Portugal nunca importou tantos produtos agrícolas
Reinaldo Rodrigues

Portugal nunca importou tantos produtos agrícolas

Dependência externa torna-se particularmente crítica com o agravamento das secas, alterações climáticas e instabilidade dos mercados internacionais. Portugal produz menos de 20% do que consome
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Portugal compra muito mais produtos alimentares do que aqueles que vende, a produção continua a cair e a balança comercial está em franco desequilíbrio. Os dados revelados pelos boletins mensais do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) do Ministério da Agricultura e Mar, revelam que em janeiro deste ano o défice comercial de bens tinha aumentado 778 milhões face a período homólogo, para 2,5 mil milhões. Quatro meses depois, em maio, e apesar de uma melhoria face ao ano anterior, esse défice tinha crescido para 2,8 mil milhões.

As alterações climáticas estão a ter significativos efeitos nas colheitas a que se junta uma aposta cada vez menor na produção de bens agrícolas, onde Portugal já há vários anos é deficitário – ou seja, produz menos do que precisa, o que o obriga a importar grandes volumes. Portugal importa cerca de 80% dos cereais que consome, tenho um dos mais baixos níveis de autoaprovisionamento da União Europeia.

Dados do INE, revelados em março, davam conta de que os prejuízos, somente no continente, já eram superiores a 472 milhões de euros devido a cheias, tempestades e solos saturados – as tempestades que no início do ano varreram o país, com a Kristin a tornar-se na mais conhecida, foram absolutamente fundamentais para este cenário. A área semeada de cereais de outono/inverno caiu para metade da campanha anterior, revelam os mesmos dados. A produção de milho nacional deverá cair cerca de 15%, atingindo o nível mais baixo das últimas duas décadas, enquanto o arroz também registou uma quebra de produção na ordem dos 5%. Os boletins do GPP dão conta de que as sementeiras tardias, a seca e os prejuízos por javalis e infestantes estão a reduzir a produção interna, ainda que os produtos frutícolas – com destaque para a Pêra Rocha, a Cereja e a Maçã – estejam a registar boas produções.

No atual contexto internacional, esta dependência do mercado externo nos cereais – algo que muitos especialistas têm tentado combater ao longo dos anos, referindo que esta devia ser uma aposta estratégica do país – tem tido impactos consideráveis em toda a cadeia de distribuição, uma vez que o preço da energia, da mão de obra e dos próprios cereais no mercado das matérias-primas tem estado a atingir máximos, que inevitavelmente se refletem na carteira dos consumidores. A capacidade de Portugal de fazer face a choques internacionais é cada vez menor e o cenário não deverá melhorar nos próximos meses, tal como o DN já antecipou.

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Também em outros países da Europa cresce o receio sobre a escassez de bens, sobretudo cereais, por uma espécie de efeito dominó. Em julho passado, a Associação Nacional de Agricultores (NFU, na sigla em inglês) do Reino Unido, Tom Bradshaw, avisou o país pode enfrentar escassez alimentar devido à onda de calor que atingiu mais de metade do território, e que acentuou as quebras nas colheitas, que já tinham sido fustigadas pelas cheias, no início do ano. Na ocasião, o responsável lembrava, numa entrevista à BBC Radio 4 que “os outros países em todo o mundo de que atualmente dependemos para produzir os nossos alimentos e legumes também estão a sofrer alterações climáticas”.  A pressão da escassez naquele país deverá recair sobretudo sobre países como França, Hungria, Espanha ou Alemanha, países que terão de suprir o défice britânico e que estão, também eles, a enfrentar escassez na produção.

 “Parece mesmo que vai haver alguma escassez de produtos [alimentares]”, alertou Bradshaw.

Portugal importa cerca de metade do seu trigo de França, tendo em Espanha e na Ucrânia outros importantes mercados, e recorre ao Brasil, à Ucrânia e aos EUA para suprir as principais necessidades de milho. É de França, também, que vem a maior percentagem de Cevada (40 a 50%), segundo dados do Eurostat.  

A quebra nas produções, a pressão no preço e a imprevisibilidade internacional deixam adivinhar que os consumidores vão continuar a sentir o peso da falta de oferta no bolso, na compra de bens alimentares.

Recorde-se que o preço do cabaz alimentar, que a DECO tem vindo a acompanhar semanalmente desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em janeiro de 2022, continua a bater recordes, e as famílias têm cada vez mais dificuldade em colocar na mesa tudo o que é necessário para cumprir as mais básicas necessidades. O preço do cabaz alimentar monitorizado pela DECO PROteste custa agora 253,47 euros, mais 65,77 euros (ou 35%) que em 2022.

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