No encerramento de 2025, o mercado tecnológico mundial encontra-se num estado de tensão latente, equilibrando-se entre a promessa de uma nova Revolução Industrial e os sinais clássicos de uma bolha especulativa. O fenómeno, que muitos analistas de instituições como o Goldman Sachs e a Bloomberg já designam abertamente como a “Bolha da IA”, sustenta-se num modelo de financiamento circular sem precedentes.Segundo relatórios de mercado da Bloomberg Technology, este cenário é alimentado por gigantes como a Microsoft e a Meta, que investem dezenas de milhares de milhões de dólares em infraestrutura e centros de dados - capitais que fluem quase instantaneamente para as contas da Nvidia na compra de processadores gráficos. Por sua vez, como indicam os relatórios de relações com investidores da Nvidia Corp., esta empresa reinveste parte desses lucros massivos nos seus próprios clientes, mantendo viva a procura por hardware e insuflando avaliações que, em muitos casos, carecem de rentabilidade real.Esta dinâmica criou um “circuito fechado” de capital onde o dinheiro raramente sai do ecossistema das grandes tecnológicas, ocultando um rácio de endividamento crescente. O exemplo paradigmático, detalhado em investigações da publicação especializada The Information, é o da OpenAI que, apesar de uma avaliação astronómica de 157 mil milhões de dólares, enfrenta uma queima de caixa anual de cerca de cinco mil milhões, dependendo de rondas de financiamento constantes para liquidar as suas faturas de computação junto da Microsoft. Esta última, como se depreende dos seus resultados fiscais do terceiro trimestre de 2025, vê-se obrigada a contrair dívida para adquirir os chips Blackwell da Nvidia - empresa que, por sua vez, tem um valor de mercado superior ao PIB do Japão! - fechando um triângulo de dependência que o J.P. Morgan, no Tech Outlook 2026, teme ser insustentável, caso o retorno sobre o investimento não se materialize rapidamente.. É, no entanto, essencial sublinhar que a classificação de “bolha” permanece, pelo menos por enquanto, no campo da especulação. Analistas do Goldman Sachs, no seu relatório AI Capex and ROI, defendem que o mercado está, tecnicamente, a “comprar o futuro”. Se empresas como a OpenAI ou a Anthropic conseguirem demonstrar lucros operacionais significativos - um objetivo que o site The Information aponta mesmo como crítico para o final deste ano - a narrativa de crise colapsará imediatamente para dar lugar a uma era de crescimento exponencial. O risco real, como aponta a consultora McKinsey & Co. no estudo State of AI in the Enterprise 2025, reside num “hype” que assume uma adoção em massa antes de esta se refletir verdadeiramente nos balanços financeiros.Um gigante fora do tabuleiroNeste xadrez global, a Alphabet surge como a única peça que joga com quase total autossuficiência. Segundo os dados técnicos da consultora SemiAnalysis, a Google completou uma integração vertical absoluta, controlando desde o fabrico do hardware até à distribuição final.Com o lançamento dos processadores TPU v7 (Ironwood), a empresa provou que pode treinar modelos como o Gemini 3 - que hoje, em vários critérios, bate toda a concorrência - com uma eficiência de custos três a cinco vezes superior aos modelos que utilizam chips da Nvidia. Esta independência significa que a Google não paga o “imposto Nvidia”, mantendo o controlo sobre a infraestrutura lógica através de frameworks como o JAX, segundo é descrito nos blogues técnicos da Google Cloud.Esta superioridade técnica recebeu recentemente um selo de aprovação crucial vindo da rival de Cupertino. No documento técnico oficial Apple Intelligence Foundation Models Training, a Apple revelou que não recorreu aos chips da Nvidia para o seu projeto mais crítico da década, optando antes por utilizar os clusters de TPU da Google Cloud. Esta decisão estratégica da Apple, analisada por especialistas da Reuters como um sinal de pragmatismo financeiro, transforma a tese da autossuficiência da Alphabet num padrão industrial.Simultaneamente, a Alphabet gera cerca de mil milhões de dólares em fluxo de caixa livre a cada poucos dias, segundo os seus resultados do terceiro trimestre de 2025 (Alphabet Inc. Q3 Earnings), o que lhe permite adotar uma estratégia de “esperar pelo fim” contra rivais subcapitalizados.A Europa assiste...Esta hegemonia norte-americana na tecnologia tem, no entanto, um efeito secundário perigoso para a Europa. O Banco Central Europeu (BCE), no seu Financial Stability Review 2025, e o FMI alertam que a interligação financeira entre os dois blocos é de tal ordem que uma eventual explosão da “bolha” nos EUA arrastaria inevitavelmente o Velho Continente. Os grandes bancos europeus e os fundos de pensões são detentores massivos de ações das tecnológicas americanas, o que significa que um crash no Nasdaq provocaria uma destruição imediata de valor nas carteiras europeias.Além disso, tal como escreve a Reuters, o ecossistema de startups europeu, que inclui a poderosa (à escala europeia) Mistral AI, veria o seu acesso a capital de risco secar instantaneamente, devido à correlação direta com o apetite pelo risco em Wall Street.Para mitigar este impacto, a Europa tenta equilibrar-se através de regulação. O EU AI Act estabelece padrões que visam tornar-se a referência mundial de segurança. Já no campo do hardware, o Velho Continente detém o trunfo geopolítico da empresa neerlandesa ASML, cujas máquinas de litografia são indispensáveis para qualquer fabrico de chips avançados. Mas não há deste lado do Atlântico nada que se compare com uma Alphabet e a “sua” Google.O único grande obstáculo à hegemonia da Google é mesmo o Departamento de Justiça dos EUA (DoJ). Como se observa nos recentes desenvolvimentos dos processos antimonopólio, a resiliência da Google perante uma crise poderá ser utilizada pelos reguladores como prova de um monopólio inquebrável e, nesse caso, agirem no sentido de obrigar à divisão da empresa. Mas tudo isto é especulação.Certo é que, num possível cenário de um estoiro da “Bolha de IA” em 2026, a Alphabet está em posição de ser o último sobrevivente de uma purga tecnológica que será vencida por quem domina a base material da inteligência. Sairá chamuscada, mas todas as outras gigantes da tecnologia ficarão esturricadas.