Kevin Warsh, presidente da Reserva Federal dos EUA. Washington, 17 de junho de 2026.
Kevin Warsh, presidente da Reserva Federal dos EUA. Washington, 17 de junho de 2026.WILL OLIVER / EPA

Trump ordenou descida de taxas, mas até o seu escolhido para liderar a Fed votou em manter juros

Depois de humilhar Jerome Powell, o anterior Presidente da Reserva Federal, por ser "demasiado atrasado" na descida dos juros, o novo líder escolhido por Trump votou por não aliviar custo da dívida.
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O banco central dos Estados Unidos da América, a Reserva Federal (Fed), agora presidido por Kevin Warsh – o homem escolhido por Donald Trump para que a Fed iniciasse finalmente a descida das taxas de juro que o Presidente tanto deseja para dar um alívio ao custo da enorme dívida pública norte-americana – manteve inalteradas as taxas de juro principais da maior economia do mundo. A Fed revelou que a decisão em manter juros foi unânime, ou seja, até o próprio Warsh votou nela.

Pior (para Trump): acumulam-se os sinais de que a inflação se está a enraizar nos EUA e, perante isso, alguns altos responsáveis da Fed afirmam já que o banco central estará agora mais inclinado até em subir taxas de juro pelo menos uma vez, este ano, ao contrário do que acontecia em março passado, por exemplo, sob a tutela do antigo presidente da Reserva, Jerome Powell.

Recorde-se que em 2025, a Fed desceu o intervalo das taxas diretoras três vezes: uma setembro (ponto superior do intervalo desceu 0,25 pontos percentuais, para 4,25%), outra em outubro (descida para 4%) e outra em dezembro (para 3,75%). Desde então que o intervalo das taxas diretoras não mexe.

Forward guidance desaparece, mas começa a falar-se numa subida

De acordo com a Lusa, "num documento de projeções trimestrais, citado pela Associated Press (AP), nove responsáveis da Reserva Federal afirmaram que esperavam pelo menos um aumento das taxas de juro este ano, tendo seis deles defendido dois ou mais aumentos".

Ou seja, "trata-se de uma mudança acentuada em relação a março, altura em que nenhum decisor político previa um aumento das taxas e o comité, no seu conjunto, previa um corte em 2026".

A inflação geral norte-americana está agora no nível mais altos dos últimos três anos e, por isso, vários responsáveis da Fed avisam, alguns mesmo em discursos feitos recentemente, que, "caso a inflação não diminua, poderá ser necessário aumentar as taxas já no final do ano", indica a Lusa.

O comunicado principal da Fed também sofreu mudanças. Está mais curto e seco. O anúncio do chamado Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC) sobre a política monetária dos EUA deixou de trazer a tradicional ‘forward guidance’, ou seja, as frases e os termos que permitiam fazer uma antecipação do que podiam ser as políticas no futuro a médio prazo, como continua a fazer o Banco Central Europeu, por exemplo.

Contrariamente ao que vem no caderno de encargos ditado pelo Presidente Trump que nomeou Kevin Warsh para substituir Jerome Powell, que se tornou uma persona non grata para o próprio Trump, a Fed revelou, esta quarta-feira, que, afinal, não há condições ao nível dos valores da inflação (está demasiado alta e com tendência a subir ainda mais por causa do choque energético ou num cenário de alta incerteza) que permitam ou justifiquem uma descida de taxas de juro, como tanto deseja o Chefe de Estado.

Apesar do seu currículo e de algumas posições recentes, o longo dos últimos dois, três anos, que agradaram aos ouvidos de Trump, Warsh também votou a favor desta decisão de manter juros.

"O Comité Federal de Mercado Aberto aprovou a seguinte declaração para divulgação por 12 votos a zero: o Comité decidiu manter o intervalo-alvo para a taxa dos fundos federais entre 3,5% e 3,75%, de forma a apoiar o duplo mandato da Reserva Federal".

O Comité diz que "reafirmou a sua política de manutenção de amplas reservas no sistema bancário" e também revelou novas previsões para a economia.

Aqui, o sistema federal de bancos centrais dos EUA dispara um rol de sinais que também servem de argumentos fortíssimos para não descer juros. Diz que "a atividade económica está a expandir-se a um ritmo sólido, apesar da elevada incerteza que se deve, em parte, ao conflito no Médio Oriente".

E mais: "O crescimento da produtividade e o investimento de capital são fortes" e "os ganhos de emprego acompanharam o ritmo da força de trabalho e a taxa de desemprego pouco se alterou".

Pelo contrário, "a inflação continua elevada em relação ao objetivo de 2%, refletindo em parte os choques de oferta que levaram a aumentos de preços em certos sectores, incluindo a energia".

O comité da Fed diz que "garantirá a estabilidade dos preços", o mesmo que dizer que, enquanto a inflação continuar "elevada", acima dos tais 2%, Trump não deve esperar pelos seus tão almejados cortes de taxas, pelo menos brevemente.

Warsh reconhece inflação persistente e fora do objetivo

“A inflação ultrapassa largamente o objetivo de 2% estabelecido há muito tempo pela Fed. Esta situação persiste há mais de cinco anos. O aumento persistente dos preços pesa fortemente sobre os americanos”, declarou Warsh, na conferência de imprensa desta quarta-feira, em Washington.

Mas sinalizou que quer fazer mudanças profundas nas fontes e nas formas de recolha da informação que a Fed usa para formar as suas decisões de política monetária.

Não se alongou muito sobre isso, nem se percebeu se com isso pretende dar à Fed argumentos que facilitem mais futuras descidas taxas de juro (Warsh defende, por exemplo, que as novas tecnologias e a inteligência artificial têm um efeito muito importante no sentido da descida de preços), mas uma coisa é certa: o novo presidente da Fed quer estudar novas fontes de informação sobre a economia, a forma como estas são recolhidas, nomeadamente através de inquéritos que diz serem realizados de forma desatualizada.

“A maioria dos dados têm modos antigos de recolher a informação”, referiu Warsh, que defendeu ser mais importante ter informação em tempo real. “Podemos aprender com o setor privado” para que a Fed tenha ao seu dispor técnicas analíticas que considera mais fiáveis, disse o líder da Fed.

Warsh é um economista alinhado com a direita mais conservadora do Partido Republicano e uma figura reputada nesses círculos económicos e financeiros conservadores, tendo sido conselheiro do ex-Presidente dos EUA George W. Bush e também um dos membros do Conselho de Governadores da Reserva Federal, originalmente nomeado pelo mesmo George W. Bush, em 2006.

Recorde-se que Warsh veio substituir Jerome Powell à frente da Fed depois deste último ter sido várias vezes humilhado publicamente por Donald Trump que o acusou de estar "demasiado atrasado" a perceber a realidade e a entregar descidas de juros, uma decisão que ajudaria o Trump e o seu governo a reduzir a fatura dos juros e o peso da dívida pública dos EUA, que já vai em 123% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo a Fed de St. Louis, um dos bancos centrais do sistema Fed.

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