Nas últimas duas décadas, desde 2005 até ao final deste mês de janeiro, a economia portuguesa registou quase 600 eventos empresariais anunciados como sendo de dimensão relevante, envolvendo novos investimentos, expansão de atividades existentes, mas também redução na escala das operações empresariais, encerramentos/falências de empresas, seja porque fecharam definitivamente, ou porque houve deslocalizações.De acordo com um levantamento feito pelo DN/Dinheiro Vivo da extensa base de dados do Eurofound sobre Portugal, a agência da União Europeia que monitoriza os anúncios de casos maiores e mais mediáticos de "reestruturações" empresariais, os referidos processos de expansão ou de emagrecimento trazem resultados em termos de emprego.Nestas duas décadas analisadas, o saldo global é positivo: segundo os anúncios, foram criados ou houve intenção de criar quase 130 mil postos de trabalho, um número que mais do que compensa os quase 60 mil empregos destruídos (a maior parte via despedimentos coletivos anunciados pelas empresas e veiculados pela comunicação social ao longo dos anos).Resultado: foram criados 70 mil postos de trabalho, em termos líquidos, na sequência destes anúncios e registos assentados pelo Eurofound.Sem grande surpresa, três anos destacam-se como os mais negativos na criação líquida de empregos (quando as perdas de postos de trabalho superam os ganhos).Em 2005, a perda (líquida) ascendeu a 3428 empregos, um reflexo, entre outro fatores, da adesão da China e outras potências asiáticas à Organização Mundial do Comércio em 2001, país que, desde então, inundou Portugal e tantas economias europeias com produtos de menor valor acrescentado, mas muito mais baratos.Arrasou com muitas indústrias têxteis em Portugal, sobretudo no norte do país, por exemplo.Outros setores seguiram-se na contenda, como o automóvel, que enfrentou várias vagas de deslocalizações para a Ásia e o leste europeu, mostram os mesmos registos do Eurofound.Outro ano de má memória foi 2011, o primeiro do programa de ajustamento e de austeridade da troika, aplicado pelo governo de então (PSD-CDS), na sequência da bancarrota do país e da crise do euro. Foram perdidos quase mil postos de trabalho entre ganhos e despedimentos.Depois, 2020, o primeiro ano da pandemia, em que foram impostas pesadas medidas de confinamento às atividades das empresas e à circulação de pessoas. O saldo anual das "reestruturações" foi de menos 550 empregos.Segundo os dados da agência europeia, nestes 20 anos de observações, dos 60 mil empregos destruídos, mais de metade resultou de "reestruturações internas", empresas que continuaram, mas reduziram drasticamente a sua dimensão. A adoção de novas tecnologias que substituíram mão-de-obra humana é um dos principais motivos indicados.Cerca de cinco mil empregos desapareceram porque as empresas simplesmente saíram de Portugal.O segundo maior motivo foi mesmo o despedimento e o fecho definitivo. A fatura dos encerramentos e falências custou cerca de 19 mil postos de trabalho. Mas, como referido, Portugal é ganhador líquido em empregos nos últimos 20 anos. De acordo com os anúncios feitos ao longo deste período, terão sido criados (em termos brutos) cerca de 130 mil empregos. A esmagadora maioria foram "expansões de negócio", mostra o Eurofound.A captação de investimentos estrangeiros, os programas públicos de incentivos fiscais a projetos considerados prioritários e o reforço de algumas empresas já instaladas no país desde os anos 90 (veja-se o caso da Autoeuropa, a fábrica da Volkswagen em Palmela) geraram resultados positivos no mercado de trabalho.Quatro casosA base de dados do Eurofound é ampla e extensa em detalhes. Dos quase 600 casos registados, é possível destacar alguns pelo seu interesse e relevância para a economia portuguesa.Um dos mais recentes, surge na atividade dos centros de dados de alto rendimento, inseridos que estão nas cadeias globais das interligações via internet e que alimentam já o poder de processamento da inteligência artificial.A CTS, uma multinacional sediada na Suíça especializada em data centers, tornou‑se um dos símbolos do novo ciclo industrial de Sines.Este grupo instalou em Portugal um ecossistema com 11 empresas dedicadas a engenharia, construção e operação de data centers — um posicionamento estratégico favorecido pelos cabos submarinos, pela energia renovável abundante e pela proximidade ao Oceano Atlântico, usado como meio natural de arrefecimento, um aspecto crucial para estabilizar o desempenho dos potentes servidores.Em 2025, a empresa anunciou um plano de expansão que prevê mais de 2.000 novos empregos no curto prazo, enquadrado num plano mais abrangente avaliado em 12 mil milhões de euros em projetos digitais na região de Sines, no Alentejo.Fontes oficiais detalham que a CTS já tem fábricas e polos produtivos em Viana do Castelo, Vila Nova de Cerveira, Leiria, Braga, Porto, Sines, Lisboa e Elvas, integrando toda a cadeia de valor dos data centers. Além do impacto direto em empregos, a empresa refere que centenas foram já criados desde 2024 em engenharia, construção, software e serviços para os seus centros de dados.Mais antigo, de 2007, é o projeto da LOGZ, que estava muito ligado ao investimento na ferrovia de alta velocidade (TGV), abandonado por falta de dinheiro nos anos da crise, mas recuperado pelos dois últimos governos (PS e PSD-CDS).A LOGZ - Atlantic Hub surge como um megaprojeto logístico privado instalado no Poceirão, concebido para servir o chamado "triângulo estratégico" que liga os portos de Lisboa, Setúbal e Sines. A plataforma integra armazenagem, consolidação de cargas e ligação direta a eixos rodoviários e ferroviários.O projeto previa, em 2007, a criação de cinco mil empregos diretos e sete mil indiretos, tornando‑se assim uma das maiores apostas privadas de sempre em logística em Portugal.O caso ganha nova relevância no contexto de 2024‑2026 porque Sines voltou à ribalta como o grande "hub atlântico" do país para data centers, energia e cadeias globais de abastecimento.A gigante Redes Energéticas Nacionais (REN), a concessionária responsável pelas duas principais infraestruturas energéticas do país – a Rede Nacional de Transporte de Eletricidade (RNT) e a Rede Nacional de Transporte de Gás Natural (RNTGN) – foi privatizada nos anos da troika e parcialmente vendida à China num contrato de concessão de 50 anos.A REN é a dona das linhas de muito alta tensão, das interligações com Espanha, do terminal de GNL de Sines e gere o armazenamento subterrâneo de gás do país.A empresa desempenha um papel crítico na segurança e continuidade do serviço, num período em que Portugal regista sucessivos recordes de consumo elétrico (2025‑2026) e tenta acelerar a sua transição energética.Em 2009 anunciou uma expansão de negócio que envolvia a criação de dois mil postos de trabalho. Continua em expansão. Segundo o Eurofound, é caracterizada por ter uma menor rotação laboral, num setor que cria impactos económicos indiretos significativos e emprego altamente qualificado em engenharia, operação e cibersegurança.Um dos casos negativos neste pequeno rol é o do grupo Yazaki Saltano, uma multinacional japonesa presente em Portugal desde meados dos anos 80. É uma fabricante de cablagens e sistemas elétricos para a indústria automóvel, mas hoje surge como um dos casos mais marcantes de perda estrutural de emprego no setor.A empresa foi, nas décadas de 80 e 90, um dos maiores empregadores industriais de Portugal (chegou a ter mais de oito mil trabalhadores em Gaia e Ovar), mas sofreu sucessivas deslocalizações para o Leste europeu e o Norte de África.Entre 2025 e janeiro de 2026, a unidade de Ovar conta com dois processos de despedimento coletivo, o primeiro visando 364 trabalhadores (março a julho 2025) e depois mais 163, com efeitos imediatos (janeiro de 2026).A empresa justifica a medida com a "crescente pressão competitiva" e o colapso da procura de componentes elétricos para veículos elétricos na Europa — setor afetado pela forte concorrência chinesa e americana.À luz dos dados do Eurofound, é um dos casos mais negativos desde o ano passado, integrando o top 20 dos maiores destrutores líquidos de emprego..Inquérito a 1500 empresários da indústria antecipa colapso no emprego até à primavera de 2026