resposta é óbvia: a covid-19 chama a nossa atenção, atacando ou matando as suas vítimas rápida e inequivocamente (no período de alguns dias ou semanas). Em contraste, a mudança climática destrói-nos lentamente e muito menos claramente por meio de consequências indiretas, como a redução da produção de alimentos, a fome, fenómenos climáticos extremos e a propagação de doenças tropicais em zonas temperadas. Consequentemente, temos sido lentos em reconhecer as alterações climáticas como uma ameaça global que requer uma resposta global.

É por isso que a pandemia da covid-19 me dá esperança, mesmo enquanto lamento a perda de amigos queridos que ela dizimou. Pela primeira vez na história mundial, as pessoas em todo o mundo estão a ser forçadas a reconhecer que todos nós enfrentamos uma ameaça comum e que nenhum país pode superá-la por si mesmo. Se os povos do mundo se unirem, compulsivamente, para derrotar a covid-19, poderão aprender uma grande lição. Poderão sentir-se motivados a unir-se, obrigatoriamente, para combater as alterações climáticas, o esgotamento de recursos e a desigualdade. Nesse caso, a covid-19 terá trazido não só tragédia, mas também salvação, colocando finalmente os povos do mundo numa rota sustentável.

Professor de Geografia na Universidade da Califórnia, Los Angeles. É vencedor do Prémio Pulitzer e autor de Guns, Germs and Steel (Armas, Germes e Aço), Collapse (Colapso) e outros bestsellers internacionais.
© Project Syndicate, 2020.

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