Os viticultores “estão a ficar desmotivados”.
Os viticultores “estão a ficar desmotivados”. Foto: Reinaldo Rodrigues

“Se formos a fazer contas desistimos já hoje de trabalhar’: viticultores do Douro alarmados com custos

A subida do preço dos combustíveis, nomeadamente do gasóleo verde, e dos produtos usados nos tratamentos amplia as dificuldades.
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Viticultores de Mesão Frio, no Douro, estão preocupados com o aumento "absurdo" dos custos de produção, desde combustíveis a fitofármacos, num ano em que o tempo húmido obriga a uma atenção constante e mais tratamentos na vinha. Também na Região Demarcada do Douro se está a sentir o impacto da guerra no Médio Oriente.

A subida do preço dos combustíveis, nomeadamente do gasóleo verde, e dos produtos usados nos tratamentos amplia as dificuldades. Tudo ocorre numa altura em que as oscilações na meteorologia, entre frio, calor e humanidade, potenciam o aparecimento de doenças na vinha (oídio e míldio). 

“Se formos a fazer contas desistimos já hoje de trabalhar”, afirmou à agência Lusa Pedro Monteiro, viticultor em Barqueiros, concelho de Mesão Frio, distrito de Vila Real. O produtor realçou que, para a uva ser vendida, lá para setembro, ela tem de estar sã.

Por isso mesmo, nesta primavera já fez cinco tratamentos à vinha e prevê que vá precisar de oito. Nas suas contas, cada aplicação custa em média 500 euros e sem contar com a mão de obra e o combustível do trator, que há oito anos era comprado a 80 cêntimos o litro e agora já ultrapassa os 1,60 euros.  “Uma máquina destas gasta à volta de 60 litros por dia”, disse, apontando para o trator parado entre os valados.

O viticultor fala em “aumentos absurdos” de quase tudo, menos das uvas. Os preços de cerca de 1.000 euros por pipa de vinho do Porto e 300 euros a pipa de vinho do Douro mantêm-se há muitos anos. “Os pneus estão mais caros, as revisões dos tratores nem se fala, uma revisão para um trator destes ficam à volta de 700 euros. É muito dinheiro para uma cultura que dá pouco. Hoje em dia o vinho não valoriza o que nós gastamos”, realçou. Os cortes no benefício, ou seja, a quantidade de mosto que cada produtor pode destinar ao vinho do Porto, são também uma preocupação, já que é uma importante fonte de receita para os produtores do Douro.

Desmotivação

Os viticultores, desabafou, “estão a ficar desmotivados”, adiantando que pondera abandonar os terrenos de grande inclinação, onde não entra uma máquina e o trabalho tem de ser feito à mão. Pedro Monteiro vive da vinha, tem 17 hectares e, na última vindima, colheu 70 toneladas.  A colheita é entregue na Cooperativa de Mesão Frio que, segundo frisou, “até hoje nunca falhou um pagamento e aceita as uvas todos os anos”. 

O vinho é a única parte da equação que não consegue aumentar. Aumenta a garrafa, o rótulo, a eletricidade, a mão de obra, mas o vinho não consegue aumentar. Leva sempre, como se diz aqui, pancada com força”, afirmou Pedro Pires, viticultor e presidente da Cooperativa de Mesão Frio, que realçou a crise na venda de vinhos e os custos de produção “altíssimos” nesta região de socalcos e de encostas íngremes.

Esta é, na sua opinião, a “região vitícola que tem mais dificuldades”. “É um ano de pressão por causa das chuvas, mais tratamentos temos que fazer, mais dinheiro temos que gastar”, referiu. 

Para além do aumento do preço dos combustíveis, Pedro Pires salientou que os fitofármacos aumentam de dia para dia e que escasseiam. “O grande problema dos fitofármacos é que não há”, frisou, exemplificando com a loja do agricultor que está a ter dificuldades em adquirir estes produtos. 

Falta de trabalhadores

O responsável disse ainda que o Douro absorve muita mão de obra e que, de ano para ano, há cada vez menos trabalhadores. Em Vila Marim, o ferroviário Vítor Fonseca concilia a sua atividade profissional com a vinha.

Trata a pequena vinha, à porta de casa, como um jardim. “A minha expectativa era que fosse ter algum rendimento do terreno, que pudesse ajudar a construir outras coisas, a conclusão a que eu chego é que não tiro rendimento nenhum, pelo contrário, ainda vou investindo algum do meu ordenado”, referiu.

Vítor Fonseca também não faz contas ao que gasta na vinha. “Vou tentando manter as coisas (…) Tento equilibrar financeiramente”, salientou. A recente queda de granizo teve impacto nas videiras e na sua produção, e obrigou a mais tratamentos e a mais um custo.

José Carlos Mendonça abriu há 15 anos o agroturismo Quinta Barqueiros D’Ouro, com seis casas, conciliando o turismo com a produção de vinho.  “A questão do vinho é mais delicada. Felizmente o turismo exporta todas essas adversidades, mas o vinho, sim, é mais complicado. Estamos com um aumento de custos brutal na parte da produção, com o aumento de todos os produtos que precisamos de utilizar na vinha e de mão de obra e tudo isto torna-se difícil quando o valor de venda em vez de subir, decresce”, salientou.

Decresce, acrescentou, o valor do vinho e o benefício para o vinho do Porto. “O que torna a situação do Douro, na parte vitivinícola, mais complicada”, referiu o empresário que, na sua quinta, encontra a vantagem de vender parte da produção aos turistas, o que ajuda a “sustentar a parte vitivinícola”.

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