O custo dos alimentos frescos e essenciais, os chamados alimentos não transformados, registou um agravamento maior agora, com nova guerra no Médio Oriente, do que há quatro anos, quando a Rússia abriu hostilidades e invadiu a Ucrânia, mostram cálculos do DN a partir de dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).O preço médio do período janeiro a abril deste ano do cabaz de alimentos não transformados aumentou 6,7% em termos homólogos (face ao primeiro quadrimestre de 2025), mais do agravamento de 5,7% que marcou o mesmo período inicial do ano de 2022. Em abril passado, o preço destes alimentos subiu mais de 7%.Um ano antes, nos primeiros quatro meses de 2025, o custo destas mercadorias essenciais estava a subir apenas 2,6%, segundo as contas do DN.Ambas as guerras (a invasão da Ucrânia e a primeira vaga de ataques ao Irão aconteceram nos meses de fevereiro de 2022 e 2026, respetivamente).Estes alimentos não transformados têm um peso muito significativo no orçamento das famílias, sobretudo as mais pobres. Estamos a falar de produtos como verduras, leguminosas (feijão, grão, ervilhas), arroz, batatas, frutas, peixe, carne, leite, ovos, cereais, etc..A mesma coisa (ou até ligeiramente pior) acontece no caso dos produtos alimentares. Segundo os dados extraídos das bases de dados relativas aos bens e serviços que integra o cabaz que serve para calcular o Índice de Preços no Consumidor (IPC), e que foram atualizadas pelo INE esta quarta-feira, os alimentos sazonais (fruta e vegetais da época, basicamente) viram os seus preços médios aumentarem mais de 6,4% nos primeiros quatro meses deste ano (face ao período homólogo), quase o dobro do impulso sentido na sequência da invasão da Ucrânia pelos russos.O aumento do custo de vida pelo lado da comida foi maior agora e soma ao agravamento acumulado dos preços que se verificou nos últimos quatro anos marcado por conflitos militares e guerras comerciais, sobretudo patrocinadas ou alavancadas pelo governo do Presidente dos EUA, Donald Trump.O mesmo acontece com o custo dos combustíveis. Continuaram a encarecer no arranque deste ano e sobretudo em março e abril, mas, como já repararam vários observadores e economistas, o efeito desta nova guerra foi menor do que no tempo da invasão da Ucrânia porque na altura a Europa era um grande cliente do gás russo.Seja como for, o aumento agora continua a ser substancial e vem somar à inflação vivida nos últimos quatro anos.Em todo o caso, a partir dos novos dados do INE, é possível concluir que o custo de vida não está a ter uma vida fácil.Em março, o preço da componente do IPC designada "combustíveis líquidos e combustível e lubrificantes para equipamento para transporte pessoal" aumentou mais de 12% e depois, em abril, mais de 24%, o que faz com que neste arranque de ano (janeiro a abril), o custo médio destes produtos tenha saltado quase 7% face há um ano.Nessa altura, a inflação homóloga estava estável, quase nula, registou um aumento marginal de 0,2% (média janeiro a abril)Quatro anos antes, quando começou a guerra contra a Ucrânia, o choque foi imediato e maior: o custo dos combustíveis para os consumidores finais estava a subir, em termos homólogos, quase 27% no período janeiro-abril.Em termos mais gerais, o INE mostra que a inflação nacional atingiu 3,3% em abril deste ano, o valor mais elevado em dois anos. Há um ano, em abril de 2025, o aumento dos preços estava controlado, em 2,1%."O IPC da energia continuou a agravar-se bastante depois do que se verificou em março, onde reverteu para valores positivos e já elevados, após cinco meses de desinflação", observa Tiago Correia, economista do Banco BPI, numa análise aos números do INE.Para este analista, "o impasse no conflito no Médio Oriente começa a deixar a sua marca mais vincada, em especial no preço dos combustíveis", frisando que os dados do governo "revelam que em abril, a gasolina simples 95 e o gasóleo aumentaram, em média, o preço no retalho em 5,4% e 10,1%, respetivamente, face a março".No caso da comida, a história é parecida. "Na frente alimentar, quer os produtos não transformados, quer os transformados viram a inflação aumentar de forma significativa, para 7,4% e 2,4% respetivamente" em abril."O conflito no Médio Oriente também tem consequências no acesso aos fertilizantes pois uma fatia importante é transportada via Estreito de Ormuz" e "o sector agrícola e das pescas está também muito exposto ao aumento dos preços dos combustíveis", avisa o mesmo economista..Rendas, férias, jóias, carne, café, restaurantes: eis alguns dos campeões da inflação em Portugal.A seguir a um choque petrolífero pode vir um choque alimentar por causa dos adubos