Dois nomes acabam de descolar do pelotão dos favoritos à vice-presidência do Banco Central Europeu (BCE): na passada quinta-feira, a comissão de Economia e Finanças do Parlamento Europeu (PE) apoiou explicitamente o ex-governador do Banco de Portugal (BdP), Mário Centeno, e o atual governador do Banco Central da Letónia, Mārtiņš Kazāks, "como candidatos preferenciais para o cargo" de vice na comissão executiva (a cúpula do conselho de governadores), que vaga no próximo mês de maio, com a saída do espanhol Luis de Guindos.Aos olhos de várias fontes diplomáticas que acompanham o tema em Bruxelas e Frankfurt, o português surge agora como "ligeiramente mais favorito" porque a presidente Christine Lagarde "simpatiza" muito com o perfil e a pessoa de Centeno, que conhece de forma próxima: trabalhou com ele durante quase sete anos (no BCE, como governador, e antes disso nos conselhos europeus, quando foi ministro e presidente do Eurogrupo).Além da atual chefe máxima do banco central, outro apoio de peso é o amigo e aliado político António Costa, o atual presidente do Conselho Europeu. Centeno foi seu ministro das Finanças até ser escolhido pelo governo para a liderança do Banco de Portugal.Além dos dois candidatos referidos (Centeno e Kazāks), surge ainda o nome de Olli Rehn, atual governador do banco central da Finlândia, antigo comissário europeu da Economia e ministro da Economia no seu país, também visto como grande favorito. Até agora, disputava muitas simpatias nos círculos diplomáticos na luta com Centeno.O finlandês é tido como um "falcão", uma voz da chamada austeridade, e isso pode jogar contra ele nesta corrida ao topo do BCE. Foi o comissário da Economia entre 2010 e 2014, os anos de chumbo da crise do euro e dos programas de ajustamento aplicados a Portugal, Grécia, Irlanda e, parcialmente, a Espanha.Com a decisão de quinta-feira, o PE veio agora tornar a corrida um pouco mais vibrante ao dar mais gás ao letão Mārtiņš Kazāks, do leste europeu, tecnocrata, com uma carreira de quase 15 anos como economista-chefe na banca comercial (na filial do grupo Swedbank, na Letónia).Seja como for, o antigo governador do BdP tem a seu favor o facto de ser visto como menos radical na abordagem da luta contra a inflação – é tido como uma "pomba", mais pró-crescimento e favorável a taxas de juro mais baixas para proteger o crescimento e o emprego; e menos um "falcão", mais implacável e a favor de taxas de juro mais elevadas, em que o alfa e ómega é manter, acima de tudo e custe o que custar, a inflação ancorada nos 2%.Se a presidência for de continuidade e for parar às mãos de um falcão (como Lagarde, ainda que esta goste mais de "mocho" ou "coruja"), há muitos incentivos para que o BCE tenha na vice-presidência alguém do sul da Europa e com uma visão mais moderada da política monetária, diz-se. É visto como um compromisso na autoridade que define as taxas de juro dos 21 países que compõem o euro.Um espanhol também podia ser uma opção, mas diz que Espanha está a guardar-se para o lugar de economista-chefe que vaga no próximo ano com a saída do irlandês Philip Lane, sabe o DN/DV.Este perfil é um trunfo na medida em que, explicaram várias fontes, os três maiores países da Zona Euro – Alemanha, França e Itália – vão querer o prémio ou lugar maior: a presidência do BCE, que vaga em novembro de 2027.Já com isso na cabeça, Lagarde até aventou, recentemente, uma eventual mudança na prática que impede que duas pessoas da mesma nacionalidade ocupem, em simultâneo, lugares na comissão executiva do BCE.No entanto, essa possibilidade tem sido desvalorizada a favor de um outro tipo de jogada, que nem é nova: haver um membro da comissão executiva que saia antes do final do seu mandato para abrir alas a um alemão, francês ou italiano a ocupar a presidência.É algo que, aliás, até tem precedentes na história do BCE. O italiano Lorenzo Bini Smaghi demitiu-se da comissão superior do BCE em novembro de 2011, dois anos antes do fim do mandato, para abrir espaço para o seu compatriota Mario Draghi chefiar o BCE.Além disso, dizem fontes ao DN/DV, ter duas pessoas da mesma nacionalidade na cúpula do BCE seria algo difícil de por em prática e até perigoso ou passível de ser mal entendido nos tempos que se vivem, uma alteração nos modos que causaria um "ruído" pouco saudável numa altura em que a autoridade sediada em Frankfurt joga num plano político europeu e mundial pejado de incertezas e caos.Haver um novo tema interno como este no banco central ajudaria pouco à estabilidade desejada, é essa a ideia também.Quem é quemAtualmente, a cúpula ou comissão executiva do BCE tem a francesa Lagarde, que sai em novembro de 2027, e o espanhol Luis de Guindos, cujo mandato como vice acaba em maio deste ano.Além destes dois, temos ainda a alemã Isabel Schnabel, que tem de sair até 31 de dezembro de 2027 e o irlandês e economista-chefe Philip R. Lane cujo termo acontece no ano que vem. O holandês Frank Elderson sai em 2028 e o mandato do italiano Piero Cipollone, o mais recente membro da comissão executiva, só termina em 2031 (entrou em 2023).Significa, pois, que alemães, italianos e franceses não vão querer gastar já os trunfos para ficarem com a vice-presidência (VP), preferindo esperar mais um ano e tomar a desejada presidência do BCE, que é o segundo maior banco central do mundo, a seguir à Reserva Federal dos Estados Unidos.Além dos "mais favoritos" Centeno, Kazaks e Rehn, na corrida à VP do BCE estão ainda o governador do banco central croata Boris Vujcic, o governador da Estónia Madis Muller e o ex-ministro das Finanças da Lituânia Rimantas Sadzius.A votação no Eurogrupo e no Conselho EuropeuO processo de seleção do próximo VP do BCE começa esta segunda-feira dia 19 de janeiro no Eurogrupo, o conselho europeu informal dos ministros das Finanças do euro.Fonte oficial desta entidade diz que o "o Eurogrupo discutirá as candidaturas para o cargo de vice-presidente do BCE antes da recomendação do Conselho europeu".Recorde-se que o Eurogrupo não irá chegar ao voto na nomeação final, mas o nome que vencer e dali sair muito dificilmente não será escolhido.A "recomendação" que sair do Eurogrupo será depois submetida ao conselho europeu e que no final escolherá o novo VP do BCE por maioria qualificada reforçada, isto é, a que reúna 72% dos Estados-Membros da Zona Euro e que estes representem 65% da população da união monetária.Se o nome do vencedor não sair à primeira, podem haver várias votações até se chegar a um veredicto final..Governo fala em “eleição difícil” para ‘vice’ do BCE à qual concorre Mário Centeno .Centeno transmitiu ao Governo "desejo e pedido" de se candidatar a vice do BCE .Centeno pode suceder a Luis de Guindos na vice-presidência do BCE