Três semanas após o impacto inicial da Tempestade Kristin e das que se lhe seguiram, já é possível estimar que os prejuízos cobertos por seguros vão superar os 500 milhões de euros. O cálculo da Associação Portuguesa de Seguradores (APS) a que o DN teve acesso foi divulgado esta quarta-feira e, apesar de imenso, é cerca de dez vezes inferior ao valor global de 4,5 mil milhões de euros estimado por alto pelo Governo para o conjunto dos estragos a nível nacional. Confirma-se, assim, que a grande maioria dos danos causados pelo mau tempo não estava coberto por apólices de seguro, deixando a fatura climática mais pesada para as pessoas e para o Estado.A APS adiantou também que os valores já pagos e aprovisionados pelas companhias de seguro ascendem, até à data de 16 de fevereiro, a 260 milhões de euros, um pouco mais de metade dos montantes em causa. Este nível de previsão só é possível porque, “mais de 88% dos sinistros participados há mais de 15 dias estão em fase adiantada de regularização ou já regularizados”, adianta a APS. “E mais de 20% desses sinistros já deram lugar ao pagamento total ou parcial das indemnizações devidas”, garante aquela entidade.Para isso terá contribuído a presença física de várias companhias nas zonas mais afetadas da região de Leiria com balcões improvisados, face à falta de energia elétrica, e a promessa de peritagens rápidas, na linha do repto governamental para reduzir a burocracia ao máximo no processo de apoio às vítimas das tempestades.Até ao momento, o conjunto das seguradoras nacionais registou mais de 115 mil sinistros participados, numa média de cinco mil por dia, e, de acordo com os dados agora conhecidos, só cerca de 10% dos casos é que ainda não estarão já pagos ou em fase avançada de regularização.Mas os números são ainda provisórios, podendo ser ainda mais expressivos dentro de dias, pois no meio do caos causado pelo desastre climático em muitas vidas, nem toda a gente terá ainda feito as respetivas participações ou terá reunido ainda toda a documentação necessária. A APS voltará, por isso, a fazer um novo balanço dentro de dias. 170 milhões para reparação de casasPara o setor segurador a maior fatura do inédito ‘comboio de tempestades’ que assolou o país entre 27 de janeiro e 3 de fevereiro, está relacionada com a reparação e recuperação de habitações. Neste ramo, foram feitas 90 mil participações por particulares que representam uma despesa de 170 milhões de euros em indemnizações.Em segundo lugar, os sinistros mais participados foram para a recuperação de empresas e comércios, num total de onze mil, que envolveu danos cobertos no valor de 150 milhões de euros.Quanto aos estragos em automóveis, os proprietários acionaram um total de nove mil participações, que implicam indemnizações de 24 milhões de euros.Sem grande surpresa, os dados compilados pela APS indicam que o distritos em que se verificaram, até agora, mais prejuízos cobertos por seguro são Leiria, destacado com mais de 50 mil sinistros _o mais afetado pela Tempestade Kristin _, seguindo-se Santarém, Lisboa e Coimbra, cada um com cerca de 12 a 13 mil sinistros participados, sobretudo pelas cheias e inundações.O dia com mais sinistros participados foi o dia 2 de fevereiro, dia em que deram entrada nas seguradoras cerca de 11 mil participações. A média diária de participações tem sido de cerca de cinco mil.Fundo de catástrofes tem de avançarFace à maior frequência de eventos climáticos extremos nos últimos anos e a sua previsível intensificação, a APS defende medidas estruturais para mitigar o seu impacto social e económico. Por um lado, o setor reclama que o seguro multi-risco para as habitações passe também a ser obrigatório, à imagem do que já sucede para o risco de incêndio. E por outro, defende a criação de um Fundo de Catástrofes, a ser participado pelo setor e pelo Estado.“Constata-se que continua a registar-se em Portugal um déficit de proteção através de seguro, facto que, como é sabido, aumenta o tempo de recuperação deste tipo de eventos e o retomar da normalidade da vida das pessoas e empresas”. O setor “espera que a melhoria do tempo e a saída do tema do espaço mediático não façam esmorecer a intenção anunciada de se criar em Portugal um sistema integrado e articulado entre o Estado e as seguradoras, de proteção em caso de catástrofe natural”. Isso seria um fator de “maior proteção das pessoas e aumento da resiliência do país face a estas catástrofes e um fator essencial para garantir a acessibilidade ao seguro a preços comportáveis”.O ministro do Estado e das Finanças, João Miranda Sarmento, já anunciou a intenção de avançar com um fundo de catástrofes, mas ainda sem especificações. A reivindicação daquele instrumento não é um exclusivo nacional, mas é particularmente premente em Portugal. Segundo dados da reguladora europeia de seguros, apenas até 25% do valor segurável de imóveis e estruturas sensíveis ao clima, está protegida por seguros. Um estudo que abrangeu dados entre 1980 e 2020 estimou uma realidade ainda pior para o país: 96% dos danos causados por tempesades não estavam segurados, quando na Europa a percentagem era de 78%.Mas a verdade é que também se tem registado uma tendência no setor para recusar segurar imóveis em zonas particularmente expostas ao risco climático em toda a Europa.