Esta semana, em pleno arranque das vindimas em solo nacional, o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) publicou as suas estimativas para a próxima campanha: deverão ser 6,7 milhões de hectolitros, mais 12% que nas vindimas anteriores, ainda que 4% abaixo da média das últimas cinco campanhas. Das 14 regiões vitivinícolas portuguesas, só os Açores é que deverão registar uma diminuição da produção, de cerca de 20%, devido a doenças fúngicas. Beira Interior e Távora-Varosa ficarão em linha com o ano passado, e Douro e Alentejo sobem ao pódio das regiões com maiores aumentos: 25% e 15%, respetivamente. As notícias seriam boas, não fosse o consumo mundial continuar a cair, com Portugal a integrar o grupo mais exposto ao abrandamento da procura internacional. Um estudo do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), em Coimbra, divulgado também esta semana, deu conta de que entre 2000 e 2023 o excedente de vinho, no mundo, equivale a três anos de consumo global.O desfasamento estrutural “reflete a inércia da oferta”, salientou à Lusa Maria Cunha, do ISMT. Desde 2018, o consumo mundial caiu a uma média anual de 1,75%, enquanto a produção recuou apenas 0,3%. Em Portugal não é diferente. E os seis produtores e/ou enólogos que falaram com o Dinheiro Vivo confirmam: “Tudo indica que a vindima deste ano será globalmente superior, em quantidade, à do ano passado”, afirma Diogo Lopes, enólogo que trabalha em várias regiões do país e que assina vinhos como AdegaMãe, Quinta dos Frades ou Herdade Grande. “No Tejo, já vindimámos 70% das castas brancas e, para já, temos cerca de 45% de aumento de produção face à colheita anterior. Em relação à média dos últimos cinco anos, estamos 15% acima”, salienta Joana Silva Lopes, enóloga da Lobo de Vasconcellos Wines. .“Tudo indica que a vindima deste ano será globalmente superior, em quantidade, à do ano passado”Diogo Lopes, enólogo.Menos e melhoresMas se a produção aumenta e o consumo diminui - a perspetiva é de que continue a cair, até porque a Organização Mundial de Saúde está, desde a pandemia, a cerrar ainda mais as fileiras contra o consumo de álcool -, o que vai acontecer ao setor?Também nisto os especialistas consultados pelo DV são unânimes: vai ser preciso alterar o modelo económico e vai haver maior consolidação do setor, que “irá passar por uma fase de adaptabilidade, onde os mais fortes e mais bem implementados no mercado, vão prosperar”, acredita Luís Morgado Leão, general Manager e enólogo da Quinta do Paral, no Alentejo.Já António Braga, enólogo consultor em projetos de norte a sul do país, nota que “a pressão sobre a margem operacional deixou de ser conjuntural para se tornar uma tendência estrutural, e isso exige, das empresas, a capacidade de rever profundamente as suas estruturas, questionando a forma como o negócio está organizado. As empresas que não conseguirem manter-se viáveis, saudáveis e com boas práticas de gestão correm, de facto, o risco de encerrar, dando assim origem a consolidações”.Para Bernardo Cabral, enólogo que se tornou particularmente conhecido pelo trabalho desenvolvido na Adega Cooperativa do Pico, nos Açores, “a consolidação já começa a ser uma realidade”. Afirma mesmo que o cenário mais realista para os próximos cinco anos é que, “inevitavelmente, irá haver abandono de vinhas (já há) e redução do número de produtores”.Recorde-se que já este ano os produtores do Douro - geralmente os mais vocais - vieram pedir a intervenção urgente do Executivo, numa altura em que o preço da uva continua a cair. Há regiões do país em que cada produtor recebe menos de um euro por quilo de uva vendida, o que significa que pode nem lhe compensar o trabalho e a despesa de a vindimar.“Há uma desafio imediato, que é valorizar justamente as uvas produzidas em Portugal. Só é possível, iniciar este caminho com estratégia eficiente de controlo da entrada de uva e vinho, nas fronteiras”, avisa ainda Joana Silva Lopes, deixando assim um recado à regulação.Isto numa altura em que, para os consumidores, o preço continua a escalar, sobretudo se vendido em mesas de restaurantes. “Matámos a galinha dos ovos de ouro, com a subida em flecha do turismo em Portugal. Com a subida vertiginosa dos preços do vinho na restauração, o nosso setor é um dos que está a sofrer mais”, considera mesmo Luís Morgado Leão. .“Matámos a galinha dos ovos de ouro, com a subida em flecha do turismo em Portugal. Com a subida vertiginosa dos preços do vinho na restauração, o nosso setor é um dos que está a sofrer mais"Luís Morgado Leão, enólogo e CEO da Quinta do Paral.Por seu lado, Diogo Lopes aponta responsabilidades aos grandes retalhistas. “Há vários anos que os produtores têm vindo a absorver sucessivos aumentos nos custos de produção - desde as matérias-primas, à energia, aos materiais de embalagem, aos produtos enológicos, aos transportes e, naturalmente, à mão de obra. No entanto, esses aumentos raramente são refletidos no preço final do vinho”, nota.“Na prática, o consumidor continua a encontrar vinhos a preços muito semelhantes aos de há alguns anos, sobretudo nas grandes superfícies, onde existe uma enorme resistência à atualização dos preços por parte da distribuição. Isso significa que quem tem suportado a quase totalidade da pressão inflacionista são os próprios produtores e os agricultores que também lhes vendem uvas! Pede-se resiliência à vinha, perante alterações climáticas, perante a inflação, mas quem a salva são os agricultores e produtores que lá trabalham e investem todos os dias”, alerta.O mais recente estudo Setor do Vinho: Avaliação de Impacto Socioeconómico em Portugal, realizado pela Universidade Nova para a Acibev - Associação de Vinhos e Bebidas Espirituosas, dava conta de que o setor do vinho representava, em 2021, cerca de 2,7% do PIB nacional, gerando um impacto económico total superior a dez mil milhões de euros (incluindo efeitos diretos, indiretos e induzidos) e sustentando mais de 168 mil postos de trabalho em todo o país.Em 2025, segundo dados da Informa D&B, as principais empresas do setor do vinho em Portugal registaram um crescimento de 2% na faturação, contrariando a tendência de queda acentuada no volume de produção e o recuo nas exportações, e garantindo receitas agregadas que atingiram os 1,3 mil milhões de euros. Não é, portanto, de estranhar, que o ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, continue a considerá-lo um setor fundamental para a economia nacional (ver entrevista publicada em www.dinheirovivo.pt) .Douro: viticultores falam em “tragédia” e pedem ajuda ao Governo.“A pressão sobre a margem operacional deixou de ser conjuntural para se tornar uma tendência estrutural, e isso exige, das empresas, a capacidade de rever profundamente as suas estruturas, questionando a forma como o negócio está organizado"António Braga, enólogo.Alterações climáticas e de perfilMas nem tudo está perdido, acredita quem está no terreno todos os dias a fazer do vinho um negócio. Se, por um lado, é certo que as alterações climáticas e do próprio perfil de vinho que os consumidores procuram é uma realidade, por outro Portugal pode usar tudo isto a seu favor, consideram.Além de ter de garantir um perfil de consistência e excelência, algo em que todos são também unânimes. “A inconstância de perfil ou grande variabilidade de preços são inimigos do sucesso”, garante Bernardo Cabral.“Portugal dificilmente ganhará uma competição baseada apenas em preço ou escala”, salienta Filipe Caldas de Vasconcellos, dono e CEO da quinta algarvia Morgado do Quintão. “A nossa vantagem está na diversidade, nas castas autóctones, nas vinhas velhas, na autenticidade e na capacidade de produzir vinhos que não poderiam existir noutro lugar”, começa por dizer. “Mas na verdade isso também já não chega. O vinho deixou de ser uma compra quase automática. Hoje é uma escolha, e quando alguém escolhe, escolhe relevância. Escolhe qualidade. Escolhe autenticidade. Acho que o desafio do setor já não é apenas produzir grandes vinhos. É construir projetos que façam sentido para as pessoas.”Diogo Lopes concorda: “A força está na autenticidade, na diversidade das castas, na riqueza dos terroirs e na consistência da qualidade que conseguimos entregar, ano após ano. O grande objetivo deve ser continuar a produzir vinhos genuínos, com identidade, capazes de conquistar consumidores em todo o mundo e, dessa forma, contribuir para elevar cada vez mais o prestígio do vinho português”. Para Bernardo Cabral esse caminho é também óbvio: “Portugal tem de conseguir impor-se internacionalmente como um país de referência enquanto produtor de vinhos de excelência e assim expandir o seu mercado. Se as vendas estiverem bem, toda a fileira ficará bem”, acredita.Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal - o instituto responsável pela divulgação do vinho nacional - manifesta-se no mesmo sentido. “A estratégia da ViniPortugal está orientada para a valorização e isso implica selecionar mercados, canais e consumidores nos quais a diferenciação portuguesa tenha capacidade para gerar margem”, explica.Para isso, as vinhas velhas, as castas autóctones e a diversidade genética podem ser fortes aliados. “Na videira, tal como noutras culturas mediterrânicas, como o olival e a amêndoa, temos plantas com uma elevada capacidade de adaptação a climas de características secas e de temperaturas elevadas”, adianta António Braga. “Neste contexto, temos dois grandes caminhos para dar resposta à intensidade e variabilidade dos fenómenos climáticos extremos: a diversidade genética, em que a variedade de castas nos obriga a, e dá-nos a responsabilidade de, testarmos dentro do nosso património genético aquelas que têm a melhor capacidade para responder a estas situações; e as técnicas de terreno, devendo rever também algumas técnicas vitícolas nesse sentido”.No mesmo sentido, admitem que as mudanças de perfil que o mercado pede - menos ou nenhum teor alcoólico - podem ser acomodadas facilmente em Portugal, através da adaptação do calendário da vindima, “antecipando para perfis mais frescos, ou usando técnicas de vinificação com extrações mais suaves, procurando produtos mais apelativos, com mais fruta”, resume Joana Silva Lopes. .E o vinho do Porto?Menos trabalhadores, menos necessidade de uva e menos consumo mundial daquele que é o produto português com maior notoriedade internacional está a acentuar a crise no Douro.Tal como o DV noticiou, a Casa do Douro denunciou recentemente o cancelamento de várias encomendas. E Oscar Quevedo, produtor de Vinho do Porto, dizia em conversa com o DV: “Estamos com capacidade instalada de vinhas para níveis de consumo de há 30 anos ou 20 anos, quando hoje em dia, no caso do vinho do Porto, esse consumo caiu em, pelo menos, um terço. Senão mais. E isso causa um desequilíbrio brutal. Porque quem produz uvas vê sistematicamente a autorização de produção de vinho do Porto a reduzir - e essa autorização é paga a cerca de 1,5 euros por quilo. Já as uvas para vinho de mesa do Douro são pagas a 70 cêntimos...”.“Os viticultores estão numa situação completamente catastrófica, estão desesperados, porque têm um ano de trabalho em que gastaram todo o seu rendimento e não têm agora forma de o recuperar”, adiantou à Lusa Marinete Alves, membro do Conselho Regional da Casa do Douro. “O motivo que apresentam [para cancelar as encomendas] é que não conseguem fazer escoamento do vinho, que têm muito stock, mas é um contrassenso, [porque] aumentaram o [benefício] da produção de Porto em mil pipas. Depois, dizem que não temos uvas suficientes na região para a produção de aguardente e vinho, mas depois temos uvas em excesso, [que] vão ficar na vinha. Há um monopólio do comércio em que os viticultores estão sob uma dependência económica brutal e só fazemos o que eles querem”, reiterou Alves.Este tem, aliás, sido o cenário geral no Douro nos últimos anos - um grave desequilíbrio entre oferta e procura - com o decréscimo de consumo a justificar o aumento consecutivo de inventário. No ano passado, a produção na região escorregou cerca de 40%, mas, ainda assim, não foi o suficiente para escoar o stock existente, e para mitigar o impacto financeiro nos produtores, que há anos veem os seus rendimentos reduzir.Numa altura em que as exportações são cada vez mais relevantes para todo o setor, mas em particular para um produto que é o rosto dos vinhos nacionais, o DV questionou Frederico Falcão sobre o facto de este não fazer parte das ações de promoção da instituição que lidera. Uma luta, aliás, que é bem conhecida no setor, mas menos discutida do que alguns gostariam. “Atualmente, a ViniPortugal encontra-se limitada pelo enquadramento legal em vigor, que não lhe permite promover internacionalmente o Vinho do Porto no âmbito das suas ações. Trata-se de uma condicionante que resulta da legislação nacional e não de uma opção estratégica da instituição”, esclarece. “Como facilmente se compreende, é muito difícil explicar aos mercados internacionais que, ao promover os vinhos de Portugal, fique de fora precisamente o vinho português com maior reconhecimento e notoriedade mundial. Acreditamos que a integração do Vinho do Porto na estratégia de promoção da marca Wines of Portugal reforçaria a imagem global dos vinhos portugueses, criando sinergias e potenciando o impacto das ações promocionais em benefício de todo o setor”, concluiu.Em resumo, torna-se claro que o setor chegou a um ponto em que já não basta produzir bem: é preciso que o modelo económico faça sentido. Portugal tem ativos que muitos mercados invejam - quase 300 castas autóctones, uma das maiores áreas de vinhas velhas, diversidade genética e consistência técnica - mas continua preso a um modelo que recompensa volume e penaliza valor.Sem uma estratégia clara para alinhar produção, promoção e rendimento agrícola, o setor arrisca transformar uma das suas maiores forças económicas num território de sobrevivência e onde este produto tem, cada vez mais, de ser apresentado como parte da cultura e da tradição, para conseguir sobreviver num mundo onde o consumo vai continuar a colocar as bebidas alcoólicas de lado. .Óscar Quevedo: "30% das empresas de vinho vão desaparecer nos próximos 10 anos”.“Se formos a fazer contas desistimos já hoje de trabalhar’: viticultores do Douro alarmados com custos.A salvação do setor está no vinho do Porto?