A TAP está a apostar na venda de serviços de manutenção e engenharia a empresas e companhias de aviação da Europa e Estados Unidos para melhorar as contas. Sem grande margem para crescer no aeroporto de Lisboa, devido às restrições de capacidade da Portela, e com a frota limitada a 99 aeronaves até 2025 - um dos remédios impostos pela Comissão Europeia no âmbito do plano de reestruturação aprovado em 2021 - a reparação de componentes e de aeronaves tem sido estratégica para a empresa pública e as contas demonstram-no..Nos primeiros nove meses do ano as receitas da manutenção dispararam 39,8% para 165,5 milhões de euros, o que representa uma subida de 3% face ao mesmo período de 2019. Olhando apenas para o terceiro trimestre do ano, a subida foi de 48% para 48,7 milhões de euros. Este “aumento significativo”, conforme aponta a companhia, foi o maior no conjunto dos indicadores que compõem o pacote dos rendimentos operacionais que atingiram os 3,3 mil milhões de euros entre janeiro e setembro (+2,8%)..No que respeita às restantes franjas, as passagens aéreas, que representam 90% destas receitas, avançaram 1,8% e a capacidade subiu 2,3%. No comunicado de divulgação de resultados do terceiro trimestre, conhecido ontem, a transportadora explica que a boa performance desta área operacional se justifica “maioritariamente devido ao aumento da atividade da oficina de motores”..Já o Sindicato dos Técnicos de Manutenção de Aeronaves (Sitema) concorda que este é um fator “importante”, mas não é o único. “A administração começou a olhar para a manutenção como uma das potenciais áreas da TAP que pode crescer. Neste momento é difícil crescer porque estamos limitados no número de aviões e nos slots [faixas horárias de descolagem e aterragem]. É difícil expandir muito mais e a manutenção tem essa margem”, explica ao DN o presidente do Sitema. Jorge Alves aplaude não só a estratégia do CEO Luís Rodrigues, mas também a visão do novo responsável da área, José Eduardo Moreira, que assumiu a pasta há um ano..“O novo diretor implementou uma política completamente diferente da que vigorava com uma visão muito boa para a TAP e para o país. Quase que não trabalhávamos para terceiros e, atualmente, há cada vez mais serviços o que incrementa os lucros da oficina e impacta positivamente as contas”, justifica. Neste departamento da companhia, os técnicos são responsáveis pela manutenção dos aviões, estrutura, sistemas, reatores e componentes bem como pelas avarias, anomalias e reparação, além das tarefas relacionadas como controlo de qualidade..O representante dos técnicos de manutenção explica que o espaço no hangar da TAP é limitado, o que exige uma gestão afinada com os aviões que chegam de fora. O trabalho de angariação de clientes faz-se, sobretudo, em feiras internacionais do setor e é nestes encontros que a companhia vende os serviços. Da lista de clientes da TAP fazem parte “as maiores companhias aéreas mundiais da Europa e Estados Unidos”, adianta Jorge Alves sem, no entanto, deslindar nomes..O sindicalista alerta ainda para a necessidade de reforçar os quadros de pessoal para incrementar a operação. Atualmente, diz, há cerca de 800 especialistas nesta área na TAP, o que representa um ligeiro reforço face ao início do ano, mas são precisos mais. “Foi possível ir buscar uma pequena franja dos técnicos que saíram porque as condições já são outras. É necessária mais mão de obra para conseguirmos trabalhar quer para a TAP, quer para terceiros. Ainda se recorre muito a trabalho extraordinário em algumas áreas para conseguirmos cumprir com tudo”, adianta. Para já, a transportadora continua a abrir cursos de formação para incrementar o número de profissionais. “A empresa continua a recrutar, há uma nova política de formação e acredito que o caminho é por aqui”, acrescenta..Após um início de ano conturbado, marcado pelo pré-aviso de greve que o Sitema emitiu no sentido de pressionar a empresa pública a implementar novo acordo de empresa (AE) assinado no final de 2023, a paz social regressou aos corredores da transportadora. “Os AE deram resposta à reposição de alguma estabilidade depois de um período inqualificável [marcado por cortes salariais e despedimentos]. A situação está a consolidar-se agora e as pessoas estão todas unidas a trabalhar em conjunto para que os resultados apareçam e, felizmente, têm aparecido”, remata. A TAP registou lucros de 118,2 milhões de euros até setembro, o que representa um recuo de 41,9%. .Quebra nos lucros não belisca interessa de investidores.Contas feitas, a TAP conseguiu fechar os primeiros nove meses do ano com um resultado líquido de 118,2 milhões de euros. Apesar das contas positivas, os lucros caíram 41,9% em comparação com o mesmo período de 2023, cenário que a TAP justifica com o impacto das perdas cambiais. Numa análise à operação, a companhia transportou mais passageiros até setembro, num total de 12,3 milhões (+1,5%) . Os custos operacionais atingiram os 2,9 mil milhões de euros (+ 4,4%) com destaque para o aumento de 31,8% na rubrica dos gastos com pessoal que se fixaram nos 685,6 milhões de euros..Esta subida da despesa com os trabalhadores não é vista como uma ameaça às contas da TAP pelo especialista Pedro Castro. “As pessoas são o forte da empresa. Num mercado europeu e mundial, é possível ser-se um profissional de aviação em qualquer parte do mundo e as pessoas podem rapidamente sair de Portugal neste setor. A TAP tardou nesta atualização que era mais do que devida”, explica o diretor da SkyExpert, empresa de consultoria de transporte aéreo, aeroportos e turismo..Ainda no âmbito dos custos, e apesar de o combustível ser a despesa que mais pesa na fatura da TAP, a companhia conseguiu uma redução 2,4%..Já as receitas de passageiros por lugar-quilómetro (PRASK) recuaram 0,5% para 7,39 euros, uma queda “mínima” para Pedro Castro. “A Ryanair, por exemplo, tinha prometido tarifas de saldo para este verão devido a um excesso de capacidade e a uma menor disponibilidade dos consumidores em pagar uma tarifa cara. Nestas circunstâncias e contexto, este é um sinal que a TAP aguentou bem o seu nível de receitas”, aponta. .O analista acredita estarem reunidas as condições para a companhia de bandeira encerrar 2024 no verde. “O último trimestre do ano é sempre muito forte em receitas e em termos de custos não há do lado da TAP - pouco exposta à Ásia e Médio Oriente - nada de grande a temer nesse aspeto. Diria que o maior risco da TAP neste momento é a sua exposição às receitas em reais - quanto mais rotas abre para o Brasil, maior é essa exposição e são sobretudo essas, juntamente com as vendas em kwanzas, as causadoras das perdas cambiais mencionadas no relatório”, diz..Olhando para o horizonte da privatização, que se perspetiva que avance no próximo ano, Pedro Castro defende que a quebra nos lucros da transportadora nestes primeiros nove meses do ano não é preocupante. “Nenhum investidor olha a TAP com base nos seus resultados anuais ou semestrais. Isso é demasiado situativo. Os investidores vão olhar para a complementaridade, para as sinergias, para a liberdade de ação que vão ter, para a posição dominante da TAP em Lisboa que está totalmente ligada ao aeroporto da Portela. É sobretudo o futuro aeroportuário da região de Lisboa que poderá por em causa o valor da TAP”, conclui.