"As decisões sobre as taxas de juro são tomadas por um comité e cada membro tem direito a um voto. Este novo presidente da Fed não poderá satisfazer os desejos do Presidente [Trump], a menos que os dados o justifiquem e haja consenso da maioria", diz o economista-chefe do grupo ING para os EUA.O novo presidente do banco central dos Estados Unidos, a Reserva Federal (Fed), o maior do mundo (escolhido pelo Presidente do país, Donald Trump, através das redes sociais), será Kevin Warsh: foi governador da Fed entre 2006 e 2011, conselheiro económico do Presidente George W. Bush e, antes, trabalhou num alto cargo no banco Morgan Stanley. Tem 55 anos, faz 56 em abril de 2026.Warsh é formado pelas universidades de Stanford e Harvard, é casado com Jane Lauder, herdeira do grupo de cosméticos Estée Lauder, a filha de Ronald Lauder, doador e amigo de longa data de Trump.Warsh é um republicano assumido. Nos anos em que esteve na cúpula da Fed (na altura presidida por Ben Bernanke), foi referenciado como um "falcão".Na gíria da política monetária, significa que era um acérrimo defensor de taxas de juro mais elevadas para domar a inflação ou qualquer ameaça ou risco que adviesse das subidas de preços. Hoje, já não é nada disso.Segundo o jornal The New Republic, enquanto era membro do conselho de governadores da Reserva Federal (porta-voz da Fed no G-20 e junto das economias asiáticas, como a China), declarou, em abril de 2009, que "estou mais preocupado com os riscos de inflação em alta" numa altura em que a inflação dos EUA era negativa, estava em -0,4%, o desemprego em 8,9% da população ativa e a economia em recessão.Saiu da Fed antes do final do mandato em colisão com Bernanke e, desde então, fez o seu caminho, mas inverteu a rota.Nos últimos anos, tem apoiado a narrativa de Trump: as taxas de juro podem descer mais.Ao contrário do BCE, a Fed tem um mandato duplo: manter a inflação na fronteira dos 2%, mas também zelar pelo crescimento e o emprego.O novo preferido de Trump tem sido um crítico bastante vocal de Jerome Powell, o atual presidente da Fed.Publicamente e citado por dezenas de jornais, disse que Powell “falhou” na sua missão, que esta está manchada por “escolhas imprudentes”.Acusou Powell de liderar a Fed no curso do “maior erro de política macroeconómica em 45 anos”, de alimentar uma inflação elevada e “expansão excessiva” da economia antes das eleições de 2024, sugerindo assim que Powell pode até ter favorecido a administração do democrata Joe Biden na corrida contra Trump, nas presidenciais.Nos últimos meses Powell foi destratado, chamado de "estúpido" e "demasiado atrasado" por Trump, por não aliviar os juros e falhar na ajuda ao governo dos EUA a amortecer o enorme serviço da dívida pública que tem em mãos.Warsh vai ter voz dentro da Fed?Warsh é agora o escolhido para inverter o rumo. Mas conseguirá fazer a vontade ao Presidente?James Knightley, economista-chefe do grupo ING para os Estados Unidos, considera que pode querer, mas será bem difícil.À primeira vista, diz o economista, "ele poderá estar mais disposto a retomar o alívio quantitativo [descida de taxas e/ou programas de compras de dívida pública] caso ocorram pressões ascendentes sobre as taxas de juro dos títulos do Tesouro norte-americano".No entanto, "tendo em conta que as decisões sobre as taxas de juro [da Fed] são tomadas por um comité e que cada membro tem direito a um voto, penso que este novo presidente da Fed não poderá satisfazer os desejos do Presidente [Trump], a menos que os dados o justifiquem e haja consenso da maioria".Mais: segundo Knightley, do ING, "a experiência anterior de Kevin Warsh no processo de tomada de decisões e a sua ênfase na necessidade de estabilidade de preços sugerem que não seguirá esse caminho".Paul Krugman, professor de economia e apoiante do Partido Democrata, diz algo parecido no diário na plataforma digital Substack, mas de forma mais contundente, como é seu estilo."O lado positivo da nomeação [de Warsh] é que não deve causar muitos danos, embora com uma grande ressalva. A Fed é uma república, não uma ditadura; as decisões importantes são tomadas por um comité em que o presidente tem apenas um voto. Os presidentes da Fed só podem dirigir a política monetária através da persuasão — e Warsh não possui a credibilidade intelectual e moral necessária para ser eficaz neste aspeto". "Não havendo nenhuma crise, prevejo que a maioria dos colegas de Warsh o ignorará", afirma o laureado Nobel da Economia.Voltando aos mercados puros e duros, a opinião também converge no sentido do que afirma Krugman e outros: Warsh até pode insistir que é preciso cortar taxas de juro, mas parece estar bastante isolado no conselho de governadores da Fed.Fiona Cincotta, analista da City Index, uma consultora financeira baseada em Londres, diz que "a Fed precisa de continuar a depender de dados e de manter-ser independente. Não creio que isso vá mudar sob a liderança de Kevin Warsh".A Fed opera "numa lógica de comité". "Se os dados da economia não mostrarem que é preciso uma postura mais expansionista [descida de taxas de juro, por exemplo], então será muito difícil para uma única pessoa promover tal mudança", escreve a analista, citada pelo site Yahoo Finance.Jerome Powell, ironicamente escolhido para presidir à Fed em 2017, pelo próprio Trump, tem sido regularmente humilhado e pressionado pelo Presidente dos EUA.O mandato de Powell, que continua sob ameaça de um processo criminal por causa das obras de renovação da sede do banco central, termina a 15 de maio deste ano.