Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal.
Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal.MIGUEL A. LOPES/LUSA

Governador do Banco de Portugal ganhou 3.361 euros com venda de ações e doou o dinheiro a uma fundação

Álvaro Santos Pereira disse no parlamento que vendeu os títulos após saber das regras do BCE, rejeitou ter usado informação privilegiada e defendeu que agiu com transparência ao comunicar as operações
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O governador do Banco de Portugal (BdP), Álvaro Santos Pereira, disse esta quinta-feira no parlamento que teve mais-valias de 3.361 euros com a venda das ações compradas já quando estava no cargo, montante que doou à fundação Make a Wish.

Numa audição no parlamento, após um requerimento apresentado pelo Chega sobre a compra de ações de empresas quando já estava à frente da instituição, Santos Pereira salientou que todos os passos na comunicação destas aquisições foram "proativos" pelo próprio, porque queria transparência.

O governador salientou também que as regras do Banco Central Europeu (BCE) "permitem que os governadores tenham títulos de empresas não financeiras, mas não que os adquira".

Tal como já tinha sinalizado, as mais-valias foram doadas a uma instituição, adiantando que o valor foi de 3.361 euros, que foram doadas à Make a Wish.

Nesta audição, o deputado do PS Carlos Pereira acusou o governador de "falhas graves do ponto de vista ético" e também institucionais, dizendo que considera "bastante estranho que alguém que aceita ser governador não tenha noção de que este tipo de atitude não pode tomar porque põe em causa transparência das instituições".

Criticou ainda o 'timing' da compra de ações, apontando que no mesmo dia em que participou em reunião do BCE "vai adquirir ações da Galp e passado uns tempos da Jerónimo Martins", empresas que têm "exposição a temas da inflação e da energia", que terão sido discutidos na reunião.

Já o deputado da Iniciativa Liberal Mário Amorim Lopes salientou que este incidente foi uma "imprevidência que poderia ter sido evitada se tivesse sido acautelado antes", apontando que o governador poderia ter consultado o BCE antes de comprar ações.

O Chega questionou o governador sobre se teve alguma informação privilegiada sobre esses ativos, o que recusou.

O pedido para a COFAP ouvir Santos Pereira partiu do Chega, na sequência de uma notícia do jornal Público de 27 de abril que revelou que o atual líder do BdP comprou ações de empresas quando já era governador.

Líder do BdP desde 06 de outubro de 2025, Santos Pereira comprou títulos da Jerónimo Martins, da Galp Energia, da Nestlé e da Navigator entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, e foi obrigado pelo Banco Central Europeu (BCE) a desfazer-se dessas ações entretanto.

Na declaração de interesses entregue junto do BCE em 12 de janeiro, o governador português indicou ter adquirido ações das duas empresas portuguesas (Jerónimo Martins e Galp Energia) em dezembro de 2025, comprando títulos do grupo dono do Pingo Doce em 29 de dezembro e da petrolífera nos dias 17 e 29 do mesmo mês.

Dois dias depois de o jornal Público noticiar estas operações, o governador revelou, em comunicado, que, em janeiro de 2026, também adquiriu ações da Nestlé e da The Navigator Company, e que fez reforços em ações da Galp Energia e da Jerónimo Martins.

 O código de conduta dos responsáveis de bancos centrais da zona euro, como é o caso do português, não proíbe mas limita a aquisição de ações de empresas privadas, motivo pelo qual o BCE analisou o assunto, obrigando Santos Pereira a desfazer-se dos títulos.

Num esclarecimento publicado no site do BdP em 29 de abril, Santos Pereira refere que foi o próprio quem “comunicou, atempadamente, ao BCE estas transações com ativos financeiros, todas relacionadas com entidades não sujeitas à supervisão do Banco de Portugal, no quadro do exercício anual de declaração de interesses realizada no início de 2026”.

Santos Pereira acrescenta que comunicou “todos os detalhes relativos ao seu património à Entidade para a Transparência” em 15 de janeiro e que, em 01 de abril, “o comité de ética do BCE transmitiu ao governador que a aquisição de ações, mesmo de empresas não financeiras, não era possível” e que teria de as alienar até 30 de junho de 2026.

Santos Pereira concluiu “esse processo de regularização” e “decidiu, ainda, doar as mais-valias resultantes da venda destas ações a uma instituição de responsabilidade social, refere-se no esclarecimento.

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