Japão vai capturar 227 baleias até ao fim do ano

Baleeiros japoneses partiram nesta segunda-feira para o mar e já capturaram os primeiros exemplares. Atividade vai restringir-se às águas nacionais e a quota para este ano é inferior à que o país tinha quando caçava baleias "com fins científicos".

Saíram para o mar entre bênçãos e aplausos. E o certo é que, dos cinco baleeiros japoneses que nesta segunda-feira, logo pela manhã, se fizeram ao largo, no dia em que o Japão regressou formalmente à caça comercial à baleia, pelo menos dois deles retornaram ao porto com capturas feitas.

São as primeiras duas baleias das 227 que, até ao final do ano, o Japão se propõe capturar - mesmo sem sair das suas águas territoriais. Com o regresso à atividade baleeira abertamente comercial, aquele país deixa definitivamente de ir caçar cetáceos às águas da Antártida.

Na prática, a quota de 227 baleias de várias espécies que o país pretende capturar neste ano é menor, em quase uma centena, do que aquela que até agora caçava anualmente "para fins científicos" - eram 333 -, no âmbito das regras da Comissão Baleeira Internacional (CBI), o organismo internacional que gere a proteção dos cetáceos.

O regresso do Japão à caça comercial à baleia era um passo há muito temido no seio da CBI, mas em dezembro do ano passado, na última reunião daquele organismo, esse desfecho consumou-se.

Depois de a CBI ter chumbado uma pretensão nesse sentido, apresentada pelos delegados nipónicos na reunião de dezembro, o país abandonou formalmente a comissão (mantém-se apenas como observador no comité científico, mas deixou de pagar quota), e decidiu unilateralmente regressar à atividade baleeira comercial. Nesta segunda-feira concretizou essa decisão.

A quota de 227 exemplares que o próprio o país estabeleceu para este ano inclui 52 baleias-boreais, 150 baleias-de-bryde e 52 baleias-anãs, e um número menor de outras.

Três décadas de moratória

No anos de 1980, depois de décadas de caça intensiva à baleia pelas poderosas frotas dos principais países baleeiros, como a Rússia, o Japão ou a Noruega, os números das populações das diferentes espécies tinham caído para mínimos alarmantes. Algumas das espécies mais icónicas, como a portentosa baleia-azul, ficaram nessa altura à beira da extinção.

Numa decisão sem precedentes, a CBI impôs em 1986 uma moratória àquela atividade, mas o Japão nunca se conformou - tal como aconteceu com a Noruega e a Islândia.

Aproveitando uma cláusula na regulamentação, que permitia a possibilidade de capturar um determinado número de exemplares "para fins científicos" todos os anos, os três países continuaram a fazê-lo. A partir daí ao abrigo daquela cláusula, e em números substancialmente menores.

Todos os anos, além de capturar um certo número de cetáceos nas suas próprias águas, os navios baleeiros japoneses rumavam também ao oceano Antártico, para ali caçar uma parte da sua quota "científica" de baleias-anãs. Isso tornou-se, no entanto, mais problemático a partir de 1994, quando aquela região oceânica foi classificada como santuário de cetáceos pela CBI. Mesmo assim, o Japão não abdicou de continuar a enviar os seus navios baleeiros para lá.

Até agora. Com o regresso à caça comercial, ao fim de 31 anos de uma moratória que não o impediu de manter sempre uma pequena atividade baleeira, o Japão decidiu agora deixar de rumar anualmente aos mares da Antártida para ali caçar baleias-anãs com propósitos científicos. As 227 que estabeleceu como quota para este ano serão todas capturadas nas suas próprias águas.

Baleias seguras na Antártida

Se a decisão nipónica de retomar a caça às baleias é vista como preocupante, na medida em que outros países poderão seguir-lhe o exemplo, há quem admita que este poderá, pelo contrário, ser o princípio do fim da caça à baleia.

É o caso de Patrick Ramage, da organização para a conservação International Fund for Animal Welfare, que considera que "esta é a melhor solução", como declarou à imprensa internacional. "É melhor para as baleias, para o Japão e para a conservação marinha a nível internacional", afirmou.

Com os baleeiros japoneses fora da Antártida, aquele oceano passa a santuário efetivo para os cetáceos. E, com Japão fora de jogo na CBI, a comissão poderá agora dedicar-se mais às ações de conservação, que são o seu principal foco, acredita o especialista.

O arquipélago asiático junta-se assim à Islândia e Noruega, únicos países que praticam a caça de baleia para fins comerciais.

O consumo de carne de baleia, que nos anos pós-Segunda Guerra Mundial foi essencial para alimentar a população japonesa empobrecida, decaiu drasticamente com o início dos anos de prosperidade no país.

De 223 mil toneladas em 1962, os japoneses passaram a consumir entre cinco e seis mil toneladas de carne de baleia anualmente (números de 2017), o que corresponde a cerca de 30 a 40 gramas por pessoa, por ano.

Apesar de ser considerada ali uma iguaria tradicional, a carne de baleia poderá, com o tempo, cair em desuso também no Japão, com a emergência na população de uma consciência mais ativa para a proteção daqueles cetáceos, tal como aconteceu no resto do mundo.

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