"Saí de casa. Era um stress constante pensar que podia infetar os meus filhos"

COVID-19

"Saí de casa. Era um stress constante pensar que podia infetar os meus filhos"

Cerca de 13 por cento dos infetados com covid-19 em Portugal são profissionais de saúde. O risco de contágio mantém-se elevado e isso tem levado muitos dos que estão na linha da frente do combate à pandemia a sair de casa para proteger a família. Falámos com três médicos.

Fez terça-feira duas semanas que João João Mendes, especialista em medicina interna e medicina intensiva, a trabalhar com doentes de covid-19 nas unidades de cuidados intensivos do hospital Amadora-Sintra e da Cuf Infante Santo, se mudou para um hotel.

Ainda antes de o primeiro caso ter sido notificado em Portugal, Margarida Lima, cirurgiã no IPO do Porto, entregou a filha aos cuidados da avó paterna.

Há duas semanas, após um período de 14 dias de quarentena e no dia em que regressou ao trabalho no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, o anestesista Nuno Oliveira decidiu mudar-se para um apartamento no centro do Porto que um amigo tinha em Airbnb.

Como estes três médicos, muitos profissionais de saúde estão a sair de casa para evitar os riscos de contagiar a família. Não é para menos. Entre os 9034 casos confirmados de covid-19 em Portugal até esta quinta-feira, 2 de abril, 206 eram médicos, 282 eram enfermeiros e 636 eram assistentes técnicos, assistentes operacionais e técnicos de diagnóstico.

"Estou preparado para estar pelo menos três meses fora de casa"

A trabalhar nos cuidados intensivos de dois hospitais exclusivamente com doentes de covid-19, João João Mendes saiu de casa no dia em que entubou o primeiro doente, faz nesta terça-feira duas semanas. O risco para a mulher e os dois filhos, um de 5 anos e outro de 7, tornou-se para ele incomportável. "Estou constantemente a circular entre dois hospitais e o maior risco de transmissão, neste momento, é entre profissionais. Eu trabalho nos cuidados intensivos, só vejo doentes covid, mas quando estou nos 'covidários', estou completamente protegido, o grande problema está nas zonas ditas limpas, em que basta um profissional estar infetado para o risco de ficarmos todos infetados ser enorme."

Não foi de ânimo leve que tomou a decisão e custa-lhe estar longe dos filhos e da mulher, mas sair de casa foi um alívio para o médico intensivista. "Está a ver o que as pessoas neste momento sentem quando têm de ir ao supermercado? Era isso que eu sentia, potenciado ao máximo. Já não me sentia bem em casa, estava lá mas na realidade não estava, andava em stress constante a tentar fazer circuitos de limpos e de sujos à semelhança do que fazia no hospital. Portanto, a única coisa que levava para casa era o stress e o risco".

"Não era comportável estar a trabalhar, haver um alto risco infeccioso, poder estar infectado e não saber - porque hoje sabe-se que há portadores assintomáticos que transmitem o vírus - e infectar as pessoas de quem mais gosto."

Com os turnos que está a fazer no Amadora-Sintra e na CUF Infante Santo, sobram-lhe oito horas por dia para dormir, que é o que faz no hotel, e tem a sensação de que viu e falou muito mais com os filhos e a mulher nestas duas semanas do que nas anteriores, quando estava em casa. "Agora, tenho a certeza de que ela e os miúdos estão protegidos e em verdadeiro isolamento. Os miúdos claro que se aperceberam de que não estou lá, mas continuam a sentir a minha presença com esta coisa porreira das novas tecnologias. Falamos e vemo-nos pelo WhatsApp. O que não dava era estar a trabalhar, haver um alto risco infeccioso, poder estar infetado e não saber - porque hoje sabe-se que há portadores assintomáticos que transmitem o vírus - e infetar as pessoas de quem mais gosto."

Resolvida a questão familiar, o foco de João João Mendes está agora inteiramente nos doentes que tem nos cuidados intensivos dos dois hospitais, todos com ventilação. No Amadora-Sintra faz turnos de 24 horas, na CUF de oito ou 12 horas. Um trabalho duro, "mas para todos os efeitos foi para isso que nos preparámos uma vida inteira", diz, tentando explicar de seguida o trabalho numa UCI.

"Os hospitais reorganizaram-se e neste momento temos unidades de cuidados intensivos que tratam exclusivamente doentes com covid-19. As salas onde estão os doentes têm uma pressão mais baixa do que o resto do hospital para não haver disseminação da doença para fora e para entrar temos de estar devidamente paramentados, com os equipamentos de proteção individual todos. Passamos o máximo de tempo tolerável lá dentro, assumindo não só as nossas funções médicas como as dos outros profissionais que trabalham connosco - enfermeiros, assistentes operacionais -, ou seja, se for preciso mudar uma fralda ou um saco da diálise é o médico ou o enfermeiro que lá está que faz isso, para minimizar os riscos para outros profissionais e maximizar a utilização do equipamento de proteção individual."

Quatro ou cinco horas seguidas de que se sai "encharcado em suor, cansado, cheio de dores de cabeça, de sede e de fome". Por enquanto - e João João espera que assim se mantenha e não se chegue à situação catastrófica de Espanha ou Itália -, são apenas quatro ou cinco horas por turno, após as quais o médico é rendido. Por isso é que é tão importante evitar a infeção de profissionais de saúde e manter controlados os números de novos casos diários: para garantir a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde. "O maior problema, maior do que o risco de ser infetado ou de estar a viver fora de casa, é ter de tomar decisões de alocação de ventiladores ou de camas de cuidados intensivos. Isso é que deve doer porque é contranatura para um médico."

Quanto tempo aguentará longe dos filhos e da mulher? "Até isto acalmar", diz o médico, que está preparado para não menos de três meses fora de casa.

A lidar com uma doença diferente de qualquer outra que tenha tratado e sobre a qual ainda tanto está por saber, João João Mendes vê luzes ao fundo do túnel. "Covid-19 evolui em várias fases, uma é relacionada com o vírus e outra tem que ver com a resposta inflamatória do organismo que quando é exacerbada compromete o funcionamento de vários órgãos. Não há drogas eficazes para a primeira fase, mas para a segunda já temos algumas que conseguem travar a resposta inflamatória e conseguimos melhorar um bocadinho os doentes. Estamos a conseguir perceber melhor os doentes graves nesta fase, que é aquela em que eles nos morriam, e estamos a conseguir intervir, portanto presumo que à medida que vamos avançando em termos de conhecimento da doença, conhecimento científico global e experiência pessoal, vamos conseguindo puxar a mortalidade para baixo."

Voltamos ao princípio e perguntamos quanto tempo aguentará longe dos filhos e da mulher. "Até isto acalmar", diz o médico, que está preparado para não menos de três meses fora de casa. "Na minha cabeça, há três cenários possíveis: a redução do risco de transmissão interpessoal e interprofissional, o que não acontecerá em menos de três meses; o menos desejável, sou infetado, mas corre bem, e ganho imunidade até haver uma vacina; é criada a vacina, estando os profissionais de saúde entre os primeiros a ser vacinados porque vão continuar a tratar covid-19 durante os próximos meses e anos. Só num destes cenários poderei voltar para casa."

"Sinto que a minha filha está bem e por isso aguento"

Três meses é também o tempo que Margarida Lima, cirurgiã no IPO do Porto, estima estar longe da filha de 11 anos. Embora não trabalhe com doentes covid, os seus pacientes estão entre aqueles que maior risco correm se forem infetados com a doença. E no seu hospital foram detetados casos, tanto entre profissionais de saúde como entre pessoas internadas.

"Não podemos dizer com segurança que não circulem lá pessoas com covid-19, assim como não podemos dizê-lo em relação à população, por isso estamos a seguir uma série de procedimentos rigorosos, como se todos estivessem infetados. Por exemplo, neste momento é feito rastreio a todos os doentes que são internados, tenham ou não sintomas", diz a médica, que desde que começaram a surgir notícias do surto de um novo coronavírus na cidade chinesa de Whuan preocupou-se e procurou toda a informação disponível em revistas científicas internacionais e em grupos de médicos de todo o mundo.

"Eu e mais meia dúzia de colegas desde o início achámos que isto não era uma gripe normal como se dizia. Percebi que vinha aí uma coisa muito má e que a Europa não estava preparada e comecei logo a pensar o que fazer com a minha filha, porque somos só as duas, eu e o pai divorciámo-nos e ele está fora, por isso só podia contar com os avós, mas sabia, do que li, que as crianças eram potenciais vetores e deviam estar afastadas dos avós, portanto logo em fevereiro, depois dos primeiros casos em Itália e ainda antes do primeiro caso em Portugal, entreguei-a à avó paterna."

Da hesitação ao alívio foi um instante, graças à eliminação do stress decorrente de todos os cuidados a ter se a filha continuasse a viver lá em casa. Entretanto, uma pessoa com quem trabalhava de perto testou positivo para covid-19 e Margarida Lima teve de cumprir quarentena. Foi só um susto, o seu teste deu negativo, mas para a cirurgiã estar em casa quando o país lá fora lutava contra a pandemia tornou-se uma angústia. "Estar em casa num contexto destes é das piores sensações. Quando estamos a trabalhar, sentimos que estamos a fazer qualquer coisa. Eu hoje operei duas pessoas com tumores e penso que lhes salvei a vida. Em casa sentia-me de pés e mãos atados."

Entretanto, regressou ao trabalho, como a maior parte dos seus colegas que também estiveram de quarentena, e sente que o período mais crítico já passou.

"Antes de terem sido decretadas as medidas de restrição e o isolamento, tive medo de uma catástrofe semelhante à de Itália e fiz barulho, mas as coisas foram-se compondo e penso que neste momento o país organizou-se bem. Mais uma vez este povo deu sinais de resiliência e de capacidade de se reinventar e até ventiladores e reagentes e viseiras de proteção conseguimos fazer em tão pouco tempo. Penso que estamos no bom caminho, mas é preciso que as pessoas não baixem a guarda porque, se o fizerem, a qualquer altura podemos voltar à estaca zero e ter um pico exponencial. A taxa de crescimento é baixa, mas não está tudo controlado. Os próximos 15 dias são cruciais", avisa a cirurgiã, que não acredita que possamos voltar aos poucos à normalidade antes do fim de maio.

A filha está bem - "é como se estivesse de férias com a avó" -, mas Margarida sabe que no início não foi fácil. "A miúda conteve-se para me ajudar com a decisão, mas custou-lhe. A mim também."

E aguenta até lá longe da sua filha? "Aguento, que remédio, porque sei que só assim garanto a segurança e saúde dela. Mau seria se ela estivesse numa cama de hospital. Mas eu vejo-a todos os dias, falo com ela ao portão. Ela vê-me de máscara, paciência, mas, mesmo a dois ou três metros de distância, não consigo tirá-la."

A filha está bem - "é como se estivesse de férias com a avó" -, mas Margarida sabe que no início não foi fácil. "A miúda conteve-se para me ajudar com a decisão, mas custou-lhe. A mim também." Como lhe custa a solidão. "O mais difícil é não ter ninguém com quem falar, nem que seja para chatear. Eu tinha um mundo à minha volta, família, amigos, sempre por perto, e tudo isso faz muita falta. Não tinha noção da minha vida social até isto acontecer. Nunca tive tanta vontade de abraçar pessoas como agora. Nós, profissionais de saúde, temos algumas características em comum, estamos preparados para aguentar qualquer coisa, para manter o sangue-frio, ainda mais na cirurgia em que tudo pode acontecer, mas somos seres humanos e às vezes a quebra vem-nos quando menos esperamos. Se calhar, quando isto tudo acabar, posso quebrar, mas até lá aguento-me".

"A prioridade é proteger a minha mulher e as minhas filhas"

Nuno Oliveira, anestesista no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, também decidiu há duas semanas mudar-se para o centro do Porto, para o apartamento que um amigo tinha em Airbnb e estava vago. Em casa, ficaram a mulher e duas filhas pequeninas.

A decisão foi tomada em coerência com as medidas restritivas e de isolamento impostas no país, mas que Nuno Oliveira sente não estarem completamente asseguradas em ambiente hospitalar.

Defensor do uso generalizado de máscaras pela população e do rastreio, através de testes, de todos os doentes que são admitidos para internamento, lamenta que essa medida, já adotada por alguns hospitais, como o São João e o IPO do Porto, não seja assumida como diretriz pelo Ministério da Saúde e a Direção-Geral da Saúde.

"Desejo, e muito, estar com a minha mulher e as minhas filhas, mas a prioridade continua a ser defendê-las"

"Os assintomáticos - não sabemos quantos são, mas sabemos que além de portadores são transmissores da doença - são uma questão premente. Enquanto não começarmos a testar todos os que são internados (duas vezes em 24 horas), tenham sintomas ou não, estamos a pôr em risco os outros doentes e os profissionais de saúde. Eu, como anestesista, estou no grupo de maior risco, porque tenho de entubar doentes, por exemplo. É muito crítico operarmos um doente a uma fratura do fémur, não tem sintomas, por isso não foi testado, mas passados dois dias está a tossir e é covid positivo. Na enfermaria onde estava, todos os outros doentes podem ter sido infetados quando ele estava assintomático e até fazer o teste, assim como os médicos e enfermeiros que o trataram e portanto têm de ir de quarentena e isto pode levar a um escalar da situação a nível hospitalar drástico e que é preciso conter", diz Nuno Oliveira, para explicar o contexto que o levou a sair de casa para proteger a mulher e as filhas, precisamente depois de acabar a quarentena que fez por ter estado na proximidade de alguém que testou positivo para covid-19.

"No primeiro dia que fui trabalhar estava a contar voltar para casa, mas levava um plano b e c para a possibilidade de não voltar. Acabei por optar pela última hipótese porque deparei-me com uma série de coisas que me fizeram questionar se não poderia ser contagiado mesmo tendo a proteção adequada. Foi há 20 dias, entretanto os protocolos foram estabelecidos com maior rigor e estou a pensar como poderei fazer para, em segurança, ir a casa matar saudades. Desejo, e muito, estar com a minha mulher e as minhas filhas, mas a prioridade continua a ser defendê-las", diz.

Sair de casa permitiu também a Nuno Oliveira focar-se no trabalho e não apenas no de anestesista. "A minha grande preocupação é que se garanta que os hospitais não sejam locais de disseminação da doença. A fase de mitigação, que está em curso na comunidade porque deixou de ser possível detetar cadeias de transmissão, não pode chegar ao hospital, porque isso acontecer seria o desmoronar não só do sistema de saúde como de tudo o resto: o balanço entre pessoas doentes e pessoas para assistir a esses doentes diminuiria drasticamente como aconteceu em Itália e Espanha e perderíamos o controlo."

Vítor Higgs (Ilustração) / Nuno Santos (Amimação) / DN

Reconhecendo que em 15 dias muito se avançou em resposta à pandemia e na organização hospitalar, o anestesista lamenta que se tenham perdido algumas oportunidades de aprender com os erros dos outros e lamenta algumas falhas como a abertura de todos os hospitais a doentes covid-19, antes ainda de estes estarem preparados para isso, ou que os testes a assintomáticos não sejam estendidos, além de todos os doentes que sejam internados, a todos os que trabalham em lares de idosos, que deviam também receber formação sobre os cuidados a ter para prevenir o contágio. "Testar aquando da admissão, além de evitar a disseminação hospitalar e logo na comunidade, permite a otimização de recursos. Eu neste momento tenho de abordar todos os doentes como se fossem covid, porque não sei se são ou não, o que significa um gasto maior de material de proteção."

Na opinião de Nuno Oliveira, apesar de saber que o modelo chinês de combate ao covid-19 não é replicável em alguns aspectos, há muito que podemos aprender com o país que conseguiu conter a pandemia em dois meses. "O know how temo-lo todo num compêndio covid-19 disponibilizado pelos médicos chineses. Eles estiveram sempre no plano de contenção, nunca de mitigação. Nós estamos longe dessa realidade."

Neste momento, o anestesista só vê dois caminhos para se voltar à normalidade e poder estar com a mulher e as filhas sem preocupações. "É preciso resolver globalmente para se resolver a nível local e só há duas formas de isso acontecer: uma vacina, que acho que vai conseguir-se em menos tempo do que é expectável e que devia ter sido feita quando houve a SARS 1 ou o MERS, porque agora estaria disponível em um ou dois meses, ou então o que a Alemanha está a tentar fazer que é conseguir identificar as pessoas que já estão imunes ao vírus com testes serológicos em larga escala."

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