Partidos dentro dos partidos. Quem são, o que querem, o que representam...

Mais Estado, menos Estado. Mais Europa, menos Europa. Mais liberalismo (nos costumes) ou menos liberalismo. Mais radicalismo, menos radicalismo. Os principais partidos portugueses são tudo menos monolíticos - mas no PCP isso está bem escondido.

No PS e no PSD já se sabe: o poder é um bálsamo. Quando lideram o governo - e já o fazem, alternada e ininterruptamente, há quase 40 anos - as divisões internas dissolvem-se, a bem da partilha do poder. É o que acontece agora com os socialistas, por exemplo: apenas dois dirigentes se atreveram a pôr em causa os acordos da geringonça, Sérgio Sousa Pinto (deputado na Assembleia da República) e Francisco Assis (eurodeputado que, de resto, não será reconduzido na lista). O resto do partido - mesmo os mais chegados a António José Seguro, o líder que António Costa brutalmente destronou nas primárias de 2014 - ficou calado. Dois deles até foram para o governo, como secretários de Estado (Eurico Brilhante Dias e Jorge Seguro Sanches).

Reina a concórdia interna - quando muito assiste-se já aos primeiros passos de uma coreografia feita de olhos postos na sucessão de António Costa: de um lado o "esquerdista" Pedro Nuno Santos, recém-promovido a ministro; do outro, o "centrista" Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa. Esta divisão, entre vozes mais à esquerda e vozes mais ao centro, é histórica no PS. Logo no primeiro congresso na legalidade, em dezembro de 1974, Soares teve de se esforçar para derrotar uma poderosa deriva de extrema-esquerda, liderada por Manuel Serra.

Os estatuto do PS, na verdade, proíbem o direito de tendência. O que existe, então, é um pequeno grupo, liderado por Daniel Adrião, que se tem atrevido a desafiar o unanimismo costista. O grupo apresentou listas alternativas às do líder para os órgãos do partido. Na quinta-feira à noite, numa reunião da Comissão Política Nacional convocada para aprovar a lista ao Parlamento Europeu, foram deste grupo os nove votos contra a proposta apresentada pelo secretário-geral. Daniel Adrião e os seus apoiantes protestaram assim contra o "secretismo" com que a lista foi feita. A lista foi aprovada com 68 votos a favor.

Bósnia "laranja"

No PSD, fora do poder desde o final de 2015, o ambiente tem sido de guerra civil. Rui Rio ascendeu à liderança sucedendo a Passos Coelho e virou o partido ao centro. Com Passos retirado da vida pública - até quando? -, os seus delfins não pararam de minar a liderança de Rio. Luís Montenegro acabou por se assumir como candidato à liderança, exigindo diretas já - mas o Conselho Nacional derrotou-o. Desde então silenciou-se.

Para perceber a composição ideológica do PSD é preciso ir à sua fundação. "É o único partido que brotou da sociedade portuguesa, sem influência de outros partidos ou de outras famílias políticas. A militância é, por isso, muito heterogénea desde 1974", afirma o deputado Miguel Morgado, antigo conselheiro político de Pedro Passos Coelho. Morgado sublinha que o partido nunca teve tendências organizadas como noutras forças congéneres na Europa. "Houve sempre militância de diferentes proveniências", diz, identificando quatro correntes: a conservadora, que é também heterogénea com uma corrente mais tradicionalista e outra mais anglo-saxónica; a liberal, e que foi importante para a reforma do Estado com Cavaco Silva e Passos Coelho; a social-democrata, mais ligada à vida sindical e preocupada com as desigualdades; e a democrata-cristã, que diz mais debilitada historicamente. "Estas inclinações coexistem no PSD desde sempre e os líderes mais bem-sucedidos foram os que as conseguiram federar. Claro que os líderes são sempre portadores de uma dessas tendências, mas só se impõem quando as reconhecem e as respeitam", defende.

Mas no partido há quem entenda que só há duas grandes correntes: a conservadora e a social-democrata. "E se fosse por representatividade, 90% das bases são conservadoras e 10% do partido é social-democrata, e são as elites", garante um destacado social-democrata. A mesma fonte sublinha ainda que "os grupos e as correntes têm mais que ver com uma lógica de poder dentro do partido e com a organização em torno dos líderes - os cavaquistas, os barrosistas, os mendistas, os santanistas e agora os ruistas."

Bloco: a coligação que se fez partido

Quando nasceu, há vinte anos, o Bloco de Esquerda era na verdade uma coligação entre trotsquitas (PSR), dissidentes do PCP (liderados por Miguel Portas) e a UDP.

O partido conseguiu crescer - em 1999 elegeu dois deputados e hoje tem 19, sendo a gora a terceira maior força, depois do PSD e do PS - e com isso unificou-se. Seja como for, as dissidências têm acontecido, pelas vias da extrema-esquerda radical - embora sem qualquer influência no desempenho eleitoral do partido (pelo contrário). Gil Garcia fez o MAS (Movimento de Alternativa) e há dias 26 militantes - entre aos quais João Louçã, irmão de Francisco Louçã - deixaram o partido, acusando a direção de estar conformada com o capitalismo e de defender apenas soluções "paliativas".

CDS: mais ou menos Europa

Em 1992, Manuel Monteiro conquistou a liderança do CDS e protagonizou - com a ajuda de Paulo Portas nos bastidores - um verdadeiro cisma no partido: de europeísta passou a antieuropeísta e soberanista. Depois, com o tempo, o antieuropeísmo foi-se moderando (para o que contribuíram as experiências governativas do partido). Atualmente, o partido tem duas tendências oficialmente constituídas, ambas marcadas por visões fortemente conservadoras em relação, por exemplo, às questões da moral sexual. O facto de o CDS ter um vice-presidente, Adolfo Mesquita Nunes, assumidamente gay é ainda para muita gente dentro do partido um sapo difícil de engolir.

Comunistas: divergências podem existir mas só à porta fechada

A regra é de ouro e não admite exceções: um militante do PCP pode ter opiniões diferentes das opiniões oficiais do partido determinadas pelos órgãos de direção do partido - mas não as pode expressar fora do partido. Quem o fizer arrisca-se a ser alvo de processos internos, processos que podem ir até à expulsão, independentemente da posição do militante na hierarquia do partido e do seu peso histórico.

Nos anos 1990 multiplicaram-se os casos de militantes de relevo na estrutura do PCP que acabaram ou por ser expulsos ou por se afastar (muitos em direção ao PS) por discordarem do facto de a direção, liderada por Álvaro Cunhal, resistir por todos os meios aos ventos de renovação que vinham da URSS - e que, em última instância, acabaram por levar à fragmentação do países nas suas várias nações constitutivas.

Apesar disso - ou talvez por causa disso -, o PCP sobreviveu, nos últimos atos eleitorais, até foi crescendo lentamente em representação parlamentar (hoje tem 15 deputados, as que se somam os dois do PEV, com quem os comunistas formam há anos a CDU, sigla de Coligação Democrática Unitária). Tornou-se desde 2015 uma relevante força de influência na governação, por via dos acordos da geringonça. Há muito que o PCP não influenciava tanto a vida dos portugueses. Se agora, por exemplo, milhares de alunos do ensino público já têm manuais grátis, isso foi, em grande parte, por influência do partido. Já para não falar dos aumentos reais das pensões mais baixas.

As fações, a existir, são assim praticamente invisíveis para os olhares públicos. As divergências manifestam-se à porta fechada - e uma matéria central que suscita dentro do partido reações diferentes é a relação com o PS (mais ou menos próxima). Recentemente, surgiram sinais públicos de divergências em relação à orientação do partido contra a eutanásia. J.P.H.

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