Não só as mulheres ganham menos do que os homens, como essa disparidade é bastante mais acentuada no valor das pensões de reforma que recebem. Enquanto o desvio nos salários rondava em 2023 os 12% em termos europeus (16% em Portugal), a diferença entre géneros no valor das pensões sobe para os 22%, em média na UE, e para 23% nos países da OCDE, segundo dados relativos a 2024 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico.Nesta matéria, as pensionistas portuguesas apresentam um diferencial 23% inferior aos pensionistas homens, totalmente em linha com os mais de 30 países da OCDE, e apenas ligeiramente acima da UE, segundo o relatório Pensions at a Glance, 2025, da OCDE.Com desvios muito mais acentuados, acima dos 30% em desfavor das mulheres, estão vários países como o Reino Unido, os Países Baixos, a Áustria, o Luxemburgo, a Bélgica, a Suíça ou a Irlanda. Em algumas economias o diferencial pode mesmo chegar aos 35%. Por seu lado, os menores desvios registam-se na Estónia, Islândia, Eslováquia, Chéquia, Eslovénia e Dinamarca onde a oscilação é igual ou inferior a 10%.Estes resultados explicam-se por um conjunto de fatores, com destaque para o peso da maternidade. Muitas mulheres, nos países mais díspares, reduzem o horário de trabalho para cuidar dos filhos, o que está associado a penalização salarial por trabalho a tempo parcial. É uma opção e um direito que acaba por baixar tanto o rendimento atual como os direitos de pensão futuros.Também conduzem a salários mais baixos ao longo da vida e a carreiras mais curtas, deixando às mulheres menos rendimento disponível para investir em pensões privadas, apontam os especialistas. Por cada 100 euros ganhos pelos homens as mulheres só recebem 88.Já a realidade portuguesa caracteriza-se por uma elevada participação das mulheres no mercado de trabalho (para complementar rendimentos familiares que são baixos) e a um menor recurso à figura do trabalho a tempo parcial do que em vários países europeus. Isto ajuda a explicar o facto de Portugal não ser dos piores neste retrato da desigualdade. Mas, por outro lado, muito do trabalho era informal e não declarado. Ainda assim, as portuguesas auferem salários 238 euros inferiores e a dispariade acentua-se para os 26% nos cargos de topo.As diferenças entre países refletem variações nos padrões estereotipados de género no que diz respeito aos cuidados e às responsabilidades domésticas. “Estados sociais conservadores, como a Alemanha, combinam elevadas taxas de trabalho feminino a tempo parcial, longas interrupções na carreira e tributação conjunta do agregado familiar, fatores que ampliam essa diferença”, disse a professora Alexandra Niessen-Ruenzi, da Universidade de Mannheim,na Alemanha, citada pela Euronews.Em contrapartida, os países nórdicos e alguns países da Europa Central e Oriental tendem a apresentar diferenças nas pensões entre os sexos muito menores. “Nestes casos, os percursos de emprego a tempo inteiro das mulheres aproximam-se mais dos dos homens, os cuidados à infância estão amplamente disponíveis e os sistemas de pensões incluem mais elementos redistributivos ou créditos pelos anos de cuidado a dependentes”.Portuguesas recebem 490 eurosEm Portugal, a pensão média auferida pelas mulheres rondava os 490 euros em 2024, de acordo com um estudo do Banco de Portugal intitulado ‘Os pensionistas de velhice em Portugal: uma análise com microdados’. Nese ano, a pensão média total rondava os 645 euros mensais, num universo em que metade dos pensionistas do regime geral recebia menos de 462 euros.Reforçando a ideia da desigualdade de género, os dados indicam igualmente que a incidência das pensões mínimas é mais acentuada entre as mulheres, que representam 60% deste grupo.Em causa quando falamos em pensionistas está um contingente crescente que se conta em 2,5 milhões de pessoas, o equivalente a 23% da população portuguesa, embora um em cada dez reformados continuem a exercer atividade laboral após a aposentação.Em 2025, os valores das pensões mínimas em Portugal variaram entre 339,55€ e 493,52€, dependendo dos anos de contribuição. E em 2026, as pensões vão aumentar entre 2,02% e 2,8%.Há sinais positivos, visto que a disparidade nas pensões entre homens e mulheres na Europa desceu de 28% em 2007 para 22% em 2024, sendo que em Portugal essa baixa superou os 10 pontos percentuais. “A forte diminuição das diferenças no mercado de trabalho entre homens e mulheres está a impulsionar esta redução do hiato salarial entre géneros [em muitos países], mas demora até que estas mudanças se reflitam totalmente em menores desigualdades nas pensões”, observa o relatório Pensions at a Glance 2025, da OCDE.