No ano passado, no balanço da transmissão televisiva da melhor e mais famosa série política francesa, uma jornalista parisiense postou no Twitter: "A única coisa que os argumentistas de Barão Negro escreveram e não se verificou é que uma mulher tenha sido eleita presidente." Pouco depois, outra francesa respondeu-lhe também pelo Twitter: "Com efeito..." E assinou: "Ségolène Royal." O diálogo, além de mostrar a verosimilhança da série - pois era uma eminente política a confirmar -, revela também como aquele género televisivo interage com a realidade: Ségolène, ex-mulher de um presidente francês e ela própria eterna candidata ao cargo, não quis perder a boleia que o popular Baron Noir lhe oferecia. O tweet era um agitar de bandeira: "Estão a ver, se até na ficção acontece, porque não nas urnas verdadeiras?".Depois do sucesso internacional das séries sobre profissões comuns - polícias, médicos, mafiosos, advogados... -, a televisão especializa-se no mais sagrado dos lugares humanos, a política. Ali, onde os nossos escolhidos exercem o métier de nos governarem. Sem espanto, descobrimos que os políticos são homens como nós. E, como o célebre argumentista William Shakespeare mostrou, os líderes políticos têm a vantagem de serem animados pela mais inebriante das paixões: o poder. Ora, o que mais deseja a indústria da ficção, antiga e moderna, são os sentimentos intensos (por favor, Ségolène Royal, escusa de entrar na nossa caixa de comentário e citar a antiquíssima série Lady Macbeth, já todos sabemos que as mulheres, se dão excelentes primeiras figuras no espetáculo, também o podem dar na realidade)..A série Barão Negro tem sido exibida todos os dias, exceto fins de semana. A RTP2 tem passado as duas temporadas, cada uma com oito episódios de cerca de uma hora, o último dos quais irá para o ar na segunda-feira, 4 de fevereiro. Em França, ela foi sujeita às habituais comparações: quem é na vida real aquela personagem? Na série os nomes são fictícios, mas há várias citações de políticos históricos, Michelet, Léon Blum, Jean Jaurés... Como bons franceses, os argumentistas não recusaram mostrar-se cultos e fizeram mais, uma série de culto. Uma terceira temporada já está a ser desenhada e estreia no fim deste ano..Se as personagens não são nomeadas, os partidos são-no. A segunda temporada foi exibida em França em 2017, durante a campanha das eleições presidenciais. Azar para o PS, que vinha, com François Hollande, de governar e ocupar o Palácio do Eliseu. Para colar com a realidade, no jogo subtil, evidente e sugerido, deste género televisivo, no Barão Negro as três principais personagens são socialistas e a trama gira à volta das muitas tendências lutando dentro do partido..Na ficção, o presidente Francis Lugier tem tiques e estilo de François Mitterrand. Com o fictício Baron Noir, o deputado e presidente da Câmara de Dunquerque Philippe Rickwaert, ambos manipulam e servem-se de fundos públicos, o que não surpreendeu o país real. "Baron" é termo que em França designa um "patrão" político regional - Rickwaert é-o da região do norte, mineira, com tradição de esquerda mas em crise económica, com operários formados no fechar e erguer do punho, mas, sem emprego nem esperança, já tentados a levar a mão a votar em candidatos da FN, a extrema-direita lepenista..Argumentistas sabedores.A França tem um jornalismo de investigação antigo (Le Canard Enchainé) e moderno (Médiapart), e já assistiu a muitos julgamentos de políticos. Ninguém é ingénuo sobre a pureza deles, num regime que foi partilhado durante 60 anos pela direita (gaullistas) e esquerda (socialistas) que se habituaram aos mesmos vícios, aliás partilhados por partidos de todos os outros bordos. A série narra a atualidade e, se anunciou o tão farta que estava a sociedade francesa, não previu como a realidade ia resolver as dúvidas..As urnas de 2017 escolheram Emmanuel Macron, um presidente sem partido, que nas legislativas de poucos dias depois fez listas em que a maioria vinha da sociedade civil, acompanhada por vários candidatos desertores de outros partidos - e Macron ganhou. Em Barão Negro, na temporada 2, exibida durante o citado terramoto político, para o Eliseu vai uma mulher, Amélie Dorendeu, mas socialista (que ganha ao candidato do Front National, numa inversão de géneros do que aconteceu de facto, Macron contra Marine Le Pen). Como novidade, ela tenta impor tímidas listas com 50 candidatos da sociedade civil (para as 577 cadeiras parlamentares), mas logo os reduz a metade, por imposição dos barons do partido dela. Há momentos assim, com a realidade mais ousada do que a revolucionária imaginação televisiva. Nesta semana, alguém comentou a Francisco Seixas da Costa: "As séries políticas, a House of Cards, por exemplo, podem ter espalhado um ambiente de descredibilização da classe política, e isso beneficiou Donald Trump..." Esta hipótese não é desdenhada pelo ex-embaixador em Paris, agora membro do Conselho Geral Independente da RTP. Mas, embora a hipótese exista - a da injusta generalização dos vícios da política -, Seixas da Costa reconhece os méritos do destapar dos mecanismos mais escondidos e perigosos do exercício da política. Ele foi dos primeiros, no seu blogue (Duas ou Três Coisas) a declarar-se fã da série. Até citou uma das frases ditas em Barão Negro, em que se alerta para a ilusão de a política ser um amável convite para tomar chá: "Em política, o ódio é melhor do que um diploma.".São dois os argumentistas da série, tendo um deles, Eric Benzekri, conhecido os meandros internos da política francesa. Benzekri foi assessor de Jean-Luc Mélenchon, que sairia do PS para organizar um partido mais à esquerda. Na série, muitos veem na personagem Vidal, o líder da esquerda radical, notórios traços de Mélenchon, sobretudo o fastidioso hábito de este muito citar Marx. Benzekri também foi assessor de Julien Dray, curiosamente o socialista que foi encarregado pelo presidente Hollande de impedir o seu ministro das Finanças Macron de se candidatar à presidência em 2017..Se Dray falhou na vigilância (Macron candidatou-se e Hollande desistiu de se recandidatar), teve uma convivência que lhe permitiu ajudar o seu amigo argumentista a desenhar a personagem de Amélie Dorendeu, a mulher que na série chega a presidente. Amélie é uma "énarque" como Macron, formada na ENA, escola dos altos funcionários franceses, discursa com a soberba de Macron e até se diz "jupitériene" como Macron, isto é, olhando a França olimpicamente do Eliseu. Veremos no Barão Negro, temporada 3, se os terra-a-terra dos coletes amarelos calam Amélie, o que seria uma pena, pois a sua voz é de uma sensualidade que nunca se ouviu em Macron..João Morgado Fernandes, ex-jornalista (foi da direção do DN), enveredou pela assessoria política e tem visto o Barão Negro, mais do que por interesse profissional, pelo gosto que a série lhe proporciona. Ele passou por vários ministérios, até por São Bento. O seu atual ministro, Pedro Marques, está de saída do governo, vai encabeçar a lista do PS nas eleições europeias (deve encontrar Julien Dray, que também se candidata a Bruxelas), e Morgado Fernandes vai fazer comunicação para outro lado que não a política. Gosta de ver, na série, a realidade que a sua vida profissional lhe deu a conhecer, onde os políticos se constroem para fora: "Parte essencial da política é a representação, se não a comunicam bem, não existem", diz..Em Barão Negro, os ensinamentos são extraordinários ("a política é como o jazz, quando tocas uma nota falsa tens de insistir nela"). A série cumpre com brio aquilo que Paulo Pena, jornalista do DN e argumentista de outra série, portuguesa e que também se exibe agora na RTP (Teorias da Conspiração), considera essencial numa boa história: a obrigatoriedade de fugir à simplicidade bocejante. "Se o primeiro-ministro da ficção é um manipulador, a série tem de mostrar como ele é frágil; se a jornalista proclama virtudes, ela tem de passar a sua linha vermelha..." Pode não impedir os eleitores de marrar mal, mas não se engana ninguém sobre a complexidade da vida..Um dos papas da comunicação em Portugal, Luís Paixão Martins, também alertou para as maravilhas de Barão Negro. O vírus já lhe tinha sido inoculado por Tony Soprano, o pobre diabo do mafioso. Agora, voltou a aparecer-lhe com "um político de terceira linha", ainda por cima abanando um programa defunto, "a velhice do marxismo." Seja. Mas, para Paixão Martins, Barão Negro proporciona "uma espécie de curso avançado de política, daquela mercearia de poderes e votos que, por vezes, somos levados a tratar como se fosse uma ciência". Autodiagnóstico feito, Paixão Martins deu-lhe um nome possível: "Síndrome de Dunquerque." O pobre diabo de Philippe Rickwaert haveria de gostar. E seria bom de ver como o Baron Noir, triangulando alianças e traições, faria disso um bom episódio.