A tradição ainda é o que era: mesmo em tempo de pandemia, em modo online, a Berlinale continua a afirmar-se como um evento em que a valorização das memórias históricas define um vetor essencial de programação..Dois títulos presentes no Forum são exemplos eloquentes: The First 54 Years - An Abbreviated Manual for Military Occupation, do israelita Avi Mograbi, propõe um inventário obsessivamente descritivo da ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza pelo exército de Israel desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967 ("os primeiros 54 anos", como refere o título); por sua vez, À Pas Aveugles (qualquer coisa como "caminhando às cegas") prolonga o trabalho do documentarista francês Christophe Cognet sobre o poder revelador das imagens e, muito em particular, o seu papel no infinito labor de conhecimento do Holocausto e, mais especificamente, da vida e da morte nos campos de concentração..Vale a pena lembrar que esta vocação histórica - de celebração do cinema como instrumento de prospeção e consciencialização da história, em particular da história da Europa - existe há muitas décadas como elemento visceral da identidade do próprio festival. Com duas derivações muito particulares: primeiro, através da amostragem de obras, ficcionais ou documentais, que fomentem o confronto analítico e crítico com a história da própria Alemanha; depois, pelo modo como, durante o período em que existiu o Muro de Berlim (1961-1989), o certame funcionou como uma fundamental ponte cultural entre as duas Alemanhas..O caso de The First 54 Years possui a força informativa, e também a contundência ética, de um inventário de factos que provém, podemos dizê-lo, do interior desses factos. Assumindo-se como narrador do seu próprio filme (desde os primeiros momentos, frente a frente com a câmara), Mograbi trabalha as memórias da ocupação militar referida a partir dos testemunhos recolhidos pela organização Breaking the silence (à letra: "Quebrando o silêncio")..Como refere o realizador num texto de apresentação do filme, essa é uma entidade formada por "soldados veteranos de Israel que assumiram a tarefa de expor as tarefas específicas da máquina de ocupação aos cidadãos israelitas." Para lá de todas as diferenças de linguagem e estrutura, este é um filme que nos traz alguns ecos de Valsa com Bashir (2008), fusão de documentário de desenho animado em que Ari Folman recorda as experiências dos soldados israelitas na guerra do Líbano, em 1982..À Pas Aveugles trabalha diretamente sobre imagens fotográficas do Holocausto. São testemunhos obtidos por prisioneiros dos campos de concentração que conseguiram não apenas fazer essas fotografias, mas também enviá-las para o exterior ou, em alguns casos, preservá-las até ao fim da guerra..Francamente invulgar no trabalho cinematográfico de Cognet é a apresentação de tão perturbantes documentos visuais, não como meros "postais" evocativos mas, literalmente, em contexto. Assim, o seu filme pode ser resumido como uma viagem, com a colaboração de vários estudiosos do Holocausto, por Ravensbrück, Dachau e Auschwitz-Birkenau: as fotografias obtidas pelos prisioneiros são "devolvidas" aos seus lugares de origem..Em alguns casos, Cognet confronta-nos mesmo com sobreposições das imagens aos lugares onde foram obtidas. Literalmente, insisto: utilizando reproduções em película transparente, as imagens são colocadas em suportes metálicos, de modo a que possam ser revistas a partir dos locais ocupados pelo fotógrafo (como na ilustração). O resultado condensa e renova um poder ancestral do cinema..Assim, não se trata apenas de dar a ver sinais dos crimes dos nazis, mas também de construir uma memória que, em última instância, nos faz ver e sentir que por trás de cada uma daquelas fotografias está um olhar, um corpo, um ser humano..Caminhando "às cegas", redescobrindo as marcas da repressão, o cinema devolve-nos a suprema arte de ver, indissociável da necessidade de pensar e resistir.