Seja qual for o resultado, a visita de um dia a Kiev é o culminar de uma semana que fica na história para Angela Merkel. Na segunda-feira anunciou que não vai recandidatar-se à liderança do seu partido, a CDU, mas que, por outro lado, pretende cumprir o mandato à frente do governo de coligação até ao final, em 2021. As ondas de choque ainda corriam a Europa quando, no dia seguinte, a dirigente de 64 anos recebeu em Berlim 11 líderes africanos num encontro sobre oportunidades de negócio..Houve várias manifestações contra o maior evento africano na Alemanha: alemães e imigrantes africanos protestaram contra o facto de Merkel receber governantes com um palmarés criticável do ponto de vista dos direitos humanos, casos dos presidentes do Togo, Faure Gnassingbé, e do Egito, El-Sissi..Se os negócios da Siemens e da Volkswagen foram apadrinhados pelo governo germânico, deixando na sombra os direitos humanos e os valores democráticos, na quinta-feira prevê-se que a agenda de Angela Merkel incida sobretudo nas questões políticas e no apoio a Kiev, numa altura em que as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e de Lugansk se preparam para realizar eleições, e que a situação no terreno continua longe de pacificada..Na segunda visita de Merkel à Ucrânia, a reunião mais importante é a primeira da agenda, com o presidente Petro Poroshenko. Segue-se o primeiro-ministro Volodymyr Groysman e, por fim, o presidente do Parlamento, Andriy Parubiy, acompanhado pelos líderes das bancadas parlamentares.."Atenção especial será dada à situação na bacia de Donetsk, na Crimeia ocupada, no mar de Azov e no estreito de Kerch. Os líderes coordenarão medidas conjuntas para assegurar a execução dos acordos de Minsk e o fortalecimento da coligação internacional contra a agressão russa em curso", lê-se na página oficial da presidência da Ucrânia..Eleições desestabilizadoras.Um evento que pode trazer mais instabilidade são os atos eleitorais anunciados para as regiões separatistas de Donetsk e de Lugansk no dia 11 de novembro. Jonathan Cohen, diplomata dos Estados Unidos na ONU, afirmou que "as falsas eleições encenadas pela Rússia" violam os acordos de Minsk. Os diplomatas de França, Holanda, Alemanha, Polónia, Suécia, Reino Unido, Itália, Bélgica e Alemanha criticaram a ideia em uníssono..Durante o debate no Conselho de Segurança, a Rússia ficou isolada. A subsecretária-geral para os assuntos políticos (a chefe dos assuntos políticos da ONU), Rosemary DiCarlo, pôs-se do lado dos países ocidentais, ao afirmar que as votações seriam uma violação do acordo de Minsk. E, por fim, uma sepatista de Lugansk que a Rússia tinha levado para falar sobre o processo eleitoral não foi autorizada a usar a palavra..Os responsáveis de facto pelos territórios pró-russos criticaram os argumentos dos diplomatas. "As eleições estão totalmente em linha com a legislação da república e não entram em conflito com os acordos de Minsk", afirmou Natalya Nikonorova, responsável pelas relações externas de Donetsk..Sanções em discussão.Face à agressão de Moscovo, a União Europeia impôs sanções à Rússia em 2014. As mais recentes restrições em matéria de negócios com os setores bancários, financeiros e de energia russos foram renovados em junho e expiram em janeiro. Que poder de persuasão terá a chanceler alemã perante, por exemplo, a liderança italiana, pela voz de Giuseppe Conte, que já anunciou estar contra as sanções? Este será um dossiê que pode pôr à prova as capacidades de liderança de Angela Merkel..Outro país que pode juntar-se à Itália é a Hungria de Viktor Orbán. A deriva iliberal e autoritária do governante húngaro tem-no aproximado de Putin. Em contrapartida, as relações de Budapeste com Kiev têm registado uma degradação. Os dois países expulsaram diplomatas na sequência de o cônsul húngaro emitir passaportes com a nacionalidade húngara a cidadãos ucranianos da minoria étnica húngara. Segundo a Constituição da Ucrânia, os cidadãos só podem ter uma nacionalidade..O ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Peter Szijjarto, ripostou: "Enquanto a Ucrânia não cumprir as obrigações assumidas com a NATO e a UE, iremos vetar todas as tentativas destinadas a aproximar a Ucrânia destas duas integrações.".Conflito congelado."Vladimir Putin tenciona congelar todos os conflitos que criou: na Geórgia, na Moldávia e agora na Ucrânia. O seu objetivo é impedir que o governo ucraniano recupere o controlo sobre o seu próprio território, até às fronteiras com a Rússia, incluindo a Crimeia." O comentário é de François Hollande, o antecessor de Emmanuel Macron, numa conferência na Universidade de Mons, na Bélgica, na terça-feira..François Hollande acabou o mandato único na presidência francesa com níveis de popularidade historicamente baixos. Mas não foi decerto pela forma como encarou Vladimir Putin. Por exemplo, em resultado da invasão da Crimeia e a desestabilização ao longo da bacia do Donetsk anulou a venda de dois porta-helicópteros a Moscovo. Com a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e com a chanceler alemã Angela Merkel, o francês fez parte da equipa que levou os líderes russo e ucraniano, Petro Poroshenko, aos acordos de Minsk..A segunda versão dos acordos, de 2015, previa a trégua total nos territórios controlados pelas milícias pró-russas, retirada das armas pesadas, bem como de mercenários e forças estrangeiras, monitorização das medidas pela OSCE, libertação de prisioneiros, reforma constitucional na Ucrânia que concedia ampla autonomia a Donetsk e a Lugansk, na qual se incluía a "autodeterminação linguística", a criação de milícias e a cooperação com a Federação Russa..A "não instauração dos acordos de Minsk" e "o arrastar na luta contra a corrupção" fazem que, na opinião de Hollande, também haja responsabilidades de Kiev..3,5 milhões de ucranianos precisam de ajuda.O aviso é da secretária-geral assistente da ONU para os assuntos humanitários, Ursula Mueller: "Infelizmente, informo que milhões de homens, mulheres e crianças continuem a enfrentar consequências terríveis no conflito armado esquecido da Europa. Esses impactos estão a aprofundar-se, à medida que a situação se torna mais prolongada.".No documento enviado na terça-feira ao secretário-geral António Guterres, a alemã recorda que mais de três mil civis foram mortos e nove mil feridos desde o início do conflito, em 2014. O conflito tem um dado único: afeta a "maior proporção de pessoas idosas no mundo, mais de 30%"..Mas a crise sem fim à vista afeta todos. Um cenário desanimador. "Uma linha de contacto de mais de 400 quilómetros divide a área de hostilidades. As famílias perto desta linha vivem com medo dos bombardeamentos, dos disparos de franco-atiradores e da generalização de minas. O acesso aos serviços básicos é constantemente interrompido. Há extensos danos em casas, hospitais, escolas e outras estruturas civis essenciais. Em 2018, mais de 70 graves incidentes interromperam o fornecimento vital de água para milhões de pessoas. Riscos de doenças transmissíveis aumentam devido à escassez de água, aos danos profundos às instalações de saúde, à falta de acesso a cuidados de saúde e a taxas de imunização extremamente baixas.".Contas feitas, Mueller estima que mais de 3,5 milhões de pessoas precisem de ajuda humanitária em 2019. E que é necessário mais fundos para acorrer às necessidades..Prevenir ciberataques.O conflito em solo ucraniano matou mais de 10 300 pessoas desde 2014. Mas o conflito pode provocar outro tipo de vítimas através de outro tipo de conflito: os ciberataques..Hackers infetaram três empresas de energia e de transportes na Ucrânia e na Polónia com novos malwares sofisticados e podem estar a planear ataques cibernéticos destrutivos, revelou a empresa de segurança de software ESET nesta semana..A resposta não se fez esperar: o Conselho Nacional de Segurança e Defesa, chefiado pelo presidente Petro Poroshenko, criou um órgão especial para prevenir qualquer tentativa da Rússia em influenciar as eleições do próximo ano através da internet ou de ataques cibernéticos..As eleições presidenciais realizam-se em março e as parlamentares em outubro."A experiência dos Estados Unidos e dos países da Europa Ocidental mostra que o Kremlin tentará influenciar as eleições através do espaço cibernético e informativo através de processos sociopolíticos", disse Olexander Turchynov, secretário do Conselho. "Há razões legítimas para supor que a liderança russa tentará, a qualquer custo, usar o processo eleitoral para executar os planos de agressão híbrida contra o nosso Estado", acrescentou.