O povo já não está unido

Em março, o medo do desconhecido, o reconhecimento da impossibilidade de se estar completamente preparado e a ignorância do impacto económico contribuíram para um clima de quase unanimidade. Com exceção da União Europeia, cuja utilidade foi posta em causa até à decisão de emitir dívida comum e gastar dinheiro (que ainda não começou a ser gasto), os governos tiveram o apoio dos cidadãos e a cumplicidade das oposições. Nestes novembro e dezembro, não será assim. Olhe-se para França, Itália, Espanha ou mesmo Portugal.

Na primeira fase da pandemia, horrorizados pelo que se passava em Itália, primeiro, e em Espanha e França, depois, os europeus foram rápidos a confinar (nalguns casos mais depressa do que os governos), protestaram pouco e apoiaram muito. As palmas sinalizavam a convicção de que esta era uma tragédia com heróis e sem vilões. O verão, porém, alterou tudo.

As pessoas experimentaram o regresso à quase normalidade, acham que cumpriram as regras e os números diziam-lhes que estava a resultar. Compreensivelmente, esperavam que os governos se tivessem preparado e reforçado a capacidade de resposta dos sistemas de saúde, para aguentarem mais e a sociedade fechar menos. Não foi o que aconteceu. Em toda a Europa.

Chegados a outubro, e agora a novembro, com os números de casos a disparar e a resistência dos sistemas de saúde em causa, os governos voltam a confinar os países (agora com outro nome), mas a reação dos europeus já não é a mesma. O medo é outro.

Toda a gente acha que está a cumprir as regras. Dos que ficam em casa aos que vão à rua e participam em festas, ninguém considera que pode estar a contribuir para a propagação. São os outros.

Sem medo e sem sentimento de culpa, ou de responsabilidade, parte da população passou de colaborante a resistente. Mesmo que em silêncio. E as oposições perceberam isso.

Desta vez há quem proteste. Há uns tontinhos que não acreditam no vírus - assim como há quem acredite que a Terra é plana. O problema não são esses. São os que acham que fechar não resolve, que sabem que a sua economia vai estoirar, que têm mais medo da cura do que da doença. Na verdade, são compreensíveis nas suas preocupações.

A quase unanimidade da primeira fase está a ser substituída por resistência, mesmo que passiva, e críticas aos governos. Em parte, isso é bom. Uma sociedade acrítica tolera tudo, questiona nada e exige pouco. Mas há quem recuse tudo, esteja disposto a nada e acredite em que diz que isso é possível.

Vai ter de haver oposições que responsavelmente fiscalizem os governos, exigindo qualidade de resposta, mas assumindo parte dos custos. E que se distingam dos que vão pedir tudo e o seu contrário.

A bazuca europeia não está pronta (Parlamento Europeu e Conselho ainda estão à bulha), e só será efetiva quando a economia puder reabrir. E não salvará os setores mais imediatamente afetados.

Mais do que em março, é preciso que os governos comuniquem com clareza, que as medidas sejam mínimas, mas potencialmente eficazes, coerentes e compreensíveis, que a responsabilidade política seja partilhada e que a Europa não desapareça. E que haja dinheiro para salvar quem não vai ter como sobreviver. As oposições exigentes e a Europa vão fazer muita falta. Senão, depois da crise sanitária, virá uma crise política pior do que a económica.

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