As principais instituições que fazem previsões para a economia portuguesa apontavam para um crescimento de 2,2% ou 2,3% este ano, mas isto foi antes da tempestade Kristin, que arrasou sobretudo a zona Centro do país, onde se concentram muitas atividades industriais e exportadoras.De acordo com cálculos muito preliminares e conservadores, usando a primeira e única estimativa oficial, até agora, sobre o custo dos danos infligidos às populações (famílias, empresas, infraestruturas básicas), o valor de 2,5 mil milhões de euros, diz o governo, é o possível para delinear o primeiro pacote de medidas anunciado no último domingo.Este número significa que o crescimento de 2,3%, em termos reais, previsto para 2026, que resultaria de um acréscimo do Produto Interno Bruto (PIB) na ordem de 5,7 mil milhões de euros no ano como um todo, fica seriamente comprometido, podendo vir a ser muito inferior, baixando para 3,2 mil milhões de euros, subtraindo um dano de 2,5 mil milhões.Se este impacto esperado for apenas como diz agora o governo, e imputado à atividade do ano corrente, a taxa de crescimento anual prevista para a economia pode baixar para quase metade de uma assentada, para cerca de 1,3%.No entanto, nem o impacto negativo deve confinar-se a apenas um ano, nem o valor ficará apenas pelos 2,5 mil milhões de euros estimados no domingo, quando estavam volvidos apenas quatro dias após a tempestade Kristin (entrou no território na madrugada de quarta-feira, dia 28).Num primeiro momento, Luís Montenegro, o primeiro-ministro, admitiu que a destruição que viu e os relatos que lhe foram chegando indicam que os danos são "muito superiores ao esperado".Esta terça-feira, em visita a Pombal, uma das regiões mais fustigadas, o PM deu conta dos "danos provocados às habitações, empresas e explorações agrícolas, muitos dos quais ainda sem energia elétrica".Para organizar a resposta, o governo, em articulação com outras autoridades nacionais e locais criou a Estrutura de Missão para Reconstrução da Região Centro, que será liderada por Paulo Fernandes, antigo autarca do Fundão.na coordenação das operações de apoio e recuperação. "Precisamos de ter alguém no terreno a coordenar isto, será este senhor, eu diria nos próximos anos, não temos uma data final de tarefa para ele, mas provavelmente serão alguns anos até podermos terminar todo este trabalho", referiu o primeiro-ministro.Segundo o governo, "no valor global de 2,5 mil milhões de euros, o pacote inclui apoios à reconstrução, moratórias fiscais e de pagamento de empréstimos, linhas de crédito para as empresas, bem como apoio às autarquias e à recuperação de infraestruturas públicas"."Estão atualmente no terreno cerca de 34 mil operacionais, incluindo forças e serviços de segurança e de proteção civil, Forças Armadas, elementos de diferentes departamentos do Estado e funcionários autárquicos. A este esforço juntam-se milhares de cidadãos e entidades privadas", elencou o chefe do governo.Como referido, a atividade económica, sobretudo no Centro do país, uma região densamente industrializada, fica altamente comprometida.Fábricas destruídas ou forçadas a parar, milhares de casas e estabelecimentos ainda sem luz, falta de comunicações, estradas inundadas, populações isoladas, tudo isto congelou o normal curso da economia.As exportações da economia também ficaram em xeque. Veja-se o exemplo do setor do vidro, da cerâmica, do cimento.A Associação dos Industriais de Vidro de Embalagem diz que “os prejuízos vão ser de milhões”.Em declarações à Lusa, o presidente da Associação dos Industriais de Vidro de Embalagem (AIVE), Tiago Moreira da Silva, aponta para “o estado em que estão as fábricas na Marinha Grande e na Figueira da Foz"."Todos os atores desta indústria na região estão bastante danificados”, havendo um problema especialmente grave que é o das "exportações perdidas". O setor do vidro e da cerâmica tem um perfil altamente exportador.Das três empresas associadas da AIVE (BA Glass, Vidrala e Verallia Portugal), o diretor da Vidrala, Carlos Barranha, exemplificou com as duas unidades de produção na Marinha Grande, "que normalmente produzem entre oito e 10 milhões de garrafas por dia, e que a depressão obrigou a quatro dias de paragem total".Estamos a falar de seis fornos e 23 linhas de produção "que representam quase 1.000 postos de trabalho diretos, e fabricam aproximadamente 2.400 toneladas de vidro por dia, estão agora “em fase de restabelecimento progressivo da capacidade produtiva”, acrescentou. Mas falta o resto: reparar o que ficou destruído."Com forte concentração de empresas das indústrias da cerâmica e da cristalaria", os danos no tecido industrial da zona Centro foi agravado pelas "falhas prolongadas no fornecimento de energia elétrica e nos serviços de comunicações, bem como condicionamentos rodoviários e ferroviários", relata a Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria (APICER), citada pelo Jornal de Negócios.Na produção de cimento e betão, o cenário também não é animador. A Secil teve de parar a produção em duas unidades (Leiria e Alcobaça). "O fornecimento de energia em alta tensão já foi restabelecido nas fábricas da Maceira e de Pataias, que se encontram a retomar progressivamente a atividade", adianta.Na segunda-feira, segundo o Negócios, a Cimpor, em Souselas, teve uma interrupção "mas foi menor e não significativa", mas a empresa Betão Liz continuava até então com "três unidades paradas desde quarta-feira [28 de janeiro], em Leiria, Pombal e Óbidos"..“Nós temos cheias, mas aqueles desgraçados de Leiria nem telhado têm para dormir”