A poucas semanas da decisão do Governo sobre a venda de 49,9% da TAP, o CEO da Lufthansa, Carsten Spohr, viajou até Santa Maria da Feira para o lançamento da primeira pedra da fábrica de reparação de componentes do grupo, numa cerimónia que decorreu ontem na presença do primeiro-ministro, Luís Montenegro. A transportadora alemã comprometeu-se a criar 700 empregos qualificados na unidade até ao fim da década. Também ontem, a Lufthansa arrancou oficialmente com as atividades da Help Alliance em Portugal, a primeira instituição de solidariedade social da companhia criada fora da Alemanha. Em carteira, está a abertura de uma escola de pilotos no país. Um reforço da presença do grupo em terras lusas, que poderá não ficar por aqui. "Creio que vão multiplicar-se os investimentos da Lufthansa em Portugal", afirmou na ocasião Luís Montenegro.No seu discurso, o primeiro-ministro afirmou olhar para a Lufthansa "como um bom exemplo daquilo que podem ser as relações entre Portugal e a Alemanha". Apontou a competitividade do país e a construção de um modelo com baixos impostos. "Nós queremos que as pessoas paguem menos impostos sobre os rendimentos do trabalho para poderem estar mais motivadas e serem mais produtivas e queremos fixar o nosso talento", disse. "Também que as empresas paguem menos impostos para que tenham mais disponibilidade para poder investir", acrescentou.A privatização da TAP foi o tema que esteve sempre nas entrelinhas da cerimónia. Pouco antes do início do evento, Carsten Spohr sublinhou estar pronto a assumir a gestão da TAP. "Eu posso começar a trabalhar hoje se o primeiro-ministro assim quiser", afirmou em conferência de imprensa. "Nós respeitamos a decisão do Governo", mas "estamos confiantes que somos o melhor parceiro", frisou ainda. Para Carsten Spohr, a venda da TAP "não é só uma questão de preço, mas de encontrar o parceiro certo". E "o Governo português sabe a importância desta decisão estratégica", disse.O gestor aproveitou, então, para recordar a estratégia da Lufthansa para a transportadora portuguesa. "Nós somos o grupo que está a ver a importância do hub de Lisboa", disse. Portugal "faz parte da estratégia da Lufthansa", que se quer "transformar de uma companhia alemã numa companhia europeia", com pretensões a reforçar a componente de voos intercontinentais. "Portugal é a porta de entrada para o Brasil e para o desenvolvimento das nossas rotas para a América do Sul", explicou. Segundo afirmou, o objetivo não é transferir voos de Lisboa para Frankfurt. "Nós preservamos a identidade nacional, fazemos crescer as empresas que adquirimos e criamos hubs mais fortes nas companhias onde investimos", defendeu.A privatização de 49,9% da transportadora portuguesa (44,9% destinados a um investidor de referência e até 5% reservados a trabalhadores) deverá estar fechada até ao fim deste ano. Nesta fase final da corrida, só há duas candidatas: a Lufthansa e a Air France-KLM, depois da desistência da IAG, dona da Iberia e a British Airways, que acabou por não apresentar proposta. Carsten Spohr fez questão de assinalar que o investimento em Santa Maria da Feira não é um elemento de pressão. Este projeto terá um custo "de três dígitos", metade em equipamento industrial, disse, escusando-se a revelar o montante concreto, mas esclarecendo que não são 300 milhões de euros como foi anunciado recentemente.O arranque da operação da Lufthansa Technik Portugal está previsto para 2028. Na unidade, serão reparados componentes de aviões, desde máquinas de café, janelas de cabine, auscultadores e aparelhos de comunicação da tripulação, entre outros. O grande cliente é o grupo Lufthansa, mas a fábrica irá trabalhar para várias companhias aéreas do mundo. Neste momento, já tem 300 colaboradores em formação. A somar ao lançamento da primeira pedra desta unidade, a Lufthansa apresentou ontem a Help Alliance, instituição de solidariedade social do grupo, dedicada a promover o acesso à educação e a criar oportunidades de emprego e geração de rendimento para crianças e jovens, que passa a ter atividade em Portugal.Na calha, está a abertura de uma escola de formação de pilotos para a Força Aérea alemã e eventualmente para membros aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) em território nacional. O Governo já aprovou uma carta de intenções do projeto, que será agora alvo de estudos de viabilidade técnica, operacional, jurídica e económica. Só depois haverá uma decisão definitiva. Carsten Spohr não se alongou sobre este tema, adiantando apenas que a escola terá de ser instalada "onde haja espaço para treinos, caso se decida investir". .Governo aprova declaração de intenções com Lufthansa para escola de pilotos em Portugal .Lufthansa mantém interesse na TAP mesmo com reforço para 90% na italiana ITA