Xavier Debrun é belga, mas foi contratado no mercado global pelo Banco de França como economista-chefe, cargo que assumiu no passado dia 2 de fevereiro. Formou-se em economia pelas universidades de Namur e Harvard, foi economista-chefe do Banco Nacional da Bélgica desde 2019. Antes, viveu 20 anos nos Estados Unidos, onde trabalhou no departamento de assuntos orçamentais do Fundo Monetário Internacional. Encontrámo-lo em Lisboa, esta semana, num dos primeiros dias de bonança após quase um mês de tempestades em Portugal. Esta é a segunda de duas partes da entrevista que concedeu ao DN e ao Dinheiro Vivo.O que devem os governos e as empresas fazer para melhorar a produtividade?Há várias reformas a considerar. Os relatórios de Mario Draghi e Enrico Letta traçam os caminhos para as reformas na Europa. Um pilar importante é a conclusão do mercado único. Temos um mercado único, mas ainda existem muitas barreiras. Refiro-me ao mercado único de bens e serviços. Hoje, permanecem muitos obstáculos, como documentado em inúmeros estudos. Alguns estão relacionados com a língua, por exemplo. Se eu quiser comprar um determinado serviço e eu falar francês e tu falares português, pode ser difícil para mim comprar esse serviço em Portugal. Imagine que quero comprar um seguro em Portugal, mas o contrato está em português — isso é complicado. Pode dizer-se que a tradução poderá resolver o problema, mas a língua continua a ser uma barreira. Persistem também regulamentações específicas de cada país. Estas tornam difícil dizer: “Este serviço ou bem é mais barato na Dinamarca; irei à Dinamarca”. A fiscalidade é outra área onde a harmonização é desejável, embora inevitavelmente difícil. Uma terceira questão diz respeito ao investimento e à capacidade da Europa para mobilizar as poupanças europeias, que são elevadas. Temos muitos recursos, mas muitas vezes não chegam aos projetos europeus.A regulamentação é um problema?Deixe-me dar um exemplo. Para além dos sistemas fiscais específicos de cada país, não temos as mesmas leis de falência, as mesmas leis de proteção do consumidor nem as mesmas leis de proteção do investidor. Portanto, se é uma empresa portuguesa que procura financiar um projeto rentável e pretende aceder ao dinheiro de aforradores alemães, é complicado porque precisa de ir à Alemanha, verificar o que a legislação alemã exige e determinar que informação precisa de fornecer para emitir as suas ações na bolsa alemã. Assim, as coisas continuam muito fragmentadas.Andamos a discutir essas questões há décadas.Sim, de facto.As reformas são realmente difíceis de fazer ou os decisores políticos estão a procrastinar?São difíceis de implementar. Provavelmente já ouviu falar do famoso “28º regime”. A ideia é que, em vez de harmonizar os 27 regimes nacionais diferentes — para a falência, impostos, proteção do consumidor, proteção do investidor e assim por diante — criemos um 28.º regime que seja suficientemente atrativo para garantir que todos o querem utilizar e consultar. Assim, com sorte, poderíamos eliminar muitas barreiras e construir uma verdadeira união dos mercados de capitais. Isso poderia ser feito. A questão é: como definimos os vários elementos deste 28º regime de uma forma aceitável para todos os 27 países?Como podemos motivar milhões de pessoas em 27 países a adotá-lo?Recuemos à época da criação do euro. Nesse momento, os europeus disseram: “OK, no dia 1 de Janeiro de 1999, será criado o euro. Quer estejam prontos ou não, essa é a vossa escolha”. E muitos países conseguiram aderir ao euro porque sabiam quais as condições que precisavam de ser cumpridas e cumpriram-nas. Ter um prazo, definir uma data de fim ou de início, como por exemplo: “Em 1 de janeiro de 2028, teremos um 28.º regime” — isto incorpora um compromisso. Compromete-se com algo e diz: “Isto é do nosso interesse; devemos fazê-lo”. Com uma data, as pessoas mobilizam-se mais e comprometem-se mais com o objetivo. Vejo grande valor em compromissos ambiciosos e com um prazo definido. Hoje, talvez estejamos a ser um pouco reativos demais: acontece uma crise e, então, procuramos soluções temporárias à pressa.Estamos a viver ao sabor do momento? Os tempos são muito caóticos e agressivos.O ambiente político é obviamente difícil e ser um decisor não é fácil hoje em dia. Existe algo conhecido entre os economistas como a “Maldição de Juncker”. Jean-Claude Juncker, antigo presidente da Comissão Europeia, terá dito algo como: “Nós, políticos, sabemos o que fazer, mas quando o fazemos, não somos reeleitos”. Esse, essencialmente, é o problema. Não sei até que ponto esta “maldição” existe na realidade, mas devemos evitar chegar a uma situação em que as pessoas comecem a pensar que os líderes não sabem realmente o que fazer.Juncker estava numa posição mais difícil durante a crise financeira na zona euro. Não tinha as ferramentas certas para apoiar países como Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha…Exatamente. E agora, pelo menos, temos mais ferramentas. Falamos muito sobre o risco de crise e assim por diante. Há sempre um risco de crise, sempre. Mas um desenvolvimento positivo desde 2008 é que a Europa está agora muito mais bem equipada para enfrentar uma crise do que antes. E os países que enfrentavam vulnerabilidades na altura — incluindo Portugal, Grécia e Espanha — são hoje muito mais fortes. Se olharmos para a situação das finanças públicas em Portugal, é a inveja de muitos países.Há quem diga que nós, em Portugal, temos agora alguma margem de manobra para enfrentar uma nova crise.Sim, exatamente. É a inveja de muitos países porque recuperou a margem de manobra em caso de necessidade. Ao mesmo tempo, as consequências da crise de 2008 foram incrivelmente dolorosas. No entanto, permitiram a implementação de reformas essenciais, abrindo caminho para as finanças públicas sólidas e a melhoria das condições económicas que hoje observamos em Portugal e noutros países.