Famílias nunca gastaram tanto em comida nos últimos 25 anos

Gastos dos portugueses com alimentação foram os únicos a aumentar entre abril e junho. Restantes despesas afundaram, sobretudo compra de carro.

Entre abril e junho deste ano, as famílias portuguesas gastaram em produtos alimentares mais de 6,2 mil milhões de euros. É o valor mais elevado de sempre num trimestre, de acordo com as séries históricas do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Com as restantes despesas a afundar como nunca visto, as famílias que ficaram em confinamento viraram-se para o consumo de alimentos. E não é apenas em termos de valor gasto, também a variação homóloga é a mais elevada desde o primeiro trimestre de 1996.

Os dados revelados pela gestora da rede multibanco - SIBS - já indicavam um desvio nas preferências dos consumidores de bens duradouros para não duradouros nos meses iniciais do confinamento - abril e maio - que coincidiram com a fase mais aguda da pandemia de covid-19 e com o arranque do segundo trimestre do ano.

Os dados do INE que confirmam a recessão histórica de 16,3% permitem agora uma leitura mais minuciosa das componentes do produto interno bruto (PIB) que mais pesaram na deterioração da atividade económica.

Tal como já tinha indicado na estimativa publicada em meados de agosto, o gabinete de estatística confirma que o consumo privado foi o que mais arrastou a economia para a recessão, tal como já tinha antecipado na estimativa preliminar divulgada em meados de agosto.

"No 2.º trimestre, o contributo da procura interna para a variação homóloga do PIB passou de -1,2 p.p., no 1.º trimestre, para -11,9 pontos percentuais. O consumo privado (despesas de consumo final das famílias residentes e das instituições sem fim lucrativo ao serviço das famílias) registou uma variação homóloga de -14,5% em termos reais (-1,0% no trimestre precedente)", refere o destaque publicado ontem.

Compra de carros afunda

Olhando para os dados, é possível analisar o comportamento dos consumidores portugueses e como foi sendo moldado pelos efeitos restritivos da pandemia no que toca a deslocações. No segundo trimestre do ano houve pouca apetência pelos chamados bens duradouros, em que se incluem produtos como eletrodomésticos ou automóveis.

E foi nos carros que as famílias menos gastaram. "As despesas das famílias residentes em bens duradouros apresentaram uma acentuada redução (taxa de -27,6%), após terem diminuído 4,9% no 1.º trimestre, refletindo principalmente uma quebra abrupta das aquisições de veículos automóveis", indica o INE.

As famílias gastaram 2,2 mil milhões de euros entre abril e junho, representando uma quebra de 24% em relação ao primeiro trimestre (-692 milhões de euros) e de 27,6%, face ao período homólogo de 2019. Trata-se do valor mais baixo de despesa desde o terceiro trimestre de 2014.

No conjunto dos gastos das famílias, o valor despendido já não era tão baixo desde o início do século.

Paulo Ribeiro Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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