Os grandes incêndios que lavraram na região Centro de Portugal em dois períodos de 2017 (junho a agosto, onde se destaca a tragédia de Pedrógão Grande, e outubro) tiveram um impacto muito negativo, na ordem de 20% a mais de 40%, na faturação das empresas ligadas ao turismo, como hotéis e similares, conclui um estudo de dois economistas – Ferdinand Dreher e Bernardo P. Marques – publicado pelo Banco Central Europeu (BCE).Nesse ano de má memória, o nível de destruição e de fatalidades foi trágico e recorde a nível europeu, tendo custado à economia portuguesa qualquer coisa como "mil milhões de euros", refere o artigo agora divulgado.A investigação dos dois economistas constata que os incêndios florestais tem vindo a intensificar‑se no contexto de aquecimento global e colocam cada vez mais pressão sobre a economia, em particular em setores dependentes do território e dos ecossistemas naturais, como a floresta e a biodiversidade.Como referido, o trabalho centra-se nos grandes incêndios de 2017, descrevendo estes eventos como um caso extremo em que “ardeu mais território do que em qualquer outro ano, num país europeu”.Usando uma vasta amostra de microdados de empresas (hotéis e similares), os autores mostram que as empresas sofreram impactos significativos nos negócios, debilitando muito o turismo.A investigação sublinha que “compreender como estes desastres afetam os fluxos de caixa das empresas e as suas decisões financeiras é essencial para avaliar a resiliência da economia”.Assim, a partir de uma base de dados que vai de 2015 a 2019, os autores analisaram hotéis com danos diretos e outros afetados indiretamente pela destruição ao seu redor, comparando o seu desempenho financeiro antes e depois dos incêndios.Os resultados obtidos pelos autores mostram que houve um choque negativo na atividade económica no próprio ano da tragédia, mas que este depois se propagou no tempo, até ao ano seguinte, pelo menos.E há números para o grau de destruição de valor.Os hotéis que sofreram danos materiais na sequência dos incêndios registaram “uma queda acentuada das receitas" no ano seguinte, em 2018, "em cerca de 43%”; os estabelecimentos próximos das áreas ardidas, "num raio de um quilómetro", sofreram "perdas na ordem de 24%".Em ambos os casos, houve “quebras de fluxos de caixa no curto prazo”, apesar de cortes de custos e de apoios públicos que mitigaram parcialmente o impacto nos casos de destruição direta, indica o estudo.Impacto direto empurrou empresas para o endividamentoAs respostas das empresas também foram distintas, variaram bastante.Os hotéis diretamente atingidos aumentaram o seu endividamento de longo prazo, investiram na recuperação de ativos e reforçaram reservas de liquidez, refletindo “a necessidade de restaurar capacidade produtiva danificada e de assegurar liquidez para gerir a incerteza”.Já estabelecimentos indiretamente afetados optaram por travar ou "congelar investimentos", evidenciando uma estratégia mais cautelosa e avessa ao risco: “as empresas sem danos físicos mantêm a opção de adiar investimento irreversível até que diminua a incerteza”, explicam os economistas. É o chamado efeito "esperar" para ver, indicam os autores.A dimensão do fenómeno em 2017 ajuda a contextualizar os impactos devastadores. Portugal registou “uma área total ardida de 539.921 hectares”, equivalente a “cerca de 5,9%" do território nacional, com “danos físicos estimados em mil milhões de euros e mais de 100 vítimas mortais” nesse ano como um todo, contabiliza o estudo.O trabalho de investigação confirma que a região Centro, que equivale a 31% da área total do país, foi particularmente atingida, concentrando “78,7% da área total ardida” a nível nacional, nesse ano. Ainda na região, "17 municípios registaram fogos que consumiram mais de 50% das respetivas áreas totais".Neste cenário, o setor empresarial sofreu danos diretos e indiretos relevantes: "587 empresas candidataram‑se a apoios públicos, num total de 115 milhões de euros aprovados", sendo que "as seguradoras já tinham pago [indemnizações] no valor de 127,5 milhões até meados de 2018".Efeitos propagam-se e o país estava avisadoMas, como referido, além da destruição física, os efeitos indiretos prolongaram‑se no tempo.A região Centro registou "impactos persistentes na atividade turística, sobretudo devido aos danos na paisagem [floresta], um ativo essencial para o sector".Portanto, “o impacto económico dos incêndios estende‑se para além das empresas que registaram danos físicos diretos”.A resposta em matéria de medidas de política deve ter em conta "o peso crescente dos riscos climáticos", num cenário em que “a cobertura de seguros pode tornar‑se mais limitada e os orçamentos públicos ficarem sujeitos a maiores restrições”.A solução mais duradoura passa por mais "prevenção e recuperação ambiental".Os economistas concluem que “o investimento público deve incluir a recuperação e proteção de infraestruturas essenciais”, tendo presente que “os incêndios florestais estão a tornar‑se mais frequentes e severos”.Avisam também que uma maior atenção aos dados que existem ajudaria a ampliar a eficácia da prevenção.Por exemplo, "uma análise visual do mapa [de risco de incêndios] indica-nos que uma parte significativa do território já apresentava um risco elevado ou muito elevado de incêndios em 2016, imediatamente antes dos grandes fogos analisados neste estudo".Mas, ainda assim, "as consequências da época de incêndios de 2017 destacam‑se como uma anomalia extrema, marcada por impactos sem precedentes", ressalvam os autores.Em meados de junho de 2017, o incêndio que deflagrou em Pedrógão Grande, e que depois alastrou a concelhos vizinhos, provocou 66 mortos e 253 feridos, sete dos quais graves, e destruiu meio milhar de casas, 261 das quais habitações permanentes, 50 empresas e 53 mil hectares de território, nomeadamente floresta..“Incêndios foram catastróficos”. Turismo com reservas canceladas até final do ano pede apoios ao Governo.Pedrógão. Chamas mataram 66 pessoas e atingiram cerca de 500 casas.O calor aperta e a floresta não muda. Estão de volta os incêndios violentos