Portugal está a ganhar peso na indústria da Aeronáutica, Espaço e defesa, deixando de operar exclusivamente como um destino de subcontratação industrial para assumir um papel mais relevante no desenvolvimento de tecnologia própria, software e sistemas para mercados internacionais. A mudança de paradigma, apontada por José Neves, presidente do AED Cluster - que representa as indústrias da Aeronáutica, Espaço e Defesa - está a ganhar força com o crescimento de áreas como os drones, satélites, software, sistemas autónomos e novos materiais.“Portugal já não é tanto hoje um destino de subcontratação, mas cada vez mais estamos a tornar-nos fornecedores e OEM (fabricante original de equipamento, na sigla em inglês). Algumas das conquistas que estamos a alcançar estão, de facto, a promover as empresas portuguesas a juntarem-se, a conhecerem o mercado e usarem esse conhecimento e essa competência para se projetarem lá fora”, defendeu o responsável, na sessão de abertura dos AED Days.No evento que termina este sábado, e que durante três dias reuniu mais de mil participantes destes setores no Estoril e em Oeiras, José Neves explicou que a crescente parceria entre as empresas internacionais e portuguesas revela um sinal de maturidade do setor nacional. “O mercado é bastante pequeno, por isso todas as empresas, para sobreviverem, têm de se projetar para fora de Portugal, por isso é importante que estejamos a conseguir isso. Quando falamos de Espaço, de tecnologia e de Defesa, a concorrência é à escala global e, por isso, temos de ser os melhores dos melhores.”, afirmou.Na fileira da Aeronáutica, o presidente do AED Cluster sublinhou o “trabalho sólido” na áerea de MRO (manutenção, reparação e revisão de aeronaves), elogiando o desenvolvimento, ao longo do último ano, de novas tendências como infraestruturas inteligentes, novos materiais e software digital “que está a começar a integrar aeronaves reais”. Também o desenvolvimento do LUS-222, o primeiro avião civil-militar projetado e desenvolvido em Portugal, que envolve 20 membros do cluster nacional, foi apontado como um caso de cooperação.“Estamos a fazer aquilo que devemos fazer: colocar empresas, institutos e entidades de investigação a trabalhar em conjunto e isso é uma grande conquista. Estas empresas no futuro poderão trabalhar e ser fornecedoras da aeronave e adquirir este conhecimento que podem usar quando vão lá fora falar com a Airbus, com a Saab ou com a Lockheed Martin”, exemplificou. O responsável defendeu ainda que o futuro do setor passa por áreas como a aviação sustentável, sistemas autónomos e pelos “aeroportos do futuro”, áreas que até há poucos anos eram vistas como ambições, mas que “começam agora a transformar-se em realidade”.No Espaço, frisou o momento de “grande sucesso” que Portugal enfrenta, sustentado por mais de duas décadas de investimento. O país conta atualmente com quase 100 entidades ligadas a atividades espaciais, desde sistemas espaciais e navegação de precisão até observação da Terra, propulsão e monitorização espacial. Depois do lançamento do primeiro satélite comercial português no ano passado, este ano já ocorreram lançamentos ligados à Força Aérea Portuguesa ou ao NEO totalizando “mais de meia dúzia de satélites” enviados para o espaço.“As nossas atividades estão realmente a ir para o mercado e isto é um exemplo claro da nossa ambição e do nosso posicionamento neste setor. A nossa posição estratégica atlântica, que pode ser bastante importante no domínio espacial e é algo que podemos usar em combinação com a posição geográfica, com a tecnologia e, mais importante, com uma visão operacional sobre aquilo que queremos para o futuro”, apontou.Já a Defesa assume para José Neves um papel central num contexto marcado pelo aumento do investimento europeu e pelas decisões da NATO relacionadas com rearmamento. Portugal está hoje mais bem preparado do que há uma década devido ao desenvolvimento em comunicações, drones e satélites. “Este é realmente um momento para Portugal alcançar resultados extraordinários. A questão já não é onde Portugal pode desempenhar um papel relevante, mas sim como podemos integrar-nos no ecossistema global de defesa. As empresas portuguesas não se estão apenas a projetar para a Europa, estão a projetar-se à escala global”, indicou, destacando as exportações para o Reino Unido, para a Arábia Saudita e para o Brasil. As empresas de drones são, para o responsável, “o melhor exemplo do que se faz em Portugal”..As armas da Airbus para vender caças a Portugal: soberania e presença reforçada no ecossistema industrial