Jogou Pokémon Go? As suas fotos serviram para o maior treino de IA do mundo. E de graça
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Jogou Pokémon Go? As suas fotos serviram para o maior treino de IA do mundo. E de graça

Niantic Spatial revela parceria com frotas de robôs de entrega que utilizam modelos geoespaciais treinados gratuitamente por utilizadores ao longo de quase seis anos.
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O que começou em 2020 como uma tarefa simples para ganhar algumas Pokébolas extra -- apontar o telemóvel para um monumento e fazer um "scan" de realidade aumentada -- tornou-se a base daquela que é hoje considerada a infraestrutura de inteligência artificial geoespacial mais avançada do planeta. Este fenómeno de "micro-trabalho invisível" permitiu que uma empresa de videojogos acumulasse um tesouro de dados que gigantes de Silicon Valley tentam replicar há décadas sem o mesmo sucesso, e conseguiram-no com a colaboração de milhões de pessoas sem o saber.

Na passada semana, a Niantic Spatial (a nova face da criadora do fenómeno Pokémon Go) confirmou que a sua vasta base de dados de 30 mil milhões de imagens geolocalizadas está a ser utilizada para guiar robôs de entrega autónomos em cidades reais.

O anúncio marca uma das maiores transferências de valor da história da tecnologia: transformar o lazer e o esforço físico de milhões de jogadores num ativo comercial de valor estratégico incalculável para a indústria da robótica e logística.

Do jogo para a estrada, o que permite ultrapassar o GPS tradicional

O anúncio revela a parceria estratégica entre a Niantic e a Coco Robotics. Os pequenos robôs desta empresa, que já operam em cidades densas como Los Angeles e Helsínquia, enfrentavam um problema clássico da autonomia: o chamado "desvio urbano". O GPS tradicional, dependente de satélites, tem uma margem de erro que pode chegar aos cinco metros e falha drasticamente perto de edifícios altos que bloqueiam o sinal.

Agora, em vez de confiar em satélites distantes, os robôs utilizam agora o Large Geospatial Model (LGM) da Niantic. Este modelo de IA funciona como um "cérebro espacial" que "vê" o mundo através da memória visual criada a partir do que foi captado pelos jogadores.

Como cada banco de jardim, estátua ou fachada de loja foi fotografada e mapeada milhares de vezes, sob diferentes ângulos, sombras e condições climatéricas, a IA cria um "gémeo digital" do mundo. Ao comparar o que vê em tempo real com este mapa ultra-detalhado, o robô consegue determinar a sua posição com uma precisão de escassos centímetros, permitindo-lhe navegar com segurança entre peões e obstáculos em passeios estreitos.

O triunfo da "gamificação" - e do trabalho gratuito

A escala deste treino de IA é sem precedentes e redefine o conceito de mapeamento. Enquanto empresas como a Google ou a Apple dependem de frotas de carros equipados com câmaras LIDAR de custo elevadíssimo, a Niantic conseguiu algo que nem os maiores orçamentos compram: a "última milha" (ou melhor, o "último centímetro") do mapeamento feito por seres humanos. Enquanto os carros de mapeamento estão limitados às estradas, os jogadores de Pokémon Go entraram em parques, praças pedonais e becos onde os veículos não têm acesso.

Estima-se que, coletivamente, os jogadores tenham percorrido centenas de milhões de quilómetros a realizar estes scans de forma gratuita. E mais do que a quantidade, é a frequência que impressiona: um carro do Street View passa por uma rua uma vez por ano, mais ou menos, mas um PokéStop popular é mapeado várias vezes por dia. Esta atualização constante permite que a IA da Niantic compreenda mudanças estruturais na cidade quase em tempo real.

No entanto, o debate ético torna-se inevitável: será que o jogador que dedicou o seu tempo a fazer o scan de um monumento em 2021 tinha consciência de que estava, efetivamente, a construir o sistema de navegação comercial de uma empresa de logística em 2026?

O consentimento... E a mudança de regras

A Niantic defende-se com vigor, afirmando que a adesão aos seus serviços, eles próprios gratuitos, sempre foi voluntária (opt-in) e que as imagens são rigorosamente anonimizadas, com rostos e matrículas desfocados antes de entrarem no modelo de treino. Contudo, para muitos especialistas em ética de dados, existe uma falha grave na transparência das intenções a longo prazo.

A mudança de paradigma -- passar de "recolher dados para melhorar a estabilidade dos monstros virtuais" para "comercializar dados de navegação para robôs terceiros" -- representa uma zona cinzenta nos termos de serviço. E estes poucos utilizadores os leem.

Para agravar a questão, do ponto de vista ético, a Niantic Spatial, após a cisão estratégica que deixou a divisão de jogos sob a alçada da Scopely, detém agora o monopólio deste mapa visual do mundo.

Uma coisa é certa: o que foi vendido como uma ferramenta para tornar o jogo mais imersivo revelou-se, em última análise, o maior projeto de infraestrutura robótica e vigilância comercial do século XXI, construído com o suor de quem apenas queria "apanhá-los todos".

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