A esmagadora maioria dos cerca de 1500 empresários ou gestores de topo da indústria transformadora sediada em Portugal ouvidos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) entre 1 e 22 de dezembro está a antever um colapso na contratação (criação de emprego) ou mesmo um aumento no número de despedimentos ou de não renovação de contratos, mostra um estudo do INE.O indicador sobre as perspetivas (outlook) de emprego no período a que vai até março próximo – segundo o INE, "expectativas do número de pessoas empregadas nos próximos três meses" – afundou no inquérito conduzido no passado mês de dezembro até ao pior registo desde o tempo da pandemia (2020, o primeiro ano) e, antes disso, desde 2013, do tempo do programa de ajustamento e de austeridade da troika e aplicado pelo governo PSD-CDS (de Pedro Passos Coelho).Em dezembro, na indústria, a média móvel de três meses do indicador que mede o outlook para o emprego nos próximos três meses foi de -1,4, o primeiro registo negativo desde julho de 2020, quando registou um valor de -2,6, de acordo com as séries consultadas pelo DN.Atualmente, segundo o INE, a indústria transformadora dá emprego a 884 mil pessoas, o que equivale a 16% do total nacional.Segundo o INE, este indicador é o "saldo de respostas extremas [dos empresários] e corresponde à diferença entre a percentagem de respostas de valoração positiva e as de valoração negativa".Numa altura em que a maioria dos economistas considera que a economia portuguesa está praticamente numa situação de pleno emprego (com a criação líquida de emprego no limite e a taxa de desemprego estabilizada na fronteira dos 6% da população ativa), os novos dados do INE mostram que a confiança na indústria está, de facto, muito debilitada.No entanto, esta quebra surge compensada por perspetivas mais otimistas quanto ao emprego no setor dos serviços e do comércio, que estão muito ligados ao turismo, que continua exuberante.Nos serviços, o INE consultou 1403 empresários; no comércio, 1266 responsáveis.Más notícias no arranque de 2026O início deste ano de 2026 foi, aliás, marcado por más notícias na indústria, em concreto, no setor automóvel.A multinacional japonesa Yazaki Saltano, que está em Portugal desde 1986, anunciou mais um despedimento coletivo, neste caso, abrangendo 163 trabalhadores na operação de Ovar.Isto a somar aos mais de 300 visados por outro despedimento anunciado para a mesma fábrica em março do ano passado."Chamaram os trabalhadores, comunicaram que iam avançar com o despedimento coletivo e já os dispensaram de se apresentarem ao trabalho", disse à Lusa Justino Pereira, do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Atividades do Ambiente, a 16 de janeiro.De acordo com o mesmo sindicalista, a justificação avançada pela multinacional – que produz cablagens e sistemas eléctricos e electrónicos para as grandes marcas europeias – "não foge muito às alegações feitas no ano passado", dizendo que a aposta agora passa por "maior desenvolvimento tecnológico, robótica e inteligência artificial".O contexto desta empresa, assim como de tantas outras da indústria automóvel, é que "a recuperação a nível global foi mais lenta do que era expectável, do peso que agora tem a China no setor automóvel e dos custos com os salários, porque em Portugal ganhamos muito", ironizou o representante dos trabalhadores.No inquérito de conjuntura, o INE observa que "o indicador de confiança na Indústria Transformadora diminuiu em dezembro, após ter aumentado no mês anterior, refletindo os contributos negativos das opiniões sobre a evolução da procura global e das perspetivas de produção".No setor Construção e Obras Públicas, "o indicador diminuiu em dezembro, refletindo os contributos negativos de ambas as componentes: perspetivas de emprego e apreciações sobre a carteira de encomendas".Segundo o Banco de Portugal, no mais recente boletim económico de dezembro, "o mercado de trabalho permanece resiliente, com o emprego em níveis máximos e uma taxa de desemprego historicamente baixa"."No entanto, ao longo do horizonte de projeção, o menor crescimento da população, associado à redução dos fluxos migratórios, limitará a evolução do emprego e da atividade".O ritmo de criação de emprego, que em 2025 ainda conseguiu crescer mais de 2% (2,2%, segundo o banco central), deve travar a fundo nos próximo anos: a previsão para este ano está em metade disso (1,1%), depois esvai-se para um ritmo de 0,5% em 2027 e 0,3% em 2028, o que configura uma quase estagnação, prevê a autoridade governada por Álvaro Santos Pereira.O gabinete de estudos económicos da Universidade Católica Portuguesa (NECEP), coordenado pelo economista João Borges de Assunção, refere que "a estimativa de crescimento da economia portuguesa em 2026 foi revista em ligeira baixa (-0,2 pontos percentuais) para 1,8%, na sequência do impacto esperado com o fim do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) em meados do ano". "Este efeito será ainda mais intenso em 2027, o que suscitou uma revisão da anterior estimativa de 2,2% para 1,6% (-0,6 pontos percentuais)"..Yazaki lança mais meio milhar no desemprego