Os investidores e analistas, sobretudo os que olham hora a hora para os mercados de energia (petróleo e gás) ainda estão assumir, como cenário de base, que o bloqueio do Estreito de Ormuz -- a porta de saída de 20% do petróleo produzido no mundo, no Golfo Pérsico -- pode terminar até ao final do segundo trimestre deste ano, o mesmo que dizer, até ao início do verão.Mas o desânimo é visível e cada vez maior. Esta quarta-feira, o contrato do petróleo Brent, a referência para a Europa, tocou nos 110 dólares por barril, o valor mais elevado desde o início de 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia.Os preços dos combustíveis vão continuar a subir (eventualmente, mais sete a dez cêntimos por litro em Portugal na próxima segunda-feira), no Japão, uma das maiores economias do mundo, o custo dos combustíveis atingiu esta quarta o valor mais alto de sempre.O custo de vida começa a ficar altamente pressionado e, embora os números oficiais disponíveis para a inflação ainda não mostram o salto nos preços (o Eurostat apurou uma inflação de 1,9% na Zona Euro, em linha, portanto, com as metas do Banco Central Europeu), vários economistas estão convencidos que as taxas de juro vão ter de subir, mesmo.Antes de EUA e Israel abrirem esta guerra contra o Irão, o consenso era de que o BCE estava "numa boa posição" e que deixaria a sua taxa de juro principal em 2% até ao final deste ano ou mais. Essa ideia evaporou-se.Além de bens e serviços mais caros, famílias, empresas e Estado vão ter de pagar mais pela dívida em forma de juros. Essa realidade é bem conhecida dos portugueses, ainda que menos grave do que no passado.Estava tudo bem encaminhado até esta nova guerraAntes desta nova guerra, o ponto de partida para a economia portuguesa era "relativamente positivo", refere Paula Carvalho, economista-chefe do departamento de estudos BPI Research.Na sua análise, concorda com o que defendem tantos outros economistas que observam os mercados e as economias por esse mundo fora. Um "desvio em relação à previsão dependerá da duração e intensidade do conflito, do alcance geográfico e de eventuais danos estruturais na infraestrutura energética dos países do Golfo"."Dependendo destes fatores, a subida dos preços da energia será mais ou menos intensa e prolongada, e os fluxos comerciais, as condições financeiras e a confiança serão afetadas em maior ou menor grau."A responsável do BPI recorda que "o peso das importações de energia que chegam a Portugal através do Estreito de Ormuz é relativamente baixo: cerca de 7% no caso do petróleo e menos de 1% no caso do gás" e que a produção elevada proveniente de fontes renováveis tornou-se um "ativo valioso em situações de tensão como a atual".Embora a analista descarte ruturas no abastecimento de combustíveis, não tem dúvidas de que Portugal "será afetado pelo aumento dos preços da energia". São definidos nos mercados internacionais, como se sabe.Assim, neste caso, espera-se um impacto setorial muito heterogéneo: "a indústria, mais intensiva em energia, seria a mais afetada; por outro lado, no turismo, a perceção de um destino seguro poderá compensar o efeito do choque sobre a procura".Com as pressões inflacionistas em crescendo, "o BCE será forçado a aumentar as taxas de juro e as condições financeiras globais serão mais restritivas se a incerteza e a aversão ao risco permanecerem em níveis elevados". Esta quinta, há reunião de taxas de juro do BCE, em Frankfurt.A perita do BPI lembra ainda que "Portugal enfrenta o cenário numa posição mais sólida do que há alguns anos" porque os setores privado e pública têm vindo a diminuir o peso do endividamento ao longo do tempo, "reduzindo a vulnerabilidade a mudanças no sentimento dos investidores internacionais".Mas há um "canal através do qual a economia poderá ser afetada": pela confiança (ou a falta dela)"Se as famílias e as empresas, preocupadas com o contexto geopolítico, reagirem de forma exagerada e reduzirem o consumo e o investimento por precaução, o impacto do choque será significativo. No entanto, acreditamos que isso não deve acontecer", espera Paula Carvalho. "Esperemos que a guerra termine o mais brevemente possível", remata.Mais três meses de petróleo a subirO ING, um enorme grupo financeiro baseado na Holanda, o cenário central (de base) também tenta evitar catastrofismos.Warren Patterson, economista-chefe para a área das matérias primas, refere que "o nosso novo cenário base prevê preços de energia mais elevados"."No início da guerra, no nosso cenário base, assumimos uma interrupção total de duas semanas no fluxo de energia através do Estreito de Ormuz e, em seguida, uma recuperação gradual ao longo do resto do mês de março, levando a fluxos quase normais em abril. Isto era claramente demasiado optimista", confessa.Hoje, como novo cenário central, no ING assumem que Ormuz "continuará interrompido até final de março", depois esperam que a guerra fique com "menor intensidade, juntamente com mais sinais de diplomacia, que começam a permitir uma recuperação gradual do fluxo de energia no segundo trimestre".Neste cenário, a média do petróleo sobe na mesma: de 76 dólares no primeiro trimestre para 91 dólares no segundo trimestre. Só depois começa a aliviar, de acordo com Patterson..Preço do petróleo já está 25% acima do valor assumido pelo Governo no Orçamento do Estado de 2026.Analistas preveem média de 68 dólares no crude este ano e OE ainda pode estar dentro dos limites de segurança.Irão: “Não se esperam cortes de abastecimento de energia, mas Portugal vai apanhar por tabela com o aumento dos preços”