Ronaldo insinua adeus para breve. Como foram as saídas de cena dos melhores de sempre

CR7 admitiu poder terminar a carreira dentro de dois anos e ao mais alto nível. Mas nem todos os grandes craques tiveram saídas por cima. Maradona foi prejudicado pelas drogas, Eusébio pelas lesões e Zidane despediu-se com uma cabeçada a um adversário.

Até que idade duram os maiores craques da história do futebol? E em que condições terminam a carreira? A questão vem a propósito das recentes declarações de Cristiano Ronaldo, que numa entrevista ao SportBible admitiu que já está a pensar no processo pós futebol e deixou no ar a possibilidade de abandonar a carreira no espaço de dois anos para se dedicar à área empresarial - o espaço temporal coincide com o final de contrato com a Juventus.

A concretizar-se, Ronaldo sai ao mais alto nível, num clube (Juventus) que vence há oito anos consecutivos a liga italiana, luta pela Champions, e ainda como figura maior da seleção portuguesa e do futebol mundial - é certo que estará no Europeu 2020, caso Portugal se apure, mas ficam dúvidas em relação ao Mundial 2022. Atualmente com 34 anos, o adeus, segundo o próprio, pode acontecer aos 36 anos, mas ainda na posse de todas as suas qualidades.

Mas nem sempre as saídas de cena de grandes figuras do futebol mundial se dão a um nível tão elevado. Desde as drogas que acabaram com a carreira de Maradona, às lesões que impediram Eusébio de estar mais tempo ao mais alto nível e que também terminaram com a carreira de Van Basten aos 30 anos, há várias justificações para o fim. E até uma despedida de um dos jogadores com mais classe de sempre, e tido como um exemplo, que terminou manchada com uma cabeçada num adversário numa final de um mundial.

Alfredo Di Stéfano (40 anos, no Espanyol)

O avançado nascido em Buenos Aires e que chegou a representar as seleções de Argentina, Colômbia e Espanha é considerado um dos maiores futebolistas de todos os tempos, grande figura do Real Madrid durante mais de uma década - Emilio Butragueño chegou a dizer que "a história do Real Madrid começou com a chegada de Di Stéfano". Di Stéfano, que entre outras alcunhas era chamado de Flecha Loira, colocou um ponto final na carreira aos 40 anos, no Espanyol, clube de Barcelona, que representou entre 1964 e 1966, precisamente depois de ter deixado o Real Madrid, onde ficou para sempre uma lenda. Ele que ao serviço do Real marcou 227 golos (foi durante anos um recorde, até ser batido por Raúl e Cristiano Ronaldo), apontou na sua última época como jogador, ao serviço do Espanyol, quatro golos em 29 jogos. Isto aos 40 anos!

Garrincha (39 anos, no Olaria)

Mané Garrincha, o "anjo das pernas tortas" que se evidenciou pelos dribles que trocavam os olhos aos adversários, um dos maiores extremos-direitos de sempre do futebol mundial que se sagrou campeão do Mundo pelo Brasil em 1958 e 1962, terminou a carreira em 1972, no modesto Olaria. Tinha 39 anos. Nesta fase da sua vida já não era o mesmo jogador ídolo dos adeptos do Botafogo e que tinha encantado ao serviço dos canarinhos. E viu a sua carreira prejudicada pelo consumo de álcool, tabaco e outros excessos, e também por uma certa rebeldia que fugia ao protótipo do futebolista da altura - morreu em 1983, vítima de uma cirrose hepática, com apenas 49 anos. "O contacto de Garrincha com o álcool começou praticamente ao nascer, quando a sua família o alimentava com uma mamadeira contendo cachaça, mel e canela em pau", contou Ruy Castro, autor de uma biografia sobre o jogador brasileiro. "Foi estimulado desde cedo a beber e, durante muitos anos, isso não representou um problema maior. Até que, por volta dos 30 e poucos anos, o organismo apresentou-lhe a conta - Garrincha já não podia funcionar sem bebida", prosseguiu o escritor. Garrincha morreu na miséria. "Aqui jaz em paz aquele que foi a Alegria do Povo - Mané Garrincha", lia-se numa inscrição no seu túmulo.

Eusébio (38 anos, no New Jersey Americans)

Falar em Eusébio é recordar o grande Benfica dos anos 1960, que foi campeão europeu, e a seleção nacional no Mundial de 1966. Mas a carreira do avançado português, considerado um dos melhores futebolistas de todos os tempos, não parou quando em junho de 1975 deixou o seu clube de sempre, fustigado por várias lesões nos joelhos (só ao esquerdo foi operado seis vezes). Entre 1975 e 1980, o King, como era chamado, ainda vestiu em Portugal as camisolas do Beira-Mar e do União de Tomar, passou por um clube mexicano (Monterrey) e representou vários clubes nos Estados Unidos, já numa fase da carreira em que não exibia o brilho de outros tempos. Muito por culpa das lesões que sofreu, que o impediram de continuar mais anos no estrelato. Tal como Pelé, a saída para a América foi uma forma de fazer contratos vantajosos do ponto de vista financeiro. Eusébio terminou a carreira ao serviço do New Jersey Americans, no futebol indoor dos EUA, jogando apenas cinco jogos na temporada de 1979-1980 e marcando um golo. Tinha 38 anos. Em Portugal, o último jogo realizado foi pelo União de Tomar, na II Divisão a 30 de abril de 1978. E pela seleção portuguesa fez a última partida a 13 de outubro de 1973, no empate 2-2 frente à Bulgária, na Luz, no apuramento para o Mundial de 1974.

Pelé (36 anos, no New York Cosmos)

Considerado por muitos o melhor jogador da história do futebol, o avançado brasileiro terminou oficialmente a carreira aos 36 anos. Depois de ter feito todo o seu trajeto no Santos (19 anos ao serviço do clube paulista), e de ter ganho três Mundiais com a camisola do Brasil (1958, 1962 e 1970) e apontado mais de mil golos, Edson Arantes do Nascimento deu início a uma aventura de dois anos nos Estados Unidos, assinando um contrato milionário com o popular New York Cosmos, clube norte-americano pelo qual se sagrou campeão, e que lhe pagou, através da Warner, quase cinco milhões de dólares. Isto numa altura em que as finanças do Rei não estavam nada bem. E foi por isso que entendeu estender a carreira. A despedida, aos 36 anos, a poucos dias de completar 37, aconteceu a 1 de outubro de 1977, num particular entre o Santos e o Cosmos, os seus únicos clubes, com vários convidados ilustres nas bancadas de um estádio de basebol que à última hora foi adaptado para receber um jogo de futebol - entre a assistência estavam Muhammad Ali, Roberta Flack, Mick Jagger, Robert Redford e Henry Kissinger. Nos EUA realizou 111 jogos e marcou 65 golos.

Johan Cruyff (37 anos, no Feyenoord)

Um dos maiores jogadores do futebol mundial, símbolo do Ajax, do Barcelona e da seleção holandesa que encantou o mundo nos anos 1970. Cruyff saiu de cena em 1984, com 37 anos, ao serviço do Feyenoord, para onde se transferiu na temporada 1983-1984 naquilo que foi interpretado como uma vingança, depois de o Ajax, o seu clube de sempre e para o qual tinha regressado depois de experiências nos Estados Unidos e no Levante, da II Divisão de Espanha, o ter dispensado por se recusar a pagar o salário que o jogador exigia. Já sem a velocidade de outros tempos, ainda se destacou pela visão de jogo e pela classe que espalhava nos relvados. Terminou com o título de campeão holandês, numa temporada onde marcou 13 golos em 44 jogos, e numa equipa onde começava a despontar Ruud Gullit. Ajudou o Feyenoord a quebrar um jejum de dez anos sem vencer o campeonato. Nesta altura já há vários anos que não ia à seleção holandesa - a sua última aparição com as cores laranja foi em 1977 e depois disso falhou o Mundial de 1978. Há quem diga que devido a problemas conjugais, outros defendem que foi uma forma de protesto contra a ditadura militar da Argentina, país que recebeu o Mundial nesse ano.

Michel Platini (32 anos, na Juventus)

O médio francês foi um dos melhores jogadores da década de 1980 e ainda hoje considerado uma das maiores estrelas do futebol francês, três vezes vencedor da Bola de Ouro (1983, 1984 e 1985). Mas acabou a carreira prematuramente, por opção, aos 32 anos, ao serviço da Juventus, em junho de 1987, numa temporada onde realizou 41 jogos e marcou cinco golos, menos de metade dos remates certeiros que tinha alcançado na época anterior. Mas ainda a um grande nível. Formado no Nancy, foi depois ao serviço do Saint-Étienne que se deu a conhecer ao mundo e lhe permitiu em 1982 dar o salto para a Juventus. Para se perceber como a saída de cena foi prematura, basta recordar que Platini foi a figura da França no Mundial do México (golos decisivos contra a Itália e o Brasil), um ano antes de terminar a carreira, ajudando a seleção gaulesa a atingir a meia-final, que perdeu para a Alemanha. Pela Juventus conquistou, entre outros títulos, dois campeonatos e uma Liga dos Campeões. Pela seleção francesa foi campeão da Europa em 1984.

Marco van Basten (30 anos, no AC Milan)

Mais um grande craque, também vencedor de três Bolas de Ouro (1988, 1989 e 1992), que decidiu colocar um ponto final na carreira cedo demais. O avançado holandês Marco van Basten, figura do Ajax, AC Milan e da seleção holandesa, decidiu sair de cena aos 30 anos. Neste caso não se tratou de uma opção. Foram as lesões que não lhe permitiram continuar a jogar, um problema crónico no tendão de Aquiles do tornozelo esquerdo que o levou várias vezes à mesa de operações e que o impediu de jogar pelo AC Milan durante dois anos. Em 1995, desistiu de lutar. E na véspera de um Milan-Juventus, anunciou que ia deixar o futebol. No dia a seguir, antes do jogo, entrou vestido à civil no relvado para se despedir dos adeptos, levando na altura o treinador Fabio Capello às lágrimas: "Quando vejo as imagens da despedida dele em San Siro, ainda me sinto comovido. Senti uma injustiça enorme pelo facto de ele ter de parar", lembrou anos mais tarde Capello. O anúncio só surgiu em 1995, mas o último jogo feito pelo goleador holandês tinha acontecido dois anos antes, na final da Liga dos Campeões que o Milan perdeu para o Marselha. O problema no tornozelo era antigo e teve os primeiros sintomas em 1987, mas isso não o impediu de continuar a brilhar nos relvados. Até que não deu mais.

Diego Maradona (36 anos, no Boca Juniors)

Um dos futebolistas mais talentosos de todos os tempos, com momentos brilhantes e lances de génio ao serviço da seleção argentina, Boca Juniors, Barcelona e Nápoles, Maradona colocou um ponto final na carreira aos 36 anos. Campeão do Mundo pela Argentina em 1986, e vencedor de uma de duas ligas italianas e uma Taça UEFA, fez o seu último jogo a 25 de outubro de 1997, com a camisola do Boca Juniors num superclássico diante do rival River Plate - jogou apenas a primeira parte. Fê-lo numa altura em que corriam rumores de um novo controlo antidoping positivo, ele que ao longo da carreira foi alvo de vários castigos por uso de drogas e substâncias proibidas. Além de outros escândalos protagonizados fora dos relvados. A carreira de El Pibe ficou por isso manchada pelo uso de drogas e entrou em declínio quando deixou o Nápoles - ainda representou o Sevilha, o Newell's Old Boys e regressou ao seu Boca para terminar sem glória. Mas nem de perto nem de longe com o brilho de outros anos.

Zinedine Zidane (34 anos, no Real Madrid)

24 de abril de 2006. Numa entrevista ao Canal Plus, de França, Zinedine Zidane anunciou que ia deixar de jogar futebol após o Mundial desse ano, realizado na Alemanha. Toda a gente foi apanhada de surpresa, até porque tinha mais anos de contrato para cumprir com o Real Madrid. Ia fazer 34 anos em junho e estava ainda num grande momento de forma. A surpresa foi tanta que Zidane teve de explicar os motivos, confessando que já não sentia a mesma vontade de jogar e que tomava a decisão por estar cansado de não ganhar títulos. "Talvez possam considerar bizarro o que faço agora, mas é uma decisão devidamente refletida. É sobretudo o meu corpo. Disse a mim mesmo que não podia ficar um ano sem vencer e já vão três. Quando não se atinge objetivos, começamos a colocar questões. Sei que não posso fazer melhor do que tenho feito. Estou numa idade que começa a ser cada vez mais difícil. E não posso ter outro ano como este", resumiu. Zidane foi um monstro no meio-campo, um dos jogadores com mais classe de sempre do futebol, que brilhou na Juventus, no Real Madrid e na seleção francesa (ganhou o Mundial de 1998 e o Europeu de 2000). Mas o destino pregou-lhe uma enorme partida. Ele, que era considerado um exemplo no campo, perdeu a cabeça na final do Mundial, no seu último jogo, e deu uma cabeçada ao italiano Marco Materazzi. Foi expulso e a França perdeu o título para a Itália no desempate por penáltis. Um triste adeus para o Bola de Ouro de 1998.

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