A rainha portuguesa do fantástico aposta em mulheres fortes para contar as histórias

Sandra Carvalho acaba de lançar o seu 12.º livro, A Noite do Caçador. Uma saga em que continua a apostar em personagens femininas, feiticeiras e guerreiras, com a capacidade de se imporem num universo de homens.

A escritora Sandra Carvalho está certa de que em Portugal há lugar para o romance fantástico, um género muito pouco praticado no nosso país e do qual a autora é uma das principais protagonistas. Aliás, a sua longevidade literária - 12 livros - confirma que existem leitores até capazes de devorar uma saga de sete volumes como a que conta no seu currículo. Quando se lhe pergunta se tem leitores que já tenham lido todo o seu trabalho, revela: "Sim, muitos. Há até quem diga que as minhas histórias são um vício, porque quando se começa não se consegue parar."

Para Sandra Carvalho, "um bom romance é uma leitura de eleição, e a mistura com a fantasia e a realidade histórica torna-o ainda mais apelativo, pois consegue transportar o leitor para outras épocas e mundos distintos, bem como despertar a sua curiosidade sobre novos temas". Por isso, recorda que tem "leitores que não eram apreciadores de fantasia antes de mergulharem nas minhas histórias. Creio que tudo depende da verdade e da emoção que as palavras transmitem. Muitas vezes dizem-me que ler os meus livros é como ver um filme. Isso deixa-me contente e orgulhosa".

Confiante, dá ainda o exemplo de alguns "leitores que me afiançam já ter lido A Saga das Pedras Mágicas cinco ou seis vezes, ao longo dos anos, e que as sensações que retiram da história são sempre diferentes".

No mais recente livro, a ação difere de outros anteriores e Sandra Carvalho, Prémio Literatura 2019 - Mulheres Empreendedoras Europa & África, conta a história da feiticeira Korinna que implora ao renegado Theron que encontre uma cura para o seu tormento. A partir daí a trama complica-se e uma terceira personagem, Mikkel, vai ser confrontada com o seu destino e obrigada a atravessar os Pântanos dos Danados para... (quem tiver curiosidade em saber o desfecho, leia o livro)

Em entrevista, Sandra Carvalho só lamenta que este ofício não seja suficiente para o escritor viver apenas dele: "Acho que todos os autores que escrevem com paixão têm esse sonho. Porém, isso é difícil porque vivemos num país pequeno. Ainda assim, vou remando contra a maré... Estou orgulhosa das conquistas que já fiz e feliz com o apoio dos meus leitores. Sem dúvida, eles são os melhores do mundo."

O que procuram os leitores nestas histórias? Qual é o segredo desta literatura que tem tantos admiradores no mundo?
No imediato, julgo que procuram distrair-se da monotonia ou das vicissitudes do dia-a-dia, e voltar a experimentar aquele entusiasmo que nos rouba o fôlego das aventuras fantásticas que os mais velhos nos contam na infância. Depois, existe uma identificação com as personagens e a simpatia pelo ideal do herói que sofre mil penas e tem de lutar até ao limite para conquistar a felicidade ou salvar o mundo. Os leitores ficam em constante sobressalto para que, no fim, a recompensa seja mais doce. Acho que o gosto pela fantasia está intimamente ligado à capacidade de sonhar. Abraçar a nossa imaginação dá-nos ferramentas para construir, inovar e superar mais facilmente os obstáculos da vida. Esta literatura também convida à reunião e à troca de ideias. Não existem barreiras nem constrangimentos, como noutros géneros. O autor é livre para criar e o leitor sente-se à vontade para debater a história.

O fantástico é um género pouco cultivado no nosso país. Como surge esta paixão?
Esta paixão surgiu no colo da minha avó e da minha mãe. Ainda mais do que a magia das histórias que me contavam, fascinava-me a aventura, as batalhas, as intrigas que dividiam heróis e vilões. Com o tempo, a minha curiosidade pelos povos antigos foi crescendo e, com ela, a necessidade de aprender sobre os seus usos e costumes. Daí atribuir tanta importância à verdade e ao contexto histórico, e à personalidade das personagens, para que o mundo que imaginei se torne real aos olhos do leitor.

Entre os livros que já publicou estão duas sagas. Esse é um formato que lhe agrada?
Sim, porque à medida que vou construindo as histórias, outras ideias vão surgindo. Como sou incapaz de as ignorar, deixo-me levar pelo prazer de acompanhar as peripécias das personagens... e o número de páginas vai aumentando! A liberdade criativa é feita destas surpresas. Há sempre mais um cenário para explorar, uma informação para dar, uma emoção para viver. Mesmo A Noite do Caçador, estruturado como um único livro, cresceu para além do que eu previa.

Como cria o universo dos seus livros e como nascem as histórias?
Não sei explicar como nascem as minhas histórias. É como se estivessem adormecidas dentro de mim e, de repente, despertassem e exigissem atenção! Desde sempre, tudo me inspira: o mar, o campo, a cidade, as pessoas, os animais, um livro, um filme, uma música, uma conversa... A partir da ideia, lanço-me à investigação. Tenho dezenas de projetos iniciados na adolescência que ficaram incompletos, ou porque o meu interesse se deslocava para outro assunto, ou porque não possuía conhecimentos nem maturidade para lhes dar continuidade. Preciso de estar permanentemente a desafiar-me e a experimentar novos caminhos. Por isso ousei misturar fantasia com a nossa história e construir as Crónicas da Terra e do Mar, tendo por base o meu fascínio pela época dos descobrimentos, o meu encanto pelos Açores e a minha paixão por piratas.

A história portuguesa é um cenário inspirador para o fantástico ou demasiado particular?
Para ser sincera, nunca entendi porque é que a história de Portugal, uma das mais fantásticas do mundo, é tratada com tanta frieza sob a capa do rigor. Outros países, com histórias menos interessantes, empenham-se em dar ênfase aos seus feitos para que todos os conheçam... Até há poucos anos, a maior parte das pessoas com quem falava achava que a nossa história tinha de ser analisada em ambiente esterilizado e só podia ser tocada com pinças. Quando primeiro comentei a ideia para as Crónicas, parecia que estava a cometer um sacrilégio! E isso só me deu mais vontade de avançar! Desde que me conheço, vejo a nossa história a ser encarada como uma fórmula matemática, descrita com um amontoado de nomes e datas, e dessecada de emoção. E depois queixam-se por os jovens não prestarem atenção ao que é nosso e se deslumbrarem com as histórias de outras nações, que lhes são servidas como um colorido e faustoso banquete na literatura, no teatro, no cinema, na televisão... Enfim! Eu peguei em factos reais da história portuguesa, inseri-os numa aventura de piratas e adicionei-lhes uma pitada de fantasia, inspirada nas nossas crenças e superstições, sim. E estou feliz porque consegui que muitos jovens se apaixonassem pelas Crónicas e, a partir daí, partissem à descoberta dos factos que me inspiraram. Tratei a nossa história com o respeito e o amor que ela merece, mas também com paixão, e recebi esse respeito, amor e paixão de volta com as opiniões dos leitores. Espero voltar fazê-lo em breve, porque aprendi imenso com o processo, as possibilidades são quase infindas e a dificuldade do desafio torna-o irresistível.

Que autores mais a influenciaram?
É impossível nomeá-los todos. Cresci com as histórias de Hans Christian Andersen e dos irmãos Grimm, fiz a passagem com Enid Blyton e cheguei aos livros "para crescidos" com Michael Crichton. Para mim, Crichton é um génio pela forma como mistura ciência com fantasia! Depois, descobri Marion Zimmer Bradley e ambicionei um dia escrever histórias como as dela, cheias de paixão e de aventura. Mas os meus piratas começaram a navegar ao sabor dos livros de Emilio Salgari, com Sandokan e seu amigo Yanes (português, por sinal).

Como encontrou a sua voz?
Eu já contava histórias antes de saber escrever e quando comecei a escrever nunca mais parei... Por isso acho que sempre tive voz! Escrevo o que penso e o que sinto. A Sandra que os leitores encontram nos livros é a Sandra que os leitores encontram na rua, cheia de entusiasmo e vontade de partilhar. A minha única preocupação é continuar a aprender, para evitar erros. O resto flui naturalmente, com emoção, e só assim faz sentido.

O que a levou a escrever as histórias que andavam na sua cabeça?
A vontade de as guardar para nunca as esquecer. Tenho sempre a cabeça tão cheia, que a memória prega-me muitas partidas.

A Saga das Pedras Mágicas retrata três gerações de mulheres. Não são os habituais protagonistas do fantástico, mais focados em homens...
Julgo que essa foi a maior influência que Marion Zimmer Bradley exerceu sobre mim. Quando li pela primeira vez As Brumas de Avalon, teria uns 15 anos, estava a iniciar o esboço da Saga e decidi que ela seria contada por mulheres fortes e apaixonadas, feiticeiras e guerreiras, capazes de se imporem num universo dominado pela vontade e pelo ferro dos homens. À medida que fui crescendo, percebi que me sentia confortável na pele das personagens femininas para descrever os seus pensamentos e emoções, porque as compreendia bem. Talvez por isso elas sejam tão "reais".

Há personagens muito mais difíceis de criar do que outras?
Sim, especialmente porque não crio personagens estereotipadas; crio homens e mulheres com virtudes e falhas. No fim, é como fazer o trabalho de um ator e imaginar como alguém com uma certa experiência de vida agiria ao confrontar-se com determinada situação. Inclusive, algumas personalidades exigem estudo, quando me aventuro muito para além daquilo que é a minha realidade. Os meus heróis cometem erros incríveis e têm os seus momentos negros, e os meus vilões possuem a sua razão. Os heróis podem tornar-se vilões e vice-versa... São humanos.

Há uma idade própria para ler este género literário?
Depende dos autores. Os meus livros destinam-se a jovens e a adultos porque, ao entrelaçarem a realidade com a fantasia, exploram questões que requerem alguma maturidade, como a complexidade das relações humanas, as intrigas sociais e políticas, o erotismo da intimidade, a violência das batalhas... Diria que os 12 anos é uma boa idade para descobrir as minhas histórias e nunca mais as deixar.

Os livros demoram tempo a escrever. Os leitores que a seguem pressionam para ter um novo livro?
Pressionam-me imenso! Zangam-se quando demoro mais do que um ano entre as publicações! Por isso também lhes agradeço, porque o carinho e o incentivo dão-me força para continuar, mesmo quando o cansaço é extremo.

A Guerra dos Tronos fez aumentar a procura dos seus livros e alargar a idade dos leitores?
Penso que a maior parte dos portugueses só se familiarizou com os livros de George R.R. Martin após a estreia da série televisiva. Por essa altura, eu já tinha um grupo maravilhoso de leitores ao meu lado. Acredito que a trilogia cinematográfica do Peter Jackson, O Senhor dos Anéis, foi a principal responsável pela abertura da mentalidade dos portugueses "mais adultos" ao fantástico e pelo, consequente, aumento da procura de livros do género... No entanto, também é natural que alguns leitores tenham chegado aos meus livros após A Guerra dos Tronos, porque quem aprecia estes universos está sempre a buscar novos autores.

A Última Feiticeira já foi traduzido em espanhol. Fica por aí ou há novas propostas?
A Última Feiticeira foi publicada pela Ediciones B México, que agora faz parte da Penguin Random House. Esse é outro campo de batalha... As editoras estrangeiras não conversam com os autores. Todos os contactos têm de ser feitos através de agentes literários. E quando se acrescenta uma dificuldade de comunicação a um universo que, por si só, é para lá de complicado, os progressos são muito lentos... Mas eu sou paciente e acredito no meu trabalho. Um passo de cada vez. Um sonho de cada vez.

Ao fim de 12 livros alguma vez pensou em escrever noutro estilo?
Eu cresci apaixonada por diversos géneros literários, porque, como tinha acesso a poucos livros, lia tudo o que me vinha parar às mãos. Ao longo dos anos, fui percebendo que o fantástico me permite explorar todos os temas que me atraem, sem restrições. O único limite é a minha imaginação. Por isso me divirto tanto com este estilo... O que não quer dizer que não tenha histórias guardadas onde a magia não está presente. Talvez um dia elas ganhem vida. Sem dúvida,seria outro grande desafio! Quem sabe...

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