A antecipação de vendas ao exterior por parte da indústria farmacêutica portuguesa, sobretudo com destino aos Estados Unidos e à Alemanha (que é um dos maiores fornecedores de medicamentos dos EUA), foi tão grande no início do ano passado, na corrida contra o tempo nos meses que antecederam o anúncio das tarifas comerciais do governo de Donald Trump (no "dia da libertação", a 2 de abril de 2025), que um ano depois, a economia portuguesa ressente-se desse efeito de forma grave.As exportações totais portuguesas sofreram uma quebra de quase 7% no primeiro trimestre de 2026, o segundo pior registo de início de ano em duas décadas e meia, mostra um levantamento feito pelo DN a partir dos dados oficiais do comércio de mercadorias do Instituto Nacional de Estatística (INE).O impacto mais negativo veio da indústria farmacêutica nacional, que ajustou fortemente em baixa as suas vendas ao exterior, com uma quebra de 69%.Se expurgássemos este grande sector "farma" da balança comercial, as exportações nacionais evitariam o descalabro atual. Teriam estagnado (ou quase), cresceriam 0,2% no primeiro trimestre, segundo os mesmos cálculos do DN.A incerteza e o pior dos cenáriosA incerteza elevada em torno do que seriam as tarifas dos EUA sobre os medicamentos produzidos na Europa (e em Portugal), com Trump na altura, em março, a ameaçar impor taxas aduaneiras de "200%" sobre as vendas das farmacêuticas europeias, levou a uma sobre-reação do sector, que quase triplicou as vendas face ao que seria normal no primeiro trimestre de 2025, não fosse acontecer o pior dos cenários.Não aconteceu, Trump depois recuou e, a meio do verão, assinou um acordo com a União Europeia (negociado com a Comissão) onde acabou por estabilizar a sua fúria tarifária sobre as farmacêuticas em 15%.Aliviou Portugal e outros mercados europeus para onde a economia portuguesa exporta, sobretudo a Alemanha, que depois reencaminha muita desta produção para os EUA.Um terço dos medicamentos que saem da Alemanha tem como destino o mercado norte-americano.Mas, ainda com a ameaça demolidora da tarifa de "200%" fresca na memória para as farmacêuticas estrangeiras que não investissem mais nos EUA, as empresas portuguesas do sector meteram mãos à obra e venderam como nunca entre janeiro e fevereiro do ano transato, destacando-se, justamente, os destinos Alemanha e Estados Unidos, uma forma de evitar ou contornar o imposto (ainda desconhecido).Aconteceu exatamente o mesmo fenómeno noutros países europeus, como por exemplo a Irlanda.Corrida: exportações quase triplicaram no primeiro trimestre de 2025Nesse primeiro trimestre de 2025, as "farma" portuguesas venderam uns extraordinários dois mil milhões de euros em produtos (quase o triplo, mais de 190%, face ao mesmo período do ano precedente), puxando pelas exportações totais portuguesas de tal forma, que estas avançaram quase 8% nos meses em causa.Mas, este movimento extraordinário de antecipação face à imprevisibilidade dos EUA gerou, naturalmente, um efeito de base brutal que chegou com estrondo este ano na comparação homóloga, derrubando o crescimento das exportações nacionais.Como referido, segundo o INE, as exportações totais de mercadorias, a parte de leão do desejado "motor da economia portuguesa", retrocederam 6,5%, o segundo pior registo num arranque de ano em mais de duas décadas.O pior foi na recessão de 2009, ano em que a economia recuou 3% e as exportações cederam 27% no primeiro trimestre.Um sector em ascensão na volatilidadeO ajustamento das exportações farmacêuticas não significa que o sector esteja em dificuldades, muito pelo contrário.Segundo o INE, as vendas do sector, um dos mais importantes da economia em valor acrescentado (vale mais de 6% do total expedido anualmente), aumentaram de 1,8 mil milhões de euros em 2022 para 3,4 mil milhões de euros em 2024, mas em 2025, com a referida corrida contra as tarifas, a faturação chegou a 4,8 mil milhões de euros.Agora, em 2026, devido ao efeito de base, a indústria portuguesa de medicamentos ajustou-se aos níveis pré-Trump, com as exportações a afundarem mais de 69% face aos recordes do início de 2025.No primeiro trimestre deste ano, faturou 622 milhões de euros no mercado externo, em linha com o que acontecera em 2024.Depois da "fúria", veio o acordo de agosto passado que pacificou mais as relações entre EUA e UE.Na parte das "farma", foi definida uma tarifa de base de 15% para os medicamentos de marca ou patenteados, mas foram abertas exceções importantes para medicamentos genéricos (continuam sujeitos a tarifas muito baixas ou próximas de 0%) e para "algumas matérias‑primas ou precursores", também com tarifas reduzidas (de 0% a 3%), segundo dados do representante do sector nacional, a Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma).Isto limita o impacto efetivo médio pois a taxa real pode ficar abaixo de 15% para muitas empresas.A Apifarma evita sempre relacionar o evento das tarifas com o crescimento explosivo das suas exportações no ano passado, mas o seu gabinete de estudos mostra que, de facto, em 2025, houve um impulso grande no arranque do ano passado, antes do dia da libertação, com vendas aceleradas para a Alemanha e os EUA, os dois maiores mercados de Portugal (67% e 25%, respetivamente).Segundo a associação, "a Alemanha impulsionou significativamente as exportações da indústria farmacêutica em janeiro (676 milhões de euros), fevereiro (560 milhões de euros)" e depois, já com o novo acordo UE-EUA, em setembro (619 milhões de euros)".Idem no caso do mercado dos EUA, com a Apifarma a destacar "as exportações em março (285 milhões de euros) e agosto (284 milhões de euros), que contribuíram de forma decisiva para as exportações desses meses".