A bandeira racista

Como tenho por certo que o Ventura não passa de um oportunista, esta sua opção em se vestir de racista e xenófobo corresponde a uma opção pensada, a uma estratégia.

Nesta semana, o deputado Ventura propôs a devolução da deputada Joacine Katar Moreira à terra onde nasceu. Não vale a pena tentar explicar o óbvio, as declarações são racistas e xenófobas. Aliás, são sobretudo racistas. Não ocorreria ao deputado racista e xenófobo Ventura mandar para a sua terra nenhum deputado ou deputada branco que tivesse nascido em nenhum outro país. Como também seria atentar contra a mais básica decência analisar um eventual desmando em razão de uma proposta política. Não há rigorosamente nada que justifique o racismo.

Como tenho por certo que o Ventura não passa de um oportunista, esta sua opção em se vestir de racista e xenófobo corresponde a uma opção pensada, a uma estratégia. Como ficou demonstrado pelo conhecimento que tivemos da sua tese de doutoramento, o indivíduo escolhe, a cada momento e segundo as circunstâncias, o que lhe for mais favorável segundo a plateia que tiver pela frente. Claro que para se conseguir fazer isto é fundamental não ter nem princípios, nem valores, nem convicções. Ora, ficamos a saber que ele acha que o melhor para ele é ser racista e xenófobo e é assim que quer ser visto e tratado. Por mim, faço-lhe a vontade.

Porém, o grande problema não é o Ventura. O que ele está a fazer é algo que só me surpreende por ter chegado tão tarde. Os sentimentos racistas e xenófobos que ele adotou, as posições securitárias, o discurso de os políticos e poderosos serem todos uns ladrões, andavam por aí, sempre andaram. Bastava andar atento às caixas de comentários dos jornais, às redes sociais, aos programas das rádios e televisões com antena aberta ao público. O Ventura apenas conseguiu personificar esses sentimentos e para tal contou com a essencial participação do grupo Correio da Manhã. Convém lembrar que quem inventou, ensinou, promoveu e elegeu o deputado racista e xenófobo foi o grupo Cofina, o que agora é dono do grupo TVI. Aliás, ele continua a comentar política, crime, futebol, tendo um tempo de antena que ninguém tem numa televisão portuguesa.

No entanto, Ventura quando quer marcar a agenda, quando quer ganhar notoriedade, vai sempre pelo discurso racista, complementado com umas frases patrioteiras que só não o envergonham porque vergonha é coisa que ele já perdeu há muito tempo. O da corrupção, o de os políticos serem uma quadrilha de ladrões, tem muita concorrência e de vários setores políticos e partidários. Estou convicto de que era por este lado que ele tencionava ir, mas não contaria com os desenvolvimentos recentes e com a sobrelotação da malta do "anda tudo a roubar". A propósito, é tão demonstrativo da sua falta de coerência não falar de Rui Pinto, alguém imagina que ele não fosse o primeiro defensor do hacker se não fosse essa pequena questão da forma como ele primeiro alcançou notoriedade? A razão para ele ter optado pelo racismo como linha essencial do seu discurso é simples: o racismo é muito popular em Portugal.

Não somos um país com muitos racistas, somos um país estruturalmente racista. Para chegar a essa conclusão bastaria o facto de sermos uma comunidade onde as minorias são prejudicadas por sistema. Em que o número de pessoas negras em cargos políticos, em lugares de topo nas empresas, nos tribunais, nos canais de televisão, é absurdamente pequeno. Onde o termo preto ou monhé é repetido sem qualquer hesitação, onde a existência de guetos é um facto. Se o que se vê nas redes sociais (bastava atentar neste caso entre o deputado racista e xenófobo e a deputada Joacine) é relativamente recente, só quem nunca frequentou transportes públicos, escolas ou estádios de futebol pode ignorar o que sempre esteve em frente das nossas caras.

Nestas alturas, ouço sempre a conversa estafada de que o problema é outro. Que os negros, por exemplo, não ascendem socialmente por uma questão de classe social. Aconselho uma entrevista que o DN fez ao deputado do CDS Helder Amaral, negro de uma família sem problemas de dinheiro, ou uma conversa com os poucos negros que ou ascenderam socialmente ou vieram de famílias privilegiadas. Claro que ninguém vai ficar espantado com o que eles dizem.
O bom oportunista é o atento. Além de tudo isto, o deputado racista pode ter olhado para o inquérito da European Social Survey, conduzido em Portugal pelo ICS da Universidade de Lisboa, e que o Luís Aguiar-Conraria cita no Público, onde, entre 20 países europeus, somos o povo que mais acredita que há grupos étnicos menos inteligentes e trabalhadores.

Andamos há gerações a tentar convencer-nos de que o racismo não é um problema em Portugal. Que os nossos supostos brandos costumes não são um disfarce para uma hipocrisia escondida. Que o nosso colonialismo, por exemplo, foi uma coisa humanista e cheia de boas intenções.

Se fosse mesmo muito otimista poderia dizer que confrontarmo-nos de uma maneira tão brutal com o nosso racismo talvez nos ajudasse a falar de um problema que temos preferido ignorar, mas não sou. O meu pessimismo nisto é, para mal dos meus pecados, total. Aí estão as mais recentes sondagens a provar que o discurso racista vende e com ele segue de vento em pompa o deputado racista e xenófobo.

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