O agravamento da instabilidade no Médio Oriente, com o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão, já teve uma consequência efetiva: oito países da OPEP+, Organização dos Países Exportadores de Petróleo - Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Cazaquistão, Argélia e Omã - comprometeram-se ontem a aumentar a produção de petróleo bruto em mais 206 mil barris por dia, a partir de abril. Rússia e Arábia Saudita serão os que mais vão contribuir, com 62 mil barris diários cada. A organização justifica a decisão pelas perspetivas económicas globais e as baixas reservas de petróleo, sem as ligar aos recentes acontecimentos geopolíticos. Esta medida poderá mitigar, mas não evitará uma subida dos preços do petróleo esta segunda-feira, acreditam os economistas.Pedro Lino, presidente da Optimize Investment Partners, já antecipava este aumento de produção, sobretudo pela Arábia Saudita, para estabilizar o preço do crude. Ainda assim o economista considera que “vamos ter uma semana volátil”. “As bolsas estão com indicação de queda entre 1 a 1,5%, mas o destaque vai para o petróleo que já chegou a estar a subir 10% [para 80 dólares o barril no mercado OTC, over the counter], o ouro 2% e a prata 3%, atuando estes últimos como ativo de refúgio”.Analistas ouvidos pela agência Reuters admitem subidas para perto de 100 dólares o barril de Brent na reabertura dos mercados esta segunda-feira. Economistas da consultora Rystad antecipam um aumento de 20 dólares para 92 dólares o barril. Também o diretor de Energia e Refinação da ICIS admite uma forte subida do preço do crude. “Esperamos que os preços abram (após o fim de semana) muito mais próximos de 100 dólares por barril e talvez ultrapassem esse nível se houver uma interrupção prolongada do Estreito [de Ormuz]”, disse Ajay Parmar à Reuters.Na sexta-feira o barril de Brent, a referência para a Europa, fechou nos 73 dólares o barril, o valor mais elevado desde julho, refletindo já a preocupação dos investidores face à situação no Irão. Embora seja um acontecimento “muito relevante”, o ataque ao Irão “não é uma surpresa, o que poderá atenuar alguns efeitos nos mercados”, acredita Filipe Garcia, economista da IMF - Informação de Mercados Financeiros. É de esperar, considera, uma subida dos preços do ouro, do petróleo e do dólar nos mercados esta segunda-feira. O economista antecipa uma “queda relevante” das bolsas este início de semana, mas “sem crash”.Para Filipe Garcia, perceber se a navegabilidade no Médio Oriente vai continuar a ser possível, ou não, será também “crítico” para avaliar o impacto económico do conflito, uma vez que “o fecho do Estreito de Ormuz provocaria escassez em partes do mercado de petróleo. Eventuais problemas no Canal de Suez também poderiam provocar alterações de rotas e logística”.E os sinais não são animadores, pois ontem pelo menos dois navios foram atacados ao largo dos Emirados Árabes Unidos e de Omã, de acordo com a agência britânica de segurança marítima. Entretanto, duas das maiores companhias de transporte marítimo do mundo, a Mediterranean Shipping Company (MSC) e a Maersk, anunciaram a suspensão das operações no Estreito de Ormuz por falta de segurança.Para o economista Luís Tavares Bravo, o risco económico deste novo conflito no Médio Oriente é ampliado pela sua localização, precisamente junto ao Estreito de Ormuz, “por onde passa uma parte substancial do petróleo transportado por via marítima”. Por aquela estreita passagem circula um quinto do petróleo comercializado no mundo.Além disso, sublinha, “embora o Irão não seja o maior produtor mundial, detém reservas significativas e integra o grupo de países com capacidade relevante dentro da OPEP, o que lhe confere influência sobre a oferta global”.Assim, para o também presidente do International Affairs Network, “qualquer perturbação nesta rota pode afetar não só a oferta efetiva, mas também as expectativas dos mercados. É precisamente essa combinação entre produção relevante, controlo indireto de uma rota crítica e aumento da incerteza que tende a provocar reações nos mercados financeiros, como a subida dos preços do petróleo, maior volatilidade bolsista e movimentos de aversão ao risco por parte dos investidores”.Os preços continuarão instáveis até os investidores perceberem durante quanto tempo durará o conflito e até onde podem ir os Estados Unidos. “A extensão desta incerteza aos restantes mercados de risco dependerá do impacto que seja percecionado das falhas causadas na oferta sobre os custos energéticos e, consequentemente, sobre a economia global”, diz Luís Tavares Bravo. Filipe Garcia sublinha que este ataque “não é inesperado, mas não ajuda, no imediato, à confiança e pode ser grave se o conflito se alargar ou for longo”.