O incrível Lula e um mundo novo

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Lula da Silva foi eleito presidente pela primeira vez em 2002, à quarta tentativa. E agora, 12 anos depois de deixar o poder, volta a ser eleito para um terceiro mandato. Duplamente extraordinário. Mas se o Brasil mudou muito nestas últimas duas décadas - basta pensar como está dividido, pois se a vantagem sobre José Serra foi de 61% contra 39%, já no passado domingo venceu Jair Bolsonaro por 51% contra 49% -, o mundo também, não sendo nada parecido com o que existia quando Lula tomou posse, a 1 de janeiro de 2003.

Basta olharmos para as grandes potências e a relação entre elas para ver como as diferenças são enormes: os Estados Unidos na época, ainda com a memória bem fresca dos atentados do 11 de Setembro de 2001, viam o terrorismo islâmico como a maior ameaça e até procuravam a ajuda de russos e chineses; a Rússia, presidida por um Vladimir Putin em início de carreira, procurava o entendimento possível com o Ocidente, a ponto de Moscovo ter acolhido em 2003 uma reunião de representantes dos países da NATO, com presença do próprio secretário-geral, fazendo-se o país anfitrião também representar; e a China não era vista ainda como ameaça por ninguém, surpreendia, sim, todos com o seu sucesso económico e tinha então um PIB três vezes superior ao brasileiro - hoje é nove vezes mais alto.

Sobretudo Lula vai assumir a liderança do Brasil num momento em que, por causa da invasão russa da Ucrânia e das sanções retaliatórias do Ocidente, o mundo está à beira de uma crise económica ainda sem ter recuperado totalmente da pandemia de covid-19. Em 2002/2003, pelo contrário, a globalização prometia o melhor dos mundos para todos, com as exportações brasileiras a beneficiar. Em 2010, último ano do segundo mandato de Lula, o PIB brasileiro até cresceu 7,5%, finalmente perto do dos outros parceiros dos BRIC, nomeadamente a China e a Índia. O antigo metalúrgico retirava-se então, cedendo o protagonismo à delfim Dilma Rousseff, e com uma popularidade internacional que resultava de ser tão bem-visto pelo americano Barack Obama como pelos governantes de Moscovo ou Pequim.

Também em termos de imagem internacional Lula herda agora um país prejudicado pelo estilo de Bolsonaro, mesmo que a diplomacia brasileira faça milagres para salvar a face. Ora, há 20 anos Lula sucedia a Fernando Henrique Cardoso, presidente respeitado mundo fora, que tinha posto o país economicamente nos carris e que colaborou com empenho para uma transição sem complicações, o que se teme possa não ser exatamente a atitude de Bolsonaro, derrotado por pouco, mas derrotado.

Também Lula não é o mesmo, nem o seu Partido dos Trabalhadores. Boa parte dos que votaram no domingo em Bolsonaro, e que em 2018 conseguiram eleger presidente o antigo militar, olham mais para os escândalos de corrupção petistas do que para os sucessos nas políticas sociais. Lula tem hoje muito menos apoiantes no Congresso dos Deputados do que tinha há duas décadas e terá de saber governar mais em diálogo do que fazia antes. No discurso de vitória deu a entender que sabe disso e agirá em conformidade. Seria bom para ele, para o Brasil e para o mundo.

Outros grandes líderes tentaram um dia regressar ao poder e fracassaram, de Mikhail Gorbachev a Lech Walesa. Nenhum deles, nem o soviético que passou a russo nem o polaco, percebeu que já tinha passado o seu tempo. Pelos vistos, os brasileiros acham que o tempo de Lula ainda não passou, afinal os seus 77 anos fazem dele um jovem, comparando com o americano Joe Biden, e não são assim tantos mais do que os de Putin ou do chinês Xi Jinping.

Mas se Lula ainda conta, e muito, é também porque o seu campo político, a esquerda, não criou sucessores. Dilma, depois da destituição, passou à história, Fernando Haddad, derrotado nas presidenciais de 2018, perdeu agora na corrida a governador de São Paulo e deixa uma fraca imagem. Já a direita terá de encontrar também alternativa a Bolsonaro para 2026, a não ser que queira ficar refém das ambições e tentações de vingança de um político a quem o mundo virou costas, como se viu pelos imediatos parabéns globais à vitória de Lula.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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