E se ainda formos a tempo de, com um pequeno ajuste na microlocalização do Aeroporto Luís de Camões, evitar a poluição e o ruído diário sobre milhares de pessoas, preservar melhor a biodiversidade e ainda prevenir o choque de aves com os aviões? E se, para além desses ganhos face à proposta atual, conseguíssemos poupar tempo, dinheiro e toneladas em emissões de CO2? É esta, em termos gerais, a proposta que associações de moradores e juntas de freguesia de Benavente e Montijo, apoiada por estudos técnicos, lançam esta quinta-feira numa carta aberta dirigida à ANA -Aeroportos de Portugal.“Não se trata de mudar a localização, que continuaria a ser no Campo de Tiro de Alcochete - tal como indicado pela comissão técnica independente -,mas apenas de desviar a implantação das pistas 5 km para Oeste, no sentido de Lisboa, fazendo-a coincidir com a atual pista militar existente”, explica Jorge Sousa, engenheiro especializado em aérodromos e ex-professor na prestigiada Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, em declarações ao DN. “Só se houver razões que a razão desconheça é que estes argumentos não serão considerados”, acrescenta, tão convicto que está da justeza das alterações agora defendidas.“É apenas um pequeno ajuste, sem custos adicionais, nem impactos políticos ou operacionais, mas que pode fazer toda a diferença na qualidade de vida da população local, mas também no ambiente”, defende aquele especialista. “Os chamados cones de aproximação à pista e de descolagem das aeronaves deixariam de estar sobre a cabeça das populações e passariam para uma zona sem impactos negativos”.Em causa não está só a qualidade de vida e direito à saúde das populações abrangidas, mas também a própria segurança aeronáutica, alega. Porquê? Porque no polígono de implantação considerado pela comissão técnica independente há bastantes mais aves, inclusivé de grande dimensão como gaivotas, do que no polígono agora proposto, sustenta o estudo que acompanha a proposta, da autoria da Biodesign e ao qual o DN teve acesso. Por outro lado, “é também nessa área que existe uma ribeira que é incompatível com a operação aeroportuária e teria de ser tapada, destruída, comprometendo a biodiversidade da área”, explica também o presidente da associação de moradores da Mata do Duque.As populações que deverão sofrer maiores impactos são as de Pegões e de Santo Estevão, sendo que, no geral, os efeitos são estimados para um universo entre 4 mil a 12 mil pessoas, contando com o crescimento urbanístico previsto já para os próximos anos, na sequência do desbloqueio de autorizações de construção.As conclusões deste estudo corroboram análises anteriores de outras entidades como o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) no sentido de que tal ajuste “permite reduzir de forma muito significativa o impacto do ruído sobre populações residentes (menos 70%), melhorar a eficiência carbónica do projeto e concentrar a infraestrutura em solo público já afeto a uso aeronáutico e militar, reduzindo a necessidade de expropriações adicionais, bem como os custos económicos, sociais e administrativos associados a processos expropriativos prolongados”.Sobre a eficiência carbónica, o estudo de uma consultora espanhola especializada em estudos ambientais, a ABALEO, indica que o desvio de 5 km e respetivo encurtamento da distância entre o aeroporto e a capital, resultaria numa poupança de emissões muito substancial. A simples redução do trajeto rodoviário em 5 km entre a margem norte e a margem sul (10 km em ida e volta) permitiria poupar um total de um milhão de toneladas de Co2 ao longo da vida útil da infraestrutura. “Este valor equivale, em termos de fixação de carbono, à plantação e manutenção anual de 7 milhões de sobreiros ao longo de 40 anos”, conclui o estudo da ABALEO.Por tudo isto, as associações e as freguesias que subscrevem a Carta Aberta à ANA, sustentam que “não se deve perder a oportunidade de afinar a implantação das pistas enquanto o projeto ainda se encontra numa fase em que decisões técnicas podem e devem ser ponderadas”. Com efeito, o projeto do Aeroporto Luís de Camões está ainda em fase de Estudo de Impacte Ambiental e, em teoria, pode sofrer ajustes. Resta saber se existe vontade política para tal, correndo o risco de arrastar, ainda que minimamente, um processo que está pendente há várias décadas.Jorge Sousa acredita que a opção pela microlocalização terá tido sobretudo a ver com a poupança que representa no abate de sobreiros e com o receio de um chumbo da Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Mas o engenheiro sustenta que existe a intenção, que pode passar a compromisso, dos concelhos abrangidos fazerem uma replantação regular de sobreiros para compensar esse abate, no outro polígono, com a vantagem a longo prazo de se optar por uma espécie mais resistente, pois o efetivo de sobreiros no local está afetado por doenças. Na solução em cima da mesa existe o abate de cerca de 48 mil sobreiros e nesta proposta em causa estariam 90 mil.“As associações e autarquias reconhecem a existência de impactos ambientais relevantes em qualquer das opções em análise”, mas defendem que “a decisão final deve resultar de uma avaliação comparada, transparente e baseada em dados técnicos verificáveis, que equilibre proteção ambiental, saúde pública, eficiência do investimento público e interesse nacional de longo prazo”, diz a missiva.