Na terra onde nasceu a mais famosa de todas as equipas de Fórmula 1, seria impossível não respirar Ferrari. Ao chegar à pequena cidade de Maranello, a cerca de 45 minutos do aeroporto de Bolonha, norte de Itália, rapidamente se percebe que quase tudo gira em torno do orgulho de ter visto nascer ali a marca fundada por Enzo Ferrari. O vermelho inconfundível espalha-se por bancos, postes, condutas de ar condicionado e pequenos detalhes das ruas, tornando difícil esquecer que é nesta cidade de pouco mais de 17 mil habitantes que continua a bater um dos maiores símbolos do automobilismo mundial.É, no entanto, atrás dos portões da fábrica que a Ferrari revela verdadeiramente a dimensão do seu universo. O complexo funciona quase como uma pequena cidade, atravessada por ruas que homenageiam alguns dos campeões da Scuderia e por uma praça inteiramente dedicada a Michael Schumacher. Entre um edifício e outro cruzam-se engenheiros e mecânicos de macacão branco, sempre em passo acelerado, enquanto carrinhas elétricas transportam peças e componentes ao longo do recinto.Entrar ali é um privilégio reservado a funcionários e a um número muito reduzido de convidados. Fotografias e vídeos estão fora de questão. Antes mesmo de começar a visita, tal como numa discoteca berlinense, todos os telemóveis recebem uma fita a tapar as duas câmaras, algo que traduz o cuidado da Ferrari em proteger tudo o que acontece dentro daquelas paredes.Ao entrar nas áreas de produção, vê-se um ambiente que contrasta com o peso que normalmente se associa a uma fábrica automóvel. Aqui predominam a luz natural, os jardins interiores e grandes superfícies envidraçadas, algo que a nossa guia, Alessia Boni, explica tratar-se de uma aposta que procura reduzir o consumo de iluminação artificial e criar melhores condições de trabalho. Ao longo do percurso, a visita mistura presente e passado. Há espaço para recordar a origem do Cavallino Rampante, aquele que Alessia descreve como "o logótipo mais famoso de Itália", mas também para descobrir algumas das peças mais invulgares do universo Ferrari. Entre elas está o único barco equipado com um motor Ferrari V12, construído para navegar no Lago Como, e um Purosangue ainda despido de carroçaria, revelando toda a estrutura do automóvel antes da fase final da montagem: música para os ouvidos de qualquer fã da Scuderia. É precisamente aí que se encontra um dos momentos mais simbólicos de toda a produção e ao qual os trabalhadores chamam marriage center. É onde o chassis recebe finalmente o motor, numa operação que, dentro da fábrica, costuma ser descrita como o momento em que "o corpo encontra a alma". A produção, conta Boni, decorre em três turnos de oito horas, mantendo a fábrica sempre em funcionamento. A estratégia continua a refletir-se nas contas da marca, afinal, em 2025 a Ferrari registou um lucro líquido de 1,6 mil milhões de euros, mais 5% do que no ano anterior, enquanto as receitas ultrapassaram os 7,1 mil milhões.Depois da união entre chassis e motor, cada Ferrari segue para a área de quality check. O cenário impressiona. Dezenas de funcionários distribuem-se em torno dos automóveis, analisando minuciosamente cada milímetro da pintura, do habitáculo, da eletrónica e dos acabamentos. Nada escapa à inspeção, nem mesmo as buzinas, testadas repetidamente naquela parte da fábrica. Entre modelos de todas as cores e configurações estava também o Ferrari Luce, o controverso primeiro automóvel 100% elétrico da história da marca, que chegará ao mercado no último trimestre deste ano. Num piso superior, a visita passa ainda por uma coleção que mostra a evolução dos diferentes dashboards da Ferrari ao longo das últimas décadas e chega ao exclusivo XX Program, reservado a um número muito restrito de clientes. Ali repousam alguns dos automóveis mais exclusivos alguma vez produzidos pela marca, como o FXX, o FXX K e o FXX K Evo. Os proprietários adquirem um programa completo que lhes permite conduzi-los na pista de Fiorano ou em circuitos de todo o mundo, sempre acompanhados por uma equipa de engenheiros e mecânicos da Ferrari.E se a primeira metade da visita é dedicada aos automóveis de estrada, a segunda mergulha no universo da competição. No edifício da Scuderia Ferrari, cada monolugar regressa depois de um Grande Prémio para ser completamente desmontado e analisado. Dezenas de engenheiros, projetistas e outros profissionais estudam ao detalhe o comportamento de cada componente, enquanto os motores seguem para uma área própria de inspeção. Embora a maior coleção de troféus permaneça exposta no Museu Ferrari, a fábrica guarda também algumas das conquistas mais recentes da Scuderia, entre elas o recente troféu do Grande Prémio da Catalunha, vencido por Lewis Hamilton. O edifício guarda ainda alguns dos carros mais emblemáticos da história da equipa, de pilotos como Niki Lauda, Sebastian Vettel, Kimi Räikkönen, Fernando Alonso. Entre eles está o monolugar utilizado nas comemorações do milésimo Grande Prémio da Ferrari, disputado em Mugello, em 2020. Pintado num tom deep red, inspirado na cor originalmente idealizada por Enzo Ferrari, foi conduzzido por Charles Leclerc numa corrida que assinalou um feito único para a Scuderia. "Em cada Grande Prémio da história da Fórmula 1 houve uma Ferrari", recorda a guia Alessia Boni. Nenhuma outra equipa pode dizer o mesmo..O Diário de Notícias viajou para Itália a convite da Shell Portugal..Maranello faz um "reset" comercial que acalmou Wall Street após o choque do Ferrari Luce.Lucro da Ferrari aumenta 5% para 1,6 mil milhões em 2025