Portugal continuou a registar um excedente das contas públicas no período que vai de janeiro a agosto, no valor de 475,5 milhões de euros, mas isto sem os primeiros impactos da medida de alívio do IRS, que só serão evidenciados na síntese de execução orçamental até setembro, a divulgar daqui a um mês..De acordo com o novo boletim de execução, divulgado esta segunda-feira pela Direção-Geral do Orçamento (DGO), “as Administrações Públicas (AP) registaram, até agosto de 2024, um saldo orçamental de 475,5 milhões de euros, o que representa uma diminuição de 5163,9 milhões de euros face ao período homólogo, em resultado do aumento da despesa (10,9%), superior ao da receita (3%)”..Recorde-se que o défice orçamental das contas públicas portuguesas – que reapareceu em março deste ano, motivando fortes críticas do atual governo PSD-CDS ao seu antecessor do PS – acabou por desaparecer em julho, segundo relevou há um mês a tutela do ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento..Sabe-se agora que em agosto, houve, de facto, uma redução significativa do saldo, mas o excedente manteve-se. Mas, doravante, as contas vão refletir a aplicação da redução do IRS de trabalhadores e pensionistas por via do acerto das tabelas de retenção (para refletir a baixa de imposto até ao sexto escalão), o que poderá reduzir mais o excedente. A medida, com impactos de relevo em setembro e nos meses seguintes até final do ano, afetará sobretudo as execuções a divulgar em outubro e novembro..Segundo o Ministério das Finanças, esta fase de alívio do IRS (em 2025 haverá mais medidas), deve custar à volta de 650 milhões de euros em 2024..Para já, até ao final de agosto, “ajustado do efeito inerente ao Fundo de Pensões do Pessoal da Caixa Geral de Depósitos (FPCGD), o saldo orçamental das AP diminuiu 2145,5 milhões de euros, face ao registado no mesmo período do ano anterior, pelo facto de o aumento da despesa (10,9%) ter sido superior ao aumento da receita (7,5%). O saldo primário fixou-se em 5259,8 milhões de euros, menos 1708,8 milhões de euros que em 2023”..De acordo com o documento da DGO, “o aumento da receita de 7,5%, excluindo a operação de transferência do FPCGD, reflete o desempenho das receitas fiscal (3%), contributiva (9,7%) e não fiscal e não contributiva (19,2%). O crescimento da receita fiscal fundamentou-se, sobretudo, no desempenho do IRC”..Do lado dos gastos, o crescimento da despesa primária [despesa total sem juros] foi de 11% e “é explicado, essencialmente, pelos aumentos nas transferências (13,1%), despesas com pessoal (7,4%) e aquisições de bens e serviços (11,1%)”, diz a tutela..A DGO explica ainda que “na evolução das transferências (13,1%) salientam-se os encargos com pensões e outros abonos, enquadrados no regime geral da Segurança Social e no regime de proteção social convergente da Caixa Geral de Aposentações, refletindo especialmente a atualização do valor das pensões e, no regime geral da Segurança Social, também o aumento do número de pensionistas. São ainda de referir as transferências que visam a atenuação do impacto geopolítico e da inflação, com destaque para a compensação relativa à contenção dos preços das tarifas de eletricidade”..Já o aumento das despesas com pessoal (7,4%) “reflete o impacto das medidas de atualização remuneratória dos trabalhadores em funções públicas, a medida especial de aceleração das carreiras e a evolução verificada nas carreiras dos setores da Saúde e da Educação”, diz o ministério tutelado por Miranda Sarmento..“O crescimento na aquisição de bens e serviços (11,1%) teve particular evidência no Serviço Nacional de Saúde e no subsetor da Administração Local. Excluindo o impacto orçamental das medidas extraordinárias, a despesa efetiva e a despesa primária apresentaram, respetivamente, crescimentos de 11,6% e 11,7%.”.Vânia Duarte, economista do gabinete de estudos do BPI Research, considera que “os dados consolidados da execução até agosto (ótica de caixa) apontam para um excedente de 0,3% do Produto Interno Bruto (476 milhões de euros), o que compara com um excedente de 1,5% em igual período do ano passado (2621 milhões de euros)”, excluindo o impacto da tal transferência do Fundo de Pensões da CGD para a CGA..luis.ribeiro@dinheirovivo.pt