O fim da frente republicana

Marine Le Pen, depois de as recentes legislativas em França lhe terem dado 89 deputados, exigiu que o grupo parlamentar do Rassemblement National não fosse arrumado na extrema-direita do hemiciclo. Falhou, mas o pedido mostra bem as suas ambições de normalização, querendo um partido de poder, institucional, não etiquetado como extremista, muito diferente do Front National que o seu pai, Jean-Marie Le Pen, criou e lhe legou.

Contudo, não se pense que Le Pen se sente derrotada por estes dias. Muito pelo contrário: afinal, conseguiu fazer eleger dois dos membros do partido para a vice-presidência da Assembleia Nacional. E os 290 e 284 votos, respetivamente, de Sébastien Chenu e Hélène Laporte revelam bem que obtiveram substanciais apoios de outras forças, nomeadamente de deputados do campo presidencial (apesar de Emmanuel Macron se proclamar barreira aos extremos) e da direita clássica. O que significa que a famosa frente republicana - o todos contra a extrema-direita - deixou de existir.

Pensemos na origem dessa frente republicana: de certa forma, ao impossibilitar alianças com a extrema-direita, prejudicou sobretudo a direita clássica ao longo das décadas. Mas também é verdade que nas presidenciais de 2002, quando Le Pen pai passou à segunda volta, toda a esquerda votou em Jacques Chirac, oferecendo uma reeleição ao político de direita com mais de 80%. Em 2017 e em 2022, a frente republicana também deu a vitória a Emmanuel Macron, um liberal que nas duas vezes teve de enfrentar na segunda volta Le Pen filha. Mas a margem dessas vitórias foi minguando.

Com um Parlamento fragmentado como nunca, pois os macronistas falharam a maioria absoluta, a política francesa promete ser uma caixinha de surpresas. E se a esquerda, ao unir-se em torno de Jean-Luc Mélenchon, obteve um honroso segundo lugar nas legislativas e evitou a irrelevância, parece ser a extrema-direita a mostrar mais capacidade para se valer da sua representação recorde. Como vai influenciar a governação dos próximos tempos é uma incógnita, mas a incógnita mais perigosa - não esquecer que Le Pen continua antieuropeísta e hostil a partes da população francesa - é se não está a caminho de um dia ter mesmo a responsabilidade da governação, tanto a deixam normalizar-se?

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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