Mohammed VI, o feminista

O hino, ao tocar no estádio olímpico de Los Angeles, premiando a vitória de Nawal El Moutawakel nos 400 metros barreiras femininos, encheu de alegria os marroquinos, que viram a corrida na TV, a milhares de quilómetros de distância da América, mas sem tal parecer. Do povo a celebrar nas ruas de Casablanca ou de Rabat ao telefonema do rei Hassan II à atleta, Marrocos dava nesse já longínquo ano de 1984 um sinal claro de que no que diz respeito ao orgulho nacional as mulheres contavam tanto como os homens.

Se alguém então, naquele país de maioria islâmica, criticou com olhos de extremista os calções curtos da campeã olímpica, terá sido uma ínfima minoria. A esmagadora maioria da população, adepta de um islão moderado, celebrou um triunfo olímpico visto como sendo de todo o país, e com a mesma naturalidade assistiu, anos mais tarde, à nomeação de Nawal El Moutawakel como ministra dos Desportos, era já rei Mohammed VI.

Ora, o discurso do monarca marroquino este fim de semana, por ocasião do 23.º aniversário da sua chegada ao trono, teve uma larga parte dedicada às marroquinas e à condição feminina. Claro que também foi importante o estender de mão do rei à vizinha Argélia, para tentar ultrapassar o mau momento nas relações bilaterais, assim como se deve sublinhar o anúncio de várias medidas sociais para atenuar os efeitos da crise económica criada pela covid-19 nos últimos dois anos. Mas sobressaiu a mensagem à sociedade marroquina da importância de continuar a combater as desigualdades de género e de garantir às mulheres, em especial as pertencentes às classes sociais mais desfavorecidas, condições de vida melhores do que aquelas que as estatísticas continuam a denunciar.

"Todos devem entender que conceder direitos às mulheres não significa que tal seja feito em detrimento dos homens, nem em detrimento das mulheres", declarou Mohammed VI, valendo-se do peso simbólico da sua dupla condição de rei e de comandante dos crentes, este último um prestigioso título que advém de a dinastia alauita ser descendente do profeta Maomé.

Visto, desde o primeiro momento no trono, em 1999, como um modernizador (tinha então 35 anos), o rei acrescentou agora com clareza: "Com efeito, o desenvolvimento de Marrocos está subordinado ao estatuto das mulheres e à sua participação efetiva nas várias áreas de desenvolvimento." E pediu que qualquer interpretação do Código da Família tenha em conta os direitos das mulheres, tal como os dos homens, uma mensagem em concordância total com a igualdade entre homem e mulher inscrita na Constituição marroquina de 2011.

Esta ênfase do monarca na melhoria da condição feminina não surge isolada, fazendo, sim, parte de uma evolução contínua, sempre ponderada e gradual, como é tradição em Marrocos, o mais estável país do Norte de África, e que, embora não sendo afetado diretamente pela Primavera Árabe de há uma década, soube logo tirar ilações sobre as ambições da sociedade.

Por exemplo, as últimas eleições legislativas, em 2021, que viram a percentagem de deputadas passar de 20% para 24%, foram celebradas como mais um passo positivo na questão da igualdade de género. O novo governo quis reforçar esse ganho de representatividade das marroquinas e sete pastas foram para mulheres - um recorde.

Já este ano, e muito aplaudido pelo Banco Mundial, o Parlamento marroquino aprovou uma lei que cria quotas obrigatórias para mulheres nos conselhos de administração de empresas cotadas em bolsa, com uma meta de (pelo menos) 30% de representação feminina até 2024 e 40% até 2027. As marroquinas estão de há muito no mundo dos negócios (tal como na academia, na diplomacia, na cultura, etc.), mas a ideia é garantir que a tendência acelera, acompanhando e motivando o aumento da participação das mulheres na população ativa, onde ainda são só um quarto do total.

O rei pode até ser visto como feminista, o governo também, e, de certo modo, o próprio parlamento. Mas principalmente a classe dirigente marroquina mostra estar atenta às exigências da sociedade, sobretudo das novas gerações, e à necessidade de corrigir injustiças históricas e velhos preconceitos, seguindo numa lógica nacional os bons exemplos, muitas vezes vindos de uma União Europeia que costuma acarinhar o reino, muito lá investindo.

Marrocos, é preciso nunca esquecer, é o nosso outro vizinho, além de Espanha, mesmo que sem fronteira terrestre comum. Também são amplos os laços históricos. Que o desenvolvimento avance no reino, somando à tradicional estabilidade mais prosperidade para a população e a atenuação das desigualdades sociais, só pode ser aplaudido pelos portugueses, muitos dos quais conhecem Marrocos nem que seja pelas férias e gostam dos vizinhos magrebinos. E os marroquinos, por seu lado, até podem ter mais interação hoje com Espanha e com França, mas Lisboa é a capital mais próxima de Rabat.

Há que aprofundar as relações entre Portugal e Marrocos, das culturais às económicas. E estar atento a todas as evoluções.

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