Em tempo de guerra são de esperar explosões e atos de agressão regulares, mas no domingo, ao final do dia, caiu uma bomba no coração do sistema financeiro global cujos efeitos podem ser altamente destrutivos, com a escalada da administração Trump contra a toda-poderosa Reserva Federal (Fed) e o seu presidente.Se este embate não for resolvido a bem, vários analistas temem uma forte desvalorização do dólar, quebra nas bolsas e no valor dos ativos made in USA, a par do desmantelamento da Fed como atual garante da estabilidade de preços e inflação e, ato contínuo, um novo quadro em que as decisões futuras sobre as taxas de juro da maior economia do mundo pouco ou nada terão a ver com os fundamentos económicos, mas antes com as “preferências” de Trump.No caso em apreço, é o desejo em descer taxas e mantê-las muito baixas durante muito tempo, se isso for possível.Neste cenário, seria o fim da, até agora intocada, “independência” do maior banco central do mundo, com eventuais consequências nefastas na credibilidade de outros, como o Banco Central Europeu, por exemplo.Segundo o The New York Times (NYT), que avançou com a notícia no domingo ao final do dia (artigo pago para assinantes), o governo dos Estados Unidos da América (EUA), liderado por Trump, fez saber que vai abrir um processo “criminal” contra Jerome Powell, o presidente da Reserva Federal dos EUA (Fed, o banco central do país), por este ter, alegadamente, sido “incompetente” e deixado derrapar o custo das obras de renovação da sede da Fed, avaliadas em 2,5 mil milhões de dólares (2,1 mil milhões de euros).Não menos importante, o esboço da ação liderada pela procuradoria pública de Washington D.C. vai ainda investigar se Powell mentiu ao Congresso sobre os custos das obras, refere o NYT.Jerome Powell foi indicado para presidente da Reserva Federal pelo próprio Trump, em 2017, mas os dois estão totalmente desavindos desde a tomada de posse do Presidente dos EUA, no início de 2025.Trump tem exigido uma redução de taxas de juro muito mais acelerada para assim aliviar a carga de juros gerada pela enorme dívida dos Estados Unidos. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o rácio do endividamento federal terá terminado o ano de 2025 perto de 125% do Produto Interno Bruto (PIB) e estará a caminho dos 130% este ano.Entretanto, no meio dos ataques e insultos de que foi alvo, Powell que lidera a Fed já cortou nas taxas, mas para o Presidente americano não chega.O mandato de Powell termina em maio deste ano, 2026.Kevin Hassett, economista conservador de direita e conselheiro económico de Trump, é visto como a escolha mais provável para suceder a Powell.Hassett tem de 63 anos e presidiu ao Conselho de Conselheiros Económicos da Casa Branca durante o primeiro mandato de Trump, liderando atualmente o Conselho Económico Nacional.Vários analistas e investidores de Wall Street continuam a considerar o nome mais forte para o cargo, tendo em conta as preferências do Presidente americanos.Segundo a BBC, "Hassett tem sido um defensor acérrimo das políticas económicas de Trump, desvalorizando dados que mostram sinais de fragilidade na economia norte-americana e repetindo as alegações de parcialidade no Departamento de Estatísticas do Trabalho"."A sua lealdade ao Presidente gerou questões entre os analistas sobre se agiria de forma independente na Fed", segundo a mesma BBC.Insultos: Powell, o "demasiado atrasado"Trump têm insultado várias vezes o chefe da Fed por este estar “demasiado atrasado” na redução dos juros.O banqueiro tem resistido à pressão, mas a notícia de que será investigado “criminalmente” foi a gota da água.Naquele que foi o seu primeiro comunicado a título pessoal desde que assumiu a liderança da Fed em 2017, Powell atacou Trump.Nessa nota oficial, o banqueiro central diz que “esta nova ameaça não se refere ao meu depoimento em junho nem à renovação dos edifícios da Reserva Federal”.“A ameaça de acusações criminais é uma consequência do facto de a Reserva Federal definir as taxas de juro com base na nossa melhor avaliação do que será melhor para as pessoas, em vez de seguir as preferências do Presidente [Trump]”, acusou o economista..Casa Branca nega que Trump tenha ordenado investigação contra banco central .Powell atirou também que, neste caso extremo, “trata-se de saber se a Fed será capaz de continuar a definir as taxas de juro com base em evidências condições económicas - ou se, em vez disso, a política monetária será dirigida por pressão política ou intimidação”.Analistas apreensivos, alguns "atónitos"Francesco Pesole, especialista em mercados cambiais no grupo ING, considera que “o confronto entre o Departamento de Justiça e a Fed é potencialmente explosivo para o dólar”.“A tendência de valorização constante do dólar foi abruptamente interrompida durante a última noite, depois de o presidente da Reserva Federal ter afirmado que a Fed recebeu intimações do grande júri do Departamento de Justiça”, refere o analista.Analisando as palavras de Powell, “foi um ataque à independência da Fed” e “a reação dos mercados concordou com esta visão”. “A queda do dólar, das ações e dos títulos do Tesouro fez-nos recordar os dias de vendas de ativos americanos da primavera passada”, considera o economista do ING.Frederik Ducrozet, economista-chefe da gestora de grandes investimentos Pictet Wealth Management, concorda, acrescentando que “o próximo presidente da Fed terá uma missão impossível” ao nível das taxas de juro e que, atualmente, “os riscos de longo prazo parecem subvalorizados”.Os índices dos principais mercados reagiram logo. Os futuros do S&P 500 caíram, os futuros dólar cederam, a taxa de juro das Obrigações do Tesouro dos EUA a 10 anos subiram 0,7%, o oposto do que Trump deseja. Em contrapartida, a maioria dos criptoativos (Bitcoin incluída) ganhou com a desgraça de Powell, o ouro atingiu novos máximos históricos, com o agravamento desta incerteza política.Os analistas alertaram que a escalada pode não ficar por aqui; pode provocar perdas adicionais no futuro a nível de ações, dólar e títulos da dívida pública dos EUA, padrão associado a episódios recentes de quebra na confiança na política monetária da Fed.Krishna Guha, economista da casa de investimentos Evercore, confessa, em comunicado de imprensa, que “estamos atónitos com este desenvolvimento profundamente perturbador, que surgiu do nada, após um período em que as tensões entre Trump e Fed pareciam estar controladas”..Presidente dos Estados Unidos diz já saber quem vai liderar Reserva Federal."Há risco de perda de independência na Reserva Federal" dos EUA, diz vice-governadora do BdP