Juan Roig, presidente da Mercadona
Juan Roig, presidente da MercadonaFoto: Gerardo Santos

Mercadona vendeu seis milhões de euros por dia em Portugal e mais do que triplica lucros. CEO quer IVA zero para responder à inflação

A cadeia de supermercados espanhola registou um resultado líquido positivo de 26 milhões de euros em 2025 e prepara abertura de mais 12 lojas no país. Presidente diz que se guerra no Médio Oriente fizer subir custos das matérias-primas, preços também aumentarão e pede aos governos de Portugal e Espanha que adotem o IVA Zero.
Publicado a

Seis anos depois de atravessar a fronteira e abrir o primeiro supermercado em Portugal, a Mercadona alcançou um resultado histórico em terras lusas. A retalhista espanhola reportou um lucro recorde de 26 milhões de euros em 2025 no país, praticamente o quádruplo face aos sete milhões de euros registados no exercício anterior. 

A boa performance dos números do grupo de distribuição alimentar fez-se à boleia de um incremento de 18% do volume de vendas no conjunto das 69 lojas em operação, que atingiu os 2.092 milhões de euros. Contas feitas, em 2025, a Mercadona vendeu seis milhões de euros por dia aos portugueses.

“São resultados extraordinários”, admitiu esta terça-feira, 10, o presidente da maior cadeia retalhista espanhola durante a conferência de imprensa de apresentação de resultados realizada em Valência, Espanha, onde está localizada a sede da empresa. Juan Roig referiu estar “muito satisfeito” com os resultados em Portugal, embora, considere que "ainda falta conhecer muito mais sobre país".

No global da operação ibérica as receitas portuguesas pesaram 5% no total dos 41.858 milhões de euros (+8%)  faturados nas duas geografias vizinhas.

No que respeita ao investimento, a Mercadona aplicou, no ano passado, 140 milhões de euros no país - menos 79 milhões face a 2024 -  o que representa uma fatia de 8% do total investido. No global entre Portugal e Espanha, o valor cifrou-se nos 1.700 milhões de euros.

Olhando para o acumulado, a empresa soma um investimento de 1.230 milhões de euros desde que chegou a Portugal. Parte deste montante é destinado à expansão do grupo e, em 2025, a empresa familiar liderada por Roig abriu nove supermercados, estendendo a presença para a capital com a inauguração da primeira loja localizada na Alta de Lisboa.

Os resultados históricos da retalhista marcam, desta forma, um novo capítulo do negócio no país. Depois de ter entrado no mercado luso em 2019, com a inauguração do primeiro espaço em Canidelo, Vila Nova de Gaia, o grupo espanhol tem estendido o plano de investimento, que começou a Norte, à restante geografia nacional.

Até 2022 as contas foram negativas, tendo os prejuízos desse ano atingido os 50 milhões de euros. Depois do  break-even no ano seguinte, só em 2024 é que a cadeia de supermercados ganhou dinheiro pela primeira vez em Portugal.

Mercadona abre mais 12 supermercados este ano e chega ao Algarve

Para este ano, a Mercadona perspetiva investir 150 milhões de euros em Portugal e abrir mais 12 supermercados. A marca vai entrar pela primeira vez em quatro novo distritos, ficando presente em 16 dos 18 distritos.

A inauguração, no passado mês de fevereiro, da segunda loja em Lisboa, na Quinta do Lambert, no Lumiar, elevou o número de espaços da Mercadona em Portugal para 70. Além dos supermercados, a retalhista conta ainda com dois blocos logísticos, na Póvoa de Varzim e Almeirim, e com dois centros de coinovação, localizados em Matosinhos e Lisboa.

Depois de consolidar a sua presença no Norte, - onde abriu inicialmente os 10 primeiros espaços da insígnia no Porto, em Braga e em Aveiro - e da estreia em Lisboa, o plano de expansão traçado até dezembro ruma a sul, com a inauguração de dois supermercados no Algarve no final do último trimestre: um em Portimão, no Nova Vila Retail Park, e o outro em Faro, em Vale da Amoreira.

Em 2026, a cadeia irá ainda abrir supermercados em Viseu, Covilhã, Sintra, Moita, Beja, Vila Real, Amarante, Maia e Esposende.

A empresa encontra-se também a criar um hub de desenvolvimento de software na sede da operação em Portugal, em Vila Nova de Gaia, que será integrado na Mercadona IT, responsável pela digitalização da empresa.

Para já, não há planos para levar a insígnia às ilhas, confirmou Juan Roig.

Mercadona comprou 1.500 milhões de euros a fornecedores portugueses

A Mercadona, através da empresa portuguesa Irmãdona Supermercados, contribuiu, em 2025, com 273 milhões de euros em impostos em Portugal, totalizando, desde 2019, um total de 879 milhões de euros em contribuições fiscais.

Já aos fornecedores portugueses comprou 1.500 milhões de euros em 2025, o que representa um aumento de 7%.

No final de dezembro, empregava 7.500 trabalhadores em Portugal, mais 500 face a 2023, tendo distribuído 25 milhões de euros em prémios e gratificação por objetivos.

Na soma da operação ibérica, o número de funcionários ascendeu aos 115 mil numa rede de 1.672 lojas.

No global, os lucros da Mercadona subiram 25% face a 2024 para 1.729 milhões de euros. A retalhista reinvestiu 1.383 milhões (cerca de 80%) na empresa e os restantes 346 milhões (cerca de 20%) em dividendos.

Para 2026, traçou como objetivo um aumento das vendas para os 43.200 milhões de euros (+3,5%) e estima investir mil milhões de euros nos dois países onde opera.

"Gostaríamos muito que amanhã tanto o Governo português como o espanhol adotassem o IVA zero"

Os impactos do atual conflito geopolítico no Médio Oriente ainda não se fizeram sentir nos preços dos produtos da cadeia de supermercados. "Ao dia de hoje ainda não subimos nenhum preço", garantiu o fundador e principal acionista da Mercadona.

Ainda assim, Juan Roig afiançou que caso o preço das matérias-primas suba haverá impactos no bolso do consumidor. "Se as matérias primas subirem ou baixarem, os produtos sobem ou baixam, por consequência. O que se irá passar a partir de hoje ou de amanhã, não sabemos. Não ficamos nada contentes por ter de subir preços, naturalmente", assegurou.

Admitindo um cenário de escalada da inflação, como aconteceu logo após o espoletar do conflito armado na Ucrânia, o CEO da cadeia espanhola referiu que gostaria que os Executivos tanto de Portugal como de Espanha respondessem de forma idêntica, como fizeram à época, através da adoção de medidas como o IVA Zero no cabaz alimentar de bens essenciais.

"Gostaríamos muito que amanhã tanto o Governo português como o espanhol adotassem o IVA zero, mas não depende de nós", disse.

O responsável referiu que a estratégia da empresa será afinada conforme o decorrer dos acontecimentos nos próximos tempos. "O futuro é incerto. Quem poderia imaginar, há uns anos, que iria haver uma guerra da Ucrânia? Os empresário têm de se adaptar. Não sei o que se irá passar agora no Médio Oriente, não podemos adivinhar. Vamos fazer frente ao futuro e tudo depende de como ele vier, depois decidimos se vamos pela direita ou pela esquerda", concluiu.

*A jornalista viajou para Valência a convite da Mercadona

Juan Roig, presidente da Mercadona
Mercadona ganha dinheiro pela primeira vez em Portugal. "2024 foi um ano espetacular”, diz presidente
Diário de Notícias
www.dn.pt