O fitoplâncton e a opinião designada

Como as epopeias clássicas, a cobertura televisiva de noites eleitorais começa in medias res: com a acção já a decorrer, mas antes do desenlace. Sabemos que haverá vencedores e perdedores, mas não sabemos quem são. Sabemos que a taxa de abstenção foi "preocupante", mas não sabemos quão preocupante. Acima de tudo, sabemos que ainda falta uma hora para aparecerem os números que sustentem as conclusões definitivas que vamos começar a ouvir daqui a cinco minutos.

"Ainda é cedo para tirar conclusões" é uma das primeira frases da noite. Mas tirar conclusões é o principal objectivo, e muitas das perguntas aos comentadores nesta fase intermédia são formuladas para lá chegarmos o mais rapidamente possível; ainda o gráfico de colunas coloridas a três dimensões não tinha tido tempo de se avariar pela primeira vez e já um moderador queria saber se "podemos falar de um fortalecimento do populismo?".

Entretanto, os mais robustos lugares-comuns da política e do jornalismo eram retirados da garagem e submetidos à sua rodagem quinquenal. A secretária-geral adjunta do PS garantia que estas eram "as eleições mais importantes na história da Europa"; o candidato da CDU, que este era "um momento fundamental na vida dos portugueses". Num directo à porta de um dos vários "quartéis-generais", um repórter confirmava que "é com expectativa que se aguardam os resultados"; noutro, que "o núcleo duro está reunido"; num terceiro, que "o candidato está tranquilo", tal como "o ambiente".

O "ambiente" viria a tornar-se menos tranquilo quando as primeiras projecções indicaram um resultado surpreendentemente positivo para o PAN. Que explicações havia para esta "ascensão meteórica"? Seria "um voto contra o sistema"? Um "voto de protesto"? Um voto "politicamente correcto"? Um voto de animalistas "urbano-depressivos", ao invés de alegres ambientalistas rurais? Um voto de quem gosta de gatinhos mas não quer saber do fitoplâncton?

Outros resultados eram igualmente fáceis de interpretar, ou seja, eram complicadíssimos de interpretar. A carreira política de Santana Lopes recebeu a décima sétima certidão de óbito, que será renovada daqui a três meses. Pedro Marques, o melhor candidato de sempre do PS, ganhou o maior número de votos, apesar de ser o pior candidato de sempre do PS. Nuno Melo fez uma excelente campanha, prejudicada apenas pelo facto de ter feito uma péssima campanha. O PSD tentou transformar o plebiscito num referendo ao governo, o que não sucedeu, apesar de ter sido exactamente isso, a não ser que não tenha sido. Os resultados serão uma pista para as legislativas? Uma coisa é certa: talvez.

Obrigada pela tradição a acompanhar os rituais da democracia, a televisão cedo descobriu que é difícil tornar a democracia interessante. É uma dificuldade há muito sentida pela maior colecção de democracias do planeta, que nunca descobriu um método eficaz para se livrar da sua imagem simultaneamente abstracta e monolítica, nem para convencer quinhentos milhões de pessoas a não praticar uma gloriosa abstinência perante um discurso que não entende e um assunto que não lhe interessa. Para grande parte do eleitorado, a "Europa" talvez não seja mais do que um esotérico arranjo burocrático, através do qual Portugal envia Pedro Marques e Nuno Melo para Bruxelas e Bruxelas envia dinheiro para Portugal - o que parece desde logo um dos melhores negócios de sempre, que não carece de reflexão ou ratificação adicional.

Se tornar a democracia interessante é complicado para meios de informação, os veículos de entretenimento não têm tarefa mais facilitada. A série Designated Survivor (a repetir no AMC) parece imaginada por alguém que viu West Wing e concluiu que todas aquelas conversas bilaterais e preparações de cimeiras estavam a estragar uma boa ficção sobre terrorismo e tentativas de assassínio. O título alude à figura do "sucessor designado", um membro do governo (normalmente o menos mediático), indicado para permanecer num local seguro sempre que o presidente e restantes figuras do Estado estão reunidos no Capitólio, de forma a assegurar a continuidade do executivo no caso de um evento catastrófico. O primeiro episódio começa com esse evento catastrófico, que eleva o secretário da Habitação, por exclusão de hipóteses, à Presidência.

Daí para a frente, nada de remotamente desinteressante ou aborrecido volta a acontecer. O funcionamento de instituições complexas é reduzido a puro minimalismo melodramático: o governo consiste numa pessoa, o Congresso consiste numa pessoa (a outra sobrevivente), e qualquer sugestão de reuniões plenárias ou iniciativas legislativas é rapidamente interrompida por nova bomba, um motim, um funeral ou uma tentativa de golpe de Estado. Em seis episódios, ninguém assinou um único papel.

Também o futebol é, como se sabe, um desporto aborrecido e que demonstrou ao longo de mais de um século pouca capacidade para reter a atenção das pessoas, pelo que de vez em quando é necessário injectar-lhe alguma carga dramática. A final da Taça de Portugal, felizmente, não se esgotou no que aconteceu no relvado e, tal como explicaram vários noticiários em tons ofegantes, "ficou marcada por um incidente insólito", no qual uma pessoa decidiu não apertar a mão a outra.

O incidente (que no telejornal da RTP1 teve direito a repetição em câmara lenta, ao contrário dos golos) mobilizou de imediato as atenções de todos os cidadãos preocupados com o "respeito", com a "boa educação" e com o "saber estar" - e que viram o gesto de Sérgio Conceição como um grave atentado à dignidade de uma tribuna onde se encontravam representadas as principais instituições da nação e do desporto: a Presidência, o Governo, a Assembleia da República, a Federação, o Branqueamento de Capitais, a Fraude Fiscal e a Oferta de Prostitutas a Árbitros.

É possível que a recusa de um aperto de mão não figurasse sequer numa lista dos quinhentos problemas mais graves do chavascal que é o futebol português. Por outro lado, entraria facilmente numa lista dos cinco assuntos da actualidade sobre os quais é mais fácil formar uma opinião rápida e veemente, sem quaisquer custos cognitivos.

Há uma teoria segundo a qual o tempo não é uma corrente ininterrupta, mas uma sequência de momentos finitos, e que a cada segundo o universo é destruído e volta a ser criado de novo. É neste sistema delicado que se movem as opiniões rápidas e veementes, como uma espécie de fitoplâncton, à deriva nas correntes do que vai acontecendo: cada momento é uma novidade absoluta, nunca na história do futebol se recusou um aperto de mão após uma derrota frustrante, e a reacção proporcional é tratar o acto simples e visível como sinédoque expiatória para tudo o que é complicado e não se vê. Os apertos de mão são bons, portanto os não-apertos de mão são maus. É possível. Também é possível que isto seja menos uma convicção do que uma opinião designada: aquela que é colectivamente seleccionada para sobreviver quando todas as outras morreram por falta de ar.

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