A compra, em março, da totalidade do capital da Cimpor pela taiwanesa TCC deu o tiro de partida para uma nova vida da histórica cimenteira portuguesa. A empresa, que é líder de mercado no cimento em Portugal, já estava empenhada no processo de descarbonização - um projeto antigo do ex-CEO Luís Fernandes -, mas a corrida para a neutralidade carbónica acelerou. E muito. Que o digam os investimentos que a Cimpor - agora sob o controlo da TCC - tem previstos para os próximos anos..Até 2030, por exemplo, a Cimpor vai investir em Portugal 1,4 mil milhões de euros, sobretudo em equipamento e tecnologias que visam uma produção neutra em CO2, afirmou ontem o CEO da empresa, Cevat Mert. Desse valor global, cerca de 360 milhões serão investidos até meados de 2026, completou..Em conversa com alguns elementos da imprensa portuguesa em Lisboa, o gestor turco - que assumiu o cargo em junho deste ano - salientou que o Grupo TCC está a investir fortemente em equipamento e alterações nos seus processos produtivos, com vista a reduzir a sua pegada de carbono, tendo alinhados novos projetos em Bristol (Reino Unido), mas também em França e nos Estados Unidos. O objetivo do grupo é ser neutro em carbono até 2050..Quanto a Portugal, o investimento será na transformação das atuais fábricas, entre as quais Alhandra e Souselas. “Faz sentido economicamente investir aqui. No próximo ano (e até meados de 2026) vamos investir 360 milhões em Portugal. E até ao final de 2030, a escala do nosso investimento vai chegar aos 1,4 mil milhões”, declarou Cevat Mert. .“O nosso desafio número um neste momento é o CO2. [O investimento] será em nova tecnologia e sustentabilidade, na descarbonização das atuais fábricas”, acrescentou o gestor, subli- nhando que, no final do processo, as atuais instalações produzirão “ligeiramente mais, mas gerando muito menos carbono”..A redução de emissões é um dos maiores desafios da indústria cimenteira que, de acordo com os compromissos atuais, terá de ser neutra em termos de carbono até 2050. O fabrico de cimento requer enormes quantidades de calor, o que se traduz em muita energia despendida a queimar calcário e argila, produzindo assim o clínquer, que é a matéria-prima do cimento..Tradicionalmente, essa energia (e calor) era obtida através da queima de carvão ou gás natural..Os projetos em que a Cimpor está a investir visam não só um melhor aproveitamento “e recuperação do calor que se escapa do sistema”, mas também projetos de fabrico de cimento a partir de outras matérias que não o clínquer..Isso trata da parte do cumprimento das metas de sustentabilidade. A outra questão é a da evolução - crescimento ou não - das vendas..O DN questionou Cevat Mert sobre se a Cimpor espera crescer em volume de vendas ou através da evolução em alta do preço. Por outras palavras, se as novas tendências de construção sustentável ainda suportam o crescimento do negócio das cimenteiras..“Neste momento, o crescimento das nossas vendas de cimento está em linha com o crescimento de Portugal, talvez ligeiramente acima, o que é uma boa, estável e saudável condição de mercado”, respondeu Cevat Mert. “Estamos contentes com essa projeção”, rematou..As projeções do Governo para o crescimento do PIB português são de 1,8% este ano e 2,1% em 2025. As projeções do FMI são ligeiramente mais otimistas: 1,9% este ano e 2,3% no próximo..Mas há outras boas perspetivas para a Cimpor: o eventual arranque, nos próximos anos, das grandes obras de infraestrutura em Portugal (novo aeroporto internacional de Lisboa, a Terceira Travessia do Tejo), bem como a ampliação das obras da Alta Velocidade (atualmente entre Porto e Lisboa, mas prevista também para Madrid). “Penso que os projetos governamentais de infraestrutura começaram a ganhar algum impulso. Por isso, se forem construídos [estes projetos] vai ser bom [para a Cimpor]. E estamos a investir centenas de milhões em captura de carbono”, insistiu Cevat Mert..“Claro que operamos em vários mercados de exportação, por isso podemos equilibrar lindamente a nossa quota de mercado”, disse ainda. A Cimpor exporta cerca de 25% da sua produção, pelo que os restantes 75% são consumidos pela construção no mercado português.